Depois de me emocionar com O Meu Pé de Laranja Lima
e Vamos Aquecer o Sol, fiquei tentado a ler Doidão, livro que
encerra a trilogia autobiográfica de José Mauro de Vasconcelos. É importante
observar que o autor não havia projetado compor uma série com esses livros, que
iam sendo publicados naturalmente, sem a preocupação de obedecer uma sequência.
Prova disso é que Doidão fora publicado antes dos outros dois, em 1963.
Em Doidão percebemos um escritor menos experiente,
mas que não deixa de ser reconhecido por seu estilo correntio e sensível. José
Mauro domina o canto da serpente que hipnotiza seus leitores, sendo impossível,
pelo menos para mim, perder o interesse por suas narrativas, sobretudo quando
contêm um personagem tão querido e que facilmente ganha nossa empatia.
O adorável Zezé agora é simplesmente Zé, um
adolescente comum com problemas típicos da idade. Ele ainda reside em Natal com
sua família adotiva (embora em Doidão não seja mencionada a
circunstância da adoção) e continua frequentando o colégio católico. Zé segue
sendo um garoto carente de afeto e que, pela falta de orientação dos pais, teme
pelo futuro, sentindo-se perdido quanto aos caminhos possíveis para ele.
O segundo capítulo da novela já faz um considerável
salto temporal. Zé está com dezenove anos, mas está longe de ser mais do que um
adolescente rebelde e sem perspectivas. Desinteressado pelos estudos, ele
abandona o curso de Medicina, concentrando seus interesses em namoro e natação.
Zé tem sede de aventura. Ele considera a vida em
Natal pacata demais para seu espírito turbulento. Um lugar onde as pessoas se
incomodam até com sua sunga minúscula (que ele insiste em usar
provocativamente) não lhe parece adequado para viver. Ele sonha entrar para a Legião
Estrangeira, correr o mundo (Geografia é sua matéria favorita), fugir da
mesmice de um cotidiano tedioso.
Sylvia reaparece em sua vida nesse momento crítico.
Quando menina, ela vivia paquerando Zé, que a rejeitava pela pouca idade; mas
os encantos de uns anos a mais seduzem o moço, que não se importa com o fato
dela já ter um namorado. Zé conquista Sylvia para si, mas a garota possui fama
de libertina, razão pela qual a família do rapaz desaprova o relacionamento.
Por esse tempo, o problema de coração do pai de Zé
se agrava, requerendo uma cirurgia de risco. O médico teme pelo destino de sua
família e busca aproximar-se do filho rebelde, numa tentativa de
conscientizá-lo e prepará-lo para, havendo necessidade, assumir o controle da
casa. A postura diferente do pai acaba comovendo Zé, que fica enternecido por
aquela atenção tardia com a qual ele sempre sonhara.
Zé sabe que, para agradar o pai, ele precisa deixar
a namorada e retomar seus estudos, mas, intimamente, ele não deseja nada disso.
Tudo o que ele quer é poder seguir seus anseios, sem que isso contrarie sua
família. Uma decisão importante precisa ser tomada, uma difícil decisão que
definiria seu tão temido futuro.
Doidão, sendo um
livro relativamente menor, por conseguinte, reúne menos episódios chistosos e
dramáticos que seus irmãos de trilogia. Dos três é o que possui tom mais
trivial. Os momentos em que Zé se refugia na pracinha, antes do movimento
crescente de pessoas, resumem bem a nota predominante da história: uma leveza
dolorida, um misto de alegria e tristeza. O voluminho termina com a impressão
de que havia ainda tanto por dizer... Mas aí lembramos que ele não foi o
último, e sim o primeiro.
Avaliação: ★★★★
Daniel
Coutinho
***
Instagram: @autordanielcoutinho






