E
sobreveio em mim uma sede de regionalismo, mais ou menos alimentada quando li A Missão e Lendas Brasileiras. Precisava, contudo, daquele regionalismo puro e
real dos escritores sertanistas dos finais do século XIX, sentir o cheiro de
terra nas páginas, apreciar a beleza das paisagens do interior. Não poderia ter
escolhido momento mais propício para ler Pelo
Sertão (1898), de Afonso Arinos. Estava precisando mesmo disso. Agora, o
que dizer? Que experiência! Que livro encantador!
Confesso
que comecei a leitura já armado com dicionário em punho, porque obras
regionalistas não são nada fáceis de ler, especialmente quando retratam os
tipos e costumes de lugares que o leitor desconhece. Pelo Sertão se encaixa nessa linha de obras que prezam por uma
linguagem típica, o que pode significar uma dificuldade para um leitor menos
afeiçoado a esse tipo de literatura. Mesmo não podendo abrir mão de consultar o
dicionário ocasionalmente, o prazer da leitura em nada se perdeu. Afonso Arinos
tem um estilo sedutor, que alterna do realismo ao romantismo e vice-versa. Ora
você tem a rusticidade do sertão e dos tipos que o povoam, ora deparamo-nos com
descrições e observações cheias de lirismo.
Como
o autor mesmo adverte em nota preliminar, falta ao livro uma unidade, o que se
explica no fato de os contos terem sido escritos em diferentes momentos e
ocasiões. Os estilos variam, de maneira que dentre os 12 contos que compõem a
coletânea, encontramos além do conto regionalista tradicional, textos que se atentam
à observação de paisagens e filosofias de vida, à quase maneira de crônica.
Impossível não ser tomado pela beleza da escrita de Arinos, seja narrando em 3ª
pessoa, ou mesmo quando seus “tipos do sertão” se fazem contadores de
histórias. Nenhum dos 12 contos me pareceu ruim, mas julgo pertinente, em se
tratando de uma coletânea de contos, assinalar as histórias que me causaram
melhor impressão.
A
c0letânea abre com “Assombramento” que é, por assim dizer, uma peça antológica.
O autor relaciona com louvor o regionalismo e o fantástico. A comitiva de
Manuel Alves passa por uma velha casa abandonada, considerada assombrada.
Contrariando o medo e a superstição geral entre seus homens, ele decide passar
a noite sozinho no interior da casa. O conto é impregnado de uma atmosfera sobrenatural:
passos, uivos, vozes, visões, etc. É admirável o embate entre o real e o
sobrenatural. “A esteireira” é uma dessas cenas trágicas do sertão. Ana
Esteireira, chamada assim por causa do pai que trabalhava fazendo esteiras de
taquara, é uma mulata lavadeira que namora Filipinho, um tipo atrevido e
perseguido pela polícia por seu mau comportamento. Trata-se de um conto que
aborda o crime passional com bastante crueza, prezando por cenas violentas, não
podendo deixar de ter ainda um trágico desfecho. É louvável como o autor
consegue amenizar a situação trágica, valendo-se de elementos da natureza, que
a tudo poetizam. Afonso Arinos demonstra grande preocupação com a linguagem,
sempre limando o final de cada história com o maior cuidado.
“Manuel
Lúcio” conta o caso de um órfão que fica sob proteção do patrão de seu finado
pai. Sempre fiel ao seu senhor, em homenagem e respeito à lembrança paterna,
Manuel trabalha incansavelmente em defesa dos patrões. Sem que perceba, acaba
se apaixonando por Barbinha, a filha de seu amo. Não tendo coragem de revelar sua
afeição pela jovem, Manuel limita-se a vazar seus sentimentos em trovas do
sertão. É um belíssimo conto romântico, onde se dá o confronto entre a
dedicação sagrada e o peso de um amor provavelmente impossível. “A fuga” narra
os esforços de dois escravos para escapar do cativeiro. Isidoro e Bento
realizam uma difícil fuga, tendo a natureza como única aliada. “A fuga” traz o
subtítulo “fragmento de um conto histórico”, mas é tão bem realizado em sua
forma, que o leitor sente-se satisfeito com ele, ou seja: não há necessidade de
acréscimos, pois “A fuga” é um conto completo em todos os sentidos, uma
verdadeira joia literária, um dos pontos altos do livro. Em diferente situação,
temos “O contratador dos diamantes” que, também dado como “fragmento”, termina
exigindo uma continuação. É mais uma premissa que um conto. De fato, Afonso
Arinos sabia disso; tanto, que aproveitou o argumento para uma peça teatral de
mesmo nome. “O contratador dos diamantes” talvez seja o conto que mais destoa
do conjunto, por sua ambientação aristocrática.
“Joaquim
Mironga” e “Pedro Barqueiro”, subintitulados de “tipo do sertão”, encerram a
coletânea com mestria. Ambos reproduzem histórias contadas por caboclos do
sertão, naquele linguajar matuto, repleto de marcas de oralidade. É
interessante a estratégia utilizada pelo autor na construção desses contos:
ambos têm narradores que ficam em segundo plano, uma vez que os caboclos que
contam as histórias não são os narradores “oficiais”, de maneira que suas falas
(que compõem quase que a totalidade dos contos) aparecem entre aspas, para
diferir da voz dos narradores propriamente ditos, que acabam tendo pouquíssima
relevância. Nem sei se deu pra entender isso que eu disse rsrsrs Mas em suma,
esses dois contos possuem dois narradores cada um. O primeiro é o relato de
Joaquim Mironga, que atesta a coragem e bravura do filho de seu patrão, diante
de uma situação de combate. O outro quem conta é um caboclo chamado Flor que,
quando moço, foi designado pelo seu patrão a prender Pedro Barqueiro, um
escravo fugido, temido por todos por sua valentia. Flor e Pascoal (amigo dele
que também é designado para a mesma tarefa) vão ao encalço do Pedro Barqueiro,
sendo inevitável um difícil combate. Esse conto merece observação maior no que
diz respeito a um possível elemento fantástico perceptível ao final do enredo.
Teria
algo a dizer sobre todos os outros contos que não citei, porque, como disse,
nenhum é ruim, cada um é pintado de sutil beleza e animoso colorido. Contudo,
agora que estou conseguindo ser mais sintético com minhas resenhas, não quero
descuidar desta rs! Não dei nota máxima à obra por pouquíssimos detalhes, que
vão desde a falta de unidade do livro até a predominância de circunstâncias soturnas.
Não obstante tantas páginas tristes, Pelo
Sertão certamente foi escrito com muita felicidade.
Avaliação: ★★★★
Daniel Coutinho
***
Instagram: @autordanielcoutinho
SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798 Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com











