Eu já conhecia Paul Gallico pelo The Poseidon Adventure, sua obra mais conhecida, em razão das várias adaptações para o
cinema. Quem leu aquela minha resenha deve lembrar da impressão que destaquei
sobre a possibilidade que se perdeu de se fazer um clássico. A ideia do livro
tinha potencial para tanto, mas as escolhas do romancista, sobretudo na segunda
metade, arruinaram o que poderia ter sido sua obra-prima. Contudo, o título de
obra máxima do autor já estava reservado a uma pequena narrativa publicada
quase 30 anos antes.
O Ganso das Neves (1941) é um conto relativamente longo (contém aproximadamente trinta
páginas), e um dos mais belos de quantos tenho lido. A narrativa, em sua
simplicidade, contém tantos atrativos, que se torna difícil enumerá-los. Não há
resenha que dê conta de transmitir as sensações que o texto provoca, e isso só
ocorre verdadeiramente às grandes obras.
A qualidade mais notável dessa pequena joia
literária é sem dúvida a sensibilidade, responsável em grande parte pela beleza
do texto. A escrita, claro, é de um refinamento apreciável, mas as imagens que
ela evoca é que enlevam o leitor no decorrer das páginas. Imagine-se num lugar
em que todos os ângulos acusam o belo, que se terá uma ideia aproximada do que
seja O Ganso das Neves.
O enredo é sobre um homem solitário, Philip
Rhayader, que decide se isolar num antigo farol, próximo a um grande pântano do
interior da Inglaterra. Rhayader é corcunda e seu braço esquerdo é aleijado.
Incomodado com a discriminação das pessoas sobre sua aparência, ele prefere
manter-se distante do contato humano, limitando-se a pequenas viagens de barco
até a vila onde compra seus suprimentos.
Rhayader, a despeito da aversão que provoca nas
pessoas, não alimenta sentimentos negativos em relação a elas. Ele ama o ser
humano, os animais, a natureza, e expressa tudo isso através da arte, pois, em
seu tempo livre, ele pinta telas onde figura seu universo particular, no qual
as aves ocupam um lugar especial. Rhayader mantém um viveiro, que ele prefere
chamar de santuário, onde coleciona as mais variadas espécies de aves, que são
alimentadas e cuidadas por ele.
Sua vida segue assim tranquila e previsível até o
dia em que surge no farol uma menina carregando um ganso ferido. Frith tem doze
anos. Ela salvara o ganso de ser morto por caçadores. Conhecendo as histórias
sobre o estranho solitário que criava pássaros, ela decide enfrentar o medo e
pedir-lhe ajuda. Rhayader naturalmente acolhe o animal, mas fica impressionado
ao constatar que se trata de um ganso-das-neves do Canadá. A ave, que é fêmea,
recebe a sugestiva alcunha de “la princesse perdue” (a princesa perdida, em
tradução do francês).
Frith passa a visitar Rhayader frequentemente,
sempre interessada pela recuperação do ganso-das-neves, e uma amizade
inesperada surge entre os dois. Aquela curiosa aproximação resistiria aos anos,
sendo “a princesa perdida” o principal elo entre a garota e o homem. Como já
previsto, aqueles sentimentos ganham novos contornos com o transcorrer do
tempo, mas permanecem silenciosos e apenas pressentidos em segredo.
O que também não deixa de ser pressentida é alguma
tragédia iminente. A narrativa se passa no período da Segunda Guerra Mundial, e
esse contexto é a rasura que ofusca a harmonia da tela. O Ganso das Neves
é assim esse quadro cuja beleza não se perde, mas é impossível não lamentar e
pensar no que poderia ter sido.
Avaliação: ★★★★★
Daniel
Coutinho
***
Instagram: @autordanielcoutinho






