sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Eu Sou uma Lésbica, de Cassandra Rios - RESENHA #225 (contém spoilers)

Anos atrás, quando li A Volúpia do Pecado (1948), romance de estreia de Cassandra Rios, penso ter sido bastante benevolente com a novel escritora de apenas dezesseis anos. Mas agora que li Eu Sou uma Lésbica (1981), publicado quando a autora beirava os cinquenta, posso ser um carrasco sem culpa.

De antemão, preciso dizer que este é o livro mais repulsivo que já li em toda minha vida, e desejo profundamente que nenhum outro o desbanque, para a saúde do meu estômago. Que esta resenha sele, portanto, minha despedida com dona Cassandra, pois não tenho a intenção de ler qualquer outro da centena de livros que ela publicou.

Sejamos justos em admitir que a escrita da autora melhora consideravelmente trinta anos passados de sua péssima estreia. Eu Sou uma Lésbica está bem escrito, tanto quanto possível. Não se pode negar que Cassandra Rios tivesse talento com as palavras. Suspeito que, em outras circunstâncias de vida, ela teria sido uma escritora melhor e, portanto, menos interessada em ser chocante. Se vivesse hoje, ela publicaria livros do tipo “Caí nas Garras do Lobo-Mau e Me Dei Bem”, e sem precisar recorrer à inesgotável criatividade da IA.

Ao iniciarmos a leitura de Eu Sou uma Lésbica, antevemos um assunto pertinente, principalmente para a época. A novela tem um ótimo começo: a pequena Flávia sob a mesa apreciando as pernas das mulheres. Nazaré Tedesco certamente sentiria cheiro de couro ao ler esta cena. É um começo sutil, promissor, sugestivo, adequado a uma personagem de sete anos que mais tarde se descobrirá lésbica.

Flávia é a narradora do livro, que pretende ser uma análise de sua vida sexual. Ao tratar da infância, ela julga ter sido uma menina precoce. Está obviamente usando de um eufemismo, o que não se demora a constatar. A fixação pelas pernas de dona Kênia ganha desdobramentos bastante explícitos. E sim, dentre outras cenas chocantes, leremos sobre uma criança de sete anos transando com uma mulher casada.

Quando cito que a menina de sete anos transa com a mulher casada, não estou me referindo a pequenos atos libidinosos ou sutilezas sexuais subentendidas. Também não estou falando de uma criança que é torpemente abusada ou molestada sexualmente. É evidente que existe abuso, mas não é disso que trata a novela. A narradora nos conta sobre como ela mesma convida dona Kênia para “brincar de gatinho”, e do quanto a brincadeira é bem aceita, culminando em sexo com penetração.

Pensando nos leitores mais pervertidos, que talvez não se chocassem com a iniciação sexual de uma menina de sete anos, a autora decide tornar a pequena Flávia numa espécie de Rhoda Penmark, fazendo com que ela provoque a morte do marido de Kênia por envenenamento. Mesmo havendo outras, penso ter citado as passagens mais escabrosas.

Se lembrarmos do quanto a intolerância à homossexualidade era maior na década de 80 que em nosso tempo, teremos uma noção do desserviço que foi a publicação dessa novela naquele período. Se já era comum que gays e lésbicas fossem vistos como seres doentios, por que não retratá-los como maníacos sexuais homicidas, e assim corroborar com a ideia generalizada entre nossos pais e avós? Esta parece ter sido a brilhante ideia de Cassandra Rios.

Agora desconsideremos o impacto social e pensemos no fator estético. Haverá beleza em Eu Sou uma Lésbica? Para alguém terá sido catártico o episódio em que Flávia perde a virgindade com o salto da sandália de dona Kênia? Eu não duvidaria disso. Mas nem preciso dizer que são de outra qualidade os livros que me arrebatam.

As narrativas de Cassandra Rios parecem ter como propósito fundamental chocar o leitor. O alvoroço que sua estreia literária causou parece ter implantado na autora a ideia de que aquele era o caminho do sucesso, como costuma ocorrer a tantos autores best-sellers que levam suas fórmulas à exaustão, até que a disposição do público mude e aponte para outras novidades. É o tipo de literatura que já nasce com um prazo de validade. E essa aqui já venceu.

Avaliação: ★

Daniel Coutinho

***


Instagram: @autordanielcoutinho
E-mail para contato: autordanielcoutinho@gmail.com

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O Ganso das Neves (The Snow Goose), de Paul Gallico - RESENHA #224

Eu já conhecia Paul Gallico pelo The Poseidon Adventure, sua obra mais conhecida, em razão das várias adaptações para o cinema. Quem leu aquela minha resenha deve lembrar da impressão que destaquei sobre a possibilidade que se perdeu de se fazer um clássico. A ideia do livro tinha potencial para tanto, mas as escolhas do romancista, sobretudo na segunda metade, arruinaram o que poderia ter sido sua obra-prima. Contudo, o título de obra máxima do autor já estava reservado a uma pequena narrativa publicada quase 30 anos antes.

O Ganso das Neves (1941) é um conto relativamente longo (contém aproximadamente trinta páginas), e um dos mais belos de quantos tenho lido. A narrativa, em sua simplicidade, contém tantos atrativos, que se torna difícil enumerá-los. Não há resenha que dê conta de transmitir as sensações que o texto provoca, e isso só ocorre verdadeiramente às grandes obras.

A qualidade mais notável dessa pequena joia literária é sem dúvida a sensibilidade, responsável em grande parte pela beleza do texto. A escrita, claro, é de um refinamento apreciável, mas as imagens que ela evoca é que enlevam o leitor no decorrer das páginas. Imagine-se num lugar em que todos os ângulos acusam o belo, que se terá uma ideia aproximada do que seja O Ganso das Neves.

O enredo é sobre um homem solitário, Philip Rhayader, que decide se isolar num antigo farol, próximo a um grande pântano do interior da Inglaterra. Rhayader é corcunda e seu braço esquerdo é aleijado. Incomodado com a discriminação das pessoas sobre sua aparência, ele prefere manter-se distante do contato humano, limitando-se a pequenas viagens de barco até a vila onde compra seus suprimentos.

Rhayader, a despeito da aversão que provoca nas pessoas, não alimenta sentimentos negativos em relação a elas. Ele ama o ser humano, os animais, a natureza, e expressa tudo isso através da arte, pois, em seu tempo livre, ele pinta telas onde figura seu universo particular, no qual as aves ocupam um lugar especial. Rhayader mantém um viveiro, que ele prefere chamar de santuário, onde coleciona as mais variadas espécies de aves, que são alimentadas e cuidadas por ele.

Sua vida segue assim tranquila e previsível até o dia em que surge no farol uma menina carregando um ganso ferido. Frith tem doze anos. Ela salvara o ganso de ser morto por caçadores. Conhecendo as histórias sobre o estranho solitário que criava pássaros, ela decide enfrentar o medo e pedir-lhe ajuda. Rhayader naturalmente acolhe o animal, mas fica impressionado ao constatar que se trata de um ganso-das-neves do Canadá. A ave, que é fêmea, recebe a sugestiva alcunha de “la princesse perdue” (a princesa perdida, em tradução do francês).

Frith passa a visitar Rhayader frequentemente, sempre interessada pela recuperação do ganso-das-neves, e uma amizade inesperada surge entre os dois. Aquela curiosa aproximação resistiria aos anos, sendo “a princesa perdida” o principal elo entre a garota e o homem. Como já previsto, aqueles sentimentos ganham novos contornos com o transcorrer do tempo, mas permanecem silenciosos e apenas pressentidos em segredo.

O que também não deixa de ser pressentida é alguma tragédia iminente. A narrativa se passa no período da Segunda Guerra Mundial, e esse contexto é a rasura que ofusca a harmonia da tela. O Ganso das Neves é assim esse quadro cuja beleza não se perde, mas é impossível não lamentar e pensar no que poderia ter sido.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

***

Instagram: @autordanielcoutinho

E-mail para contato: autordanielcoutinho@gmail.com

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Doidão, de José Mauro de Vasconcelos - RESENHA #223

Depois de me emocionar com O Meu Pé de Laranja Lima e Vamos Aquecer o Sol, fiquei tentado a ler Doidão, livro que encerra a trilogia autobiográfica de José Mauro de Vasconcelos. É importante observar que o autor não havia projetado compor uma série com esses livros, que iam sendo publicados naturalmente, sem a preocupação de obedecer uma sequência. Prova disso é que Doidão fora publicado antes dos outros dois, em 1963.

Em Doidão percebemos um escritor menos experiente, mas que não deixa de ser reconhecido por seu estilo correntio e sensível. José Mauro domina o canto da serpente que hipnotiza seus leitores, sendo impossível, pelo menos para mim, perder o interesse por suas narrativas, sobretudo quando contêm um personagem tão querido e que facilmente ganha nossa empatia.

O adorável Zezé agora é simplesmente Zé, um adolescente comum com problemas típicos da idade. Ele ainda reside em Natal com sua família adotiva (embora em Doidão não seja mencionada a circunstância da adoção) e continua frequentando o colégio católico. Zé segue sendo um garoto carente de afeto e que, pela falta de orientação dos pais, teme pelo futuro, sentindo-se perdido quanto aos caminhos possíveis para ele.

O segundo capítulo da novela já faz um considerável salto temporal. Zé está com dezenove anos, mas está longe de ser mais do que um adolescente rebelde e sem perspectivas. Desinteressado pelos estudos, ele abandona o curso de Medicina, concentrando seus interesses em namoro e natação.

Zé tem sede de aventura. Ele considera a vida em Natal pacata demais para seu espírito turbulento. Um lugar onde as pessoas se incomodam até com sua sunga minúscula (que ele insiste em usar provocativamente) não lhe parece adequado para viver. Ele sonha entrar para a Legião Estrangeira, correr o mundo (Geografia é sua matéria favorita), fugir da mesmice de um cotidiano tedioso.

Sylvia reaparece em sua vida nesse momento crítico. Quando menina, ela vivia paquerando Zé, que a rejeitava pela pouca idade; mas os encantos de uns anos a mais seduzem o moço, que não se importa com o fato dela já ter um namorado. Zé conquista Sylvia para si, mas a garota possui fama de libertina, razão pela qual a família do rapaz desaprova o relacionamento.

Por esse tempo, o problema de coração do pai de Zé se agrava, requerendo uma cirurgia de risco. O médico teme pelo destino de sua família e busca aproximar-se do filho rebelde, numa tentativa de conscientizá-lo e prepará-lo para, havendo necessidade, assumir o controle da casa. A postura diferente do pai acaba comovendo Zé, que fica enternecido por aquela atenção tardia com a qual ele sempre sonhara.

Zé sabe que, para agradar o pai, ele precisa deixar a namorada e retomar seus estudos, mas, intimamente, ele não deseja nada disso. Tudo o que ele quer é poder seguir seus anseios, sem que isso contrarie sua família. Uma decisão importante precisa ser tomada, uma difícil decisão que definiria seu tão temido futuro.

Doidão, sendo um livro relativamente menor, por conseguinte, reúne menos episódios chistosos e dramáticos que seus irmãos de trilogia. Dos três é o que possui tom mais trivial. Os momentos em que Zé se refugia na pracinha, antes do movimento crescente de pessoas, resumem bem a nota predominante da história: uma leveza dolorida, um misto de alegria e tristeza. O voluminho termina com a impressão de que havia ainda tanto por dizer... Mas aí lembramos que ele não foi o último, e sim o primeiro.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

***

Instagram: @autordanielcoutinho

E-mail para contato: autordanielcoutinho@gmail.com

sábado, 30 de maio de 2026

Uólace e João Victor, de Rosa Amanda Strausz - RESENHA #222

Separei alguns livros infantojuvenis do meu acervo para descarte, mas, antes de passá-los adiante, decidi relê-los uma última vez, a fim de ter certeza se algum deles não faria falta. Ao que parecia, todos os títulos seguiriam mesmo seu caminho com destino a outros leitores. No entanto, chegando ao último deles (que, a princípio, confesso, li com certa preguiça), descubro uma pequena joia da qual já não lembrava.

Uólace e João Victor (1998), da escritora fluminense Rosa Amanda Strausz, é uma preciosidade da nossa literatura infantil. Sua composição é de uma criatividade que nos fascina constantemente ao longo de suas quase cinquenta páginas. A narrativa, além de bem escrita, sabe ser inteligente, bem-humorada e emotiva na medida certa, sem exageros ou pieguices.

A estrutura da novela já dá mostras do estilo criativo da autora. Os capítulos são duplicados: os doze capítulos narrados por João Victor são intercalados por outros doze narrados por Uólace, realizando esse interessante jogo do contraponto. A princípio, esse jogo parece disposto a evidenciar o contraste entre os dois garotos, de mundos tão diferentes, mas, para surpresa do leitor, muitos paralelos são criados para aproximar as histórias dos dois protagonistas.

Uólace e João Victor são pré-adolescentes, talvez de uns onze anos, ambos filhos de mães solteiras. Uólace é um garoto de rua, negligenciado pela mãe, uma mulher alcóolatra; ele não vai à escola e depende da generosidade alheia para fazer qualquer refeição, tal como seus dois amigos: Catuaba, um garotinho franzino, provavelmente mais novo, com pendores artísticos e apaixonado por novelas de época; e Cachorrão Duplex, o mais alto da turma, que, com seu porte e olhar ameaçadores, obtém dinheiro mais facilmente dos transeuntes.

João Victor, embora tenha um padrão de vida muito melhor, não vive em um lar abastado. Sua mãe, que possivelmente não conta com ajuda financeira do pai do garoto, trabalha como secretária, além de revisar livros para conseguir uma renda extra. Dessa forma eles conseguem viver dignamente, garantindo suas necessidades básicas. João Victor frequenta a escola, e é sempre cobrado pela mãe para que tire boas notas; ela deseja que o filho tenha um futuro brilhante. Ele também tem dois amigos: Zé Luiz, de contexto familiar idêntico, e por isso mesmo um amigo mais próximo; e Lucas, garoto mimado, cheio de privilégios, pertencente a uma família rica.

Assim vamos conhecendo, a partir da estrutura já mencionada, o cotidiano desses dois garotos, cujas vidas estão cheias de similaridades. As diferenças sociais não mudam o fato de que Uólace e João Victor são apenas dois meninos comuns, com seus medos e aspirações. Ambos desejam comer hambúrguer no café da manhã, lamentam não ter dinheiro para um tênis de marca, sentem-se ameaçados quando pressentem o perigo, questionam o futuro diante do sucesso e distanciamento dos amigos mais próximos. E esses dois garotos, que apenas se conhecem de vista, jamais poderiam imaginar o quanto são parecidos.

O livro de Rosa Amanda Strausz é uma sucessão de surpresas, e das boas, dessas que tornam a experiência de leitura satisfatória. O texto se mantém interessante para todos os públicos, dando margem para diversas discussões pertinentes. Uólace e João Victor nos fazem ver que todas as pessoas têm suas próprias lutas e que, sejam quais forem as circunstâncias, precisamos enfrentá-las.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

***


Instagram: @autordanielcoutinho
E-mail para contato: autordanielcoutinho@gmail.com

sexta-feira, 10 de abril de 2026

"Literatura & Eu" completa 10 anos 🥳

Sei que estou atrasado com esta postagem, mas cá está ela!

No começo deste ano, o “Literatura & Eu” completou 10 anos de existência. Foram mais de duzentas obras resenhadas por aqui ao longo do último decênio, e certamente não poderia deixar passar um marco assim tão importante para o blog sem expressar umas poucas palavras de gratidão:

Gratidão aos livros incríveis que li nesse período, e obviamente aos autores mais incríveis ainda que os escreveram; gratidão aos leitores que sempre estiveram por aqui, alguns desde o começo do blog, acompanhando minhas impressões de leitura, fazendo pequenos e longos comentários, e me mandando e-mails tão estimulantes e significativos, que sempre me deram um incentivo extra a continuar compartilhando minhas descobertas literárias.

Este blog se chama “Literatura & Eu” não por acaso. A Literatura e eu temos uma história juntos, tal como ocorre com todo leitor apaixonado. Mas falando aqui da minha história especificamente, gostaria de enaltecer a importância dessa forma de arte na minha vida. Quando olho pra trás e penso: “O que teria sido de mim sem a Literatura?”, percebo que este “eu” que vocês conhecem não existiria. Haveria sim um Daniel, mas tão menos interessante, tão vazio de espírito, tão incompreensivo com as pessoas, alguém seguramente muito menos feliz.

A Literatura surgiu na minha vida muito modestamente na infância, marcou uma presença mais notória na adolescência e fixou-se de vez à minha existência logo no começo da vida adulta. E tudo isso espontaneamente, sem influência de ninguém, o que me dá uma dózinha às vezes, principalmente quando descubro livros que eu teria amado ler na infância/adolescência, se algum adulto os tivesse me apresentado. Mas, de uma forma ou de outra, cedo ou tarde, os livros foram chegando, chegando e nunca mais pararam de chegar.

A Literatura esteve comigo nos melhores e nos piores momentos da minha vida. Para todas as fases, todos os períodos e momentos marcantes, tenho livros respectivamente associados, atrelados a lembranças diversas, boas e ruins, tristes e felizes. Querem ver?

Lembro das repetidas vezes que li Chapeuzinho Vermelho e o Lobo-Guará (Ângelo Machado), primeira leitura de que me recordo, por volta dos oito anos; aos doze descobri A Hora da Verdade e comecei uma caça a tudo quanto fosse escrito pelo Pedro Bandeira; Sozinha no Mundo (Marcos Rey) e A Força da Vida (Giselda Laporta Nicolelis) foram emprestados pelos meus raros amigos que tinham livros rs; li O Guarani no ensino médio, e desde então vivo um caso de amor com José de Alencar; A Ilha Maldita (Bernardo Guimarães), lido na faculdade, atiçou o meu verme dos livros raros; Éramos Seis (Maria José Dupré) me lembra quando passei no concurso público; A Intrusa (Júlia Lopes de Almeida) foi um dos muitos que me fizeram companhia durante uma licença-saúde; A Capital (Eça de Queiroz) me lembra minha primeira viagem de avião; e vamos parando por aqui, pois o assunto renderia um livro inteiro rs.

Nem todos os livros lidos nos últimos dez anos estão resenhados aqui, mas a maioria certamente está. Também é óbvio que nem todas essas mais de duzentas experiências foram marcantes e arrebatadoras, e se tem algo de que me orgulho profundamente é da sinceridade/honestidade com que redigi cada resenha, enaltecendo os livros que amei, e sinalizando aqueles que me maçaram até não poder mais rs. Leitura é isso: um universo tão grande, tão vasto, que não dá pra gostar de tudo, não é mesmo? Cada um tem uma experiência diferente. Mas quando eu disser que um livro é bom, está dito, viu? rs

O mestrado, que venho cursando desde o ano passado, tem comprometido minha assiduidade nas resenhas. Mas tudo tem seu tempo, não acham? Podem ter certeza que, bem antes de se passar outra década, muitas novas leituras incríveis serão devidamente compartilhadas por aqui, porque enquanto os livros continuarem conversando comigo, eu terei sempre algo a dizer dessas conversas.


Daniel Coutinho

***

Instagram: @autordanielcoutinho

E-mail para contato: autordanielcoutinho@gmail.com

sábado, 4 de abril de 2026

Menina Isabel, de Maria José Dupré - RESENHA #221

Com Menina Isabel finalizo a ficção adulta de Maria José Dupré, autora cuja obra tenho lido com prazer desde 2014. À exceção de Éramos Seis e Dona Lola (lidos quando este blog ainda não existia), todos os romances da escritora paulista estão resenhados por aqui. Foi maravilhoso acompanhar a trajetória desta prosadora que sempre me pareceu subestimada, talvez por sua fama de autora best-seller no século passado.

Menina Isabel (1965), seu último romance publicado, é obra menos inspirada, mas que nem por isso deixa de ter o seu interesse particular. Nele temos muitas das características marcantes da escrita da senhora Dupré: personagens femininas complexas, apreciação do cotidiano, escrita poética, conflitos geracionais, etc.

Podendo também ser considerado um romance de formação, a obra compreende a trajetória de Isabel desde a infância até os dezenove anos. Toda a vida da personagem é marcada por um fato ocorrido logo no início da narrativa: a separação dos pais. Além do trauma de crescer numa família “diferente”, Isabel sofre por se sentir ignorada e subestimada por todos em casa, que distorcem o fato da separação, escondendo-lhe detalhes que ela acaba tendo de descobrir sozinha.

Isabel circula entre dois ambientes: o apartamento em São Paulo, onde é ignorada pelo irmão João, desprezada pela irmã Marina e negligenciada pela mãe pouco atenciosa; e a fazenda Pau Queimado, pertencente ao avô Laerte, espécie de refúgio de toda sua vida, lugar onde se conecta com a natureza e consigo mesma.

Os primeiros episódios do livro, referentes à infância de Isabel, são ambientados em Pau Queimado. Isso confere certa leveza à narrativa que infelizmente não iria muito além das primeiras páginas. O texto é aconchegante, nesse início de romance, com as descrições dos cafezais, os passeis no cavalinho Serapião, as atenções do avô Laerte, as guloseimas de café da manhã feitas pela Ludovica e as histórias impressionantes da avó Eulália.

Mas a vida idílica em Pau Queimado é interrompida pela voz da realidade que grita de São Paulo. Isabel precisa entrar para a escola e cumprir com todos os deveres que se esperam de uma menina da classe média alta. A separação dos pais, que ela busca entender por toda a infância, põe um travo constante em sua existência. Isabel ainda se sente deslocada num lar pouco afetuoso: o irmão João parte para um seminário, a irmã Marina implica com sua aparência, o pai tenta comprá-la com passeios impessoais, e a mãe vive de lamentações, chorando por um problema que ninguém ousava tocar.

A rebeldia torna-se inevitável. Isabel negligencia os estudos, inventa mentiras sobre Marina e despreza a companhia forçada do pai. A mãe, única que ainda tem sua simpatia, parece uma morta em vida, alguém quase tão carente quanto a própria filha caçula. Isabel torna-se má, caprichosa. É sua maneira de sobreviver.

A adolescência converte a menina feia numa moça atraente, e logo Isabel percebe que sua beleza era um trunfo em suas mãos. Decidida a se vingar da irmã, Isabel afugenta todos os pretendentes de Marina, e quando o relacionamento se torna mais sério com um deles, Henrique, a irmã mais nova arma um plano de manipulação para atraí-lo.

Quando a mãe também ganha as atenções de um pretendente, Isabel se revolta, não aceitando que um padrasto assuma um lugar de poder em sua casa. Diante disso, ela usará o mesmo poder de manipulação para afastar Jorge de sua mãe, mas Isabel não contava que seu adversário pudesse ser mais perigoso do que ela supunha.

Menina Isabel, mesmo tendo uma proposta interessante, pecou quanto ao desenvolvimento. A trama, especialmente na segunda metade, ganha um tom mais artificial, e certos acontecimentos se dão num modo automático, soando pouco convincentes. É visível um esforço da autora por manter um contraponto entre a cidade e o campo, mas os episódios em Pau Queimado não conseguem preservar a vivacidade das primeiras cenas. A certa altura do romance, o drama da protagonista parece ficar insustentável, e a própria autora se mostra hesitante sobre como prosseguir: o resultado é um desfecho por demais prolongado, ainda que sem muita matéria, e uma solução meio súbita, sem maiores explicações.

O último romance de Maria José Dupré encerra de modo simpático sua produção ficcional. Embora não feche o ciclo com chave de ouro, entrega-nos um pouco mais da prosa delicada, sensível e absorvente de uma autora que era perita em cativar leitores no frenético “vira-páginas” de seu estilo.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

***


Instagram: @autordanielcoutinho
E-mail para contato: autordanielcoutinho@gmail.com

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Olhos d'Água, de Conceição Evaristo - RESENHA #220

Conceição Evaristo é uma das vozes mais potentes de nossa literatura contemporânea; ao menos dentre as que chegaram até mim. É consolador vermos escritores que, como ela, demonstram saber usar o tom adequado à realidade caótica de nosso século, sem se embaraçarem nas armadilhas das novidades experimentais, quase todas sequiosas por atenção pública.

É com um estilo simples, seguro e poético (de uma poesia que respeita os limites da prosa de ficção) que ela traça suas narrativas, quase todas muito difíceis de digerir, em razão dos temas funestos que são de sua preferência, pelo menos nesta coletânea Olhos d’Água (2014).

Acredito que a palavra adequada seja mesmo “escolha” ao invés de “preferência”, embora nem todos os contos de Olhos d’Água sejam violentos e lutuosos. Fica bastante claro o propósito da autora em retratar enfaticamente um recorte social específico. É o negro, pobre e favelado quem está no plano central de sua prosa, especialmente aquele que, em razão de suas circunstâncias sociais, assume caminhos perigosos.

“Olhos d’água”, que dá título ao livro, abre a coletânea com graciosidade. É uma prosa poética que, de certa forma, antecipa o sofrimento e a tristeza que depararemos nas narrativas da sequência. Há tanta beleza, delicadeza, sensibilidade e poesia nessas poucas páginas, que, sem nos darmos conta, terminamos a leitura em voz alta e com olhos possivelmente marejados.

Seguimos com “Ana Davenga”, primeiro conto de enredo tradicional. Aqui temos uma elaboração primorosa, onde a excelência da escrita casa perfeitamente com o interesse da trama. São muitas camadas sendo exploradas simultaneamente num mesmo texto, e todas elas amparadas pela curiosidade do leitor, provocada desde o primeiro parágrafo. Quando saciada essa curiosidade, uma epifania, que à primeira vista parecia impossível, toma conta do leitor, não sendo esta a última surpresa do conto.

“Maria” também é marcado pela fatalidade. Tal como em “Ana Davenga”, a mulher acaba sendo vítima indireta por se envolver com um criminoso. Mas nele ressalta ainda mais a maldade humana. No conto, um assalto acontece dentro de um ônibus, e a única pessoa dispensada pelos assaltantes acaba sofrendo a ira dos demais passageiros.

“Quantos filhos Natalina teve?” é outro ponto alto do conjunto. É o caso curioso de uma menina ignorante e imatura que se torna uma mulher egoísta, adepta das paixões frívolas e indiferente ao amor. Ainda que Natalina seja por demais irritante, sua frieza de sentimentos resulta num desfecho favorável à narrativa, o que culmina na derradeira gravidez, sugerindo novas possibilidades para a personagem. É certamente uma das histórias mais sutis da coletânea.

Seria imperdoável de minha parte estragar a surpresa contida em “Beijo na face”. À primeira vista, é só mais uma dessas histórias de mulheres infelizes no casamento e que acabam sendo infiéis. Contudo, a narrativa progride admiravelmente, e acaba tendo o melhor desenlace possível.

Chegamos ao meu favorito, “O cooper de Cida”, que é um dos poucos “contos felizes” de Olhos d’Água. Aqui não há violência ou morte, mas sim uma história de autoconhecimento. Nele, uma mulher negra, uma corredora de vida ativa, num dia como qualquer outro, percebe o mundo e a si própria de uma forma diferente, e, a partir daí, tudo muda para ela.

“Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos” e “Lumbiá” são protagonizados por crianças. Embora ambos sejam trágicos, no primeiro é a violência nas favelas que determina a fatalidade, enquanto no segundo ela é simplesmente inevitável. Ao final, Zaíta e Lumbiá acabaram sendo vítimas de sua própria inocência infantil; no entanto, os dois contos refletem a vulnerabilidade notadamente maior da criança negra e pobre.

“Os amores de Kimbá” é outro conto de grande potencial e que explora novos temas. Desde o início, o tom da narrativa (o tom do próprio livro, principalmente) sugere mais um desfecho trágico, mas aqui este não me pareceu de bom tom. Julguei pouco convincente a saída encontrada pelo protagonista perante o seu dilema amoroso. O perfil de Kimbá, um homem bonito e ambicioso, exigia que o mesmo ponderasse outras alternativas. E o que dizer dos demais personagens (que constituíam o triângulo amoroso) optarem pela mesma saída? No mínimo, teatral. Mas o conto sabe entreter mesmo com seu final preguiçoso.

“A gente combinamos de não morrer” é outro caso de conto que poderia ter sido melhor desenvolvido. Tal como “Os amores de Kimbá”, a narrativa tem muita força, e suas várias vozes trazem uma dinâmica que engrandece a obra. Mas se “Kimbá” peca pelo excesso, este novo conto tem ares de esboço, talvez até de obra mais extensa, uma novela, por exemplo. Dele tive essa impressão de incompletude, de que lhe faltou uma substância que o tornasse mais satisfatório.

Deixo de comentar uns poucos contos que não me atraíram como os já citados. São trabalhos menores, que me pareceram antes quadros/retratos de tipos que não têm a força de uma Natalina ou de uma Ana Davenga.

A coletânea se encerra com outra prosa poética, “Ayoluwa, a alegria do nosso povo” que, se não me pareceu tão impressionante quanto “Olhos d’água”, ao menos conclui o volume com uma nota de otimismo e esperança. Olhos d’Água, de modo geral, foi uma leitura que me trouxe muitas surpresas boas, além da satisfação de me apresentar o trabalho desta contemporânea que, acredito, deve ter ainda muito que dizer.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

***

Instagram: @autordanielcoutinho

E-mail para contato: autordanielcoutinho@gmail.com