Triste Fim de Policarpo
Quaresma
(1911) é daqueles livros que eu deveria ter lido pra escola e não li. Ainda bem
que não li, pois tenho certeza que não teria gostado; não pelo livro ser ruim,
mas porque não o compreenderia. Sempre curioso por Literatura, já naquela
época, não tinha como não me deparar com o nome Lima Barreto. Assim, li a
primeira obra dele que me caiu às mãos, que coincidentemente vem a ser seu
livro de estreia: Recordações do Escrivão
Isaías Caminha. Lembro de tê-lo achado chato rsrsrs!!! Não entendia
direito, a temática não me agradava; enfim, foi uma experiência tão horrível,
que desde então, passei a fugir de Lima Barreto. Isso nos faz lembrar da grande
porção de pessoas que tem aversão pela literatura brasileira, graças ao
“incentivo” da escola. Eis uma questão para ser repensada: como trabalhar os
clássicos no ensino básico. Mas passemos logo ao que interessa, que é meu
reencontro com Lima Barreto e de como fiz as pazes (ou não) com ele.
Peguei
o Policarpo já com um pé atrás pelo
motivo que já citei, mas quando iniciei o primeiro capítulo, fui imediatamente
tomado pelo livro. A caracterização do protagonista, muito correto e metódico,
lembrou-me até o Phileas Fogg do Verne. Foi uma feliz surpresa. Mal acreditei
que estava rindo com um livro do Lima Barreto; porque eu ri mesmo rs! Estava
então fascinado por aquela escrita, quando veio a primeira queda. Pensei: agora
Lima Barreto será de novo aquele chato do Isaías
Caminha. Contudo, o livro logo recuperou o tom animado do início, mas em
seguida, despencava de novo. Triste Fim
de Policarpo Quaresma é o que chamo de livro-gangorra: ora alto, ora baixo.
E é nesse curso volúvel que o romance segue até o final.
Não
digo que seja um mau livro. O que me incomodou mesmo foram duas coisas: a
primeira vem a ser a matéria do livro, permeada de política, com direito àquela
atmosfera militar que me dá náuseas. Não gosto das temáticas política e guerra;
as duas juntas então... A forte presença desses fatores na obra do Lima Barreto
quase me fez desgostar do livro, mas não foi assim (e já explico!). A segunda
foi a forte intenção de crítica social se sobrepondo ao ideal artístico. Essa
justificativa explica muito bem minha aversão à literatura moderna, e devemos
lembrar que Lima Barreto foi um escritor pré-modernista. O século XX é marcado
por uma nuvem de escritores preocupados em denunciar os problemas nacionais,
sejam políticos, econômicos, religiosos, etc. Sou dos que pensam que a
literatura deve ser pura e laica, livre de partidos e de tendências
influenciadoras. Daí, minha preferência pelos autores oitocentistas que,
geralmente, mesmo quando tratam de política, usam-na como mero pano de fundo,
não deixando em segundo plano o ideal artístico que é a obra literária em si.
A
obra de Lima Barreto é sem dúvida tendenciosa e pretensiosa, o que viria a ser
uma marca dos escritores daquela geração, assunto que já discuti na resenha de Madame Pommery. Policarpo Quaresma é um grito de revolta e denúncia contra a
mediocridade das autoridades políticas do Brasil. O livro nem parece ficção em
alguns momentos. Temos o governo Floriano Peixoto pintado com cores bem reais,
figurando um Brasil onde as pessoas buscam crescer de qualquer forma,
passando-se por aquilo que não são e esbanjando talentos que não têm. O
insurgente Lima Barreto, talvez sem o querer, acaba escrevendo um romance
autobiográfico, pois, assim como o Major Quaresma, foi um funcionário público
incompreendido em seus ideais, que acabou enlouquecendo. Mas o mais
surpreendente é como a obra literária, submergida em questões ideológicas,
consegue sobreviver. A arte subsiste até o fim, ainda que em segundo plano, conforme
me pareceu. É como se o próprio autor, ao longo do processo, percebesse que
estava fugindo do ideal artístico, sentisse pesar a consciência e, para
desculpar-se, assumisse uma postura mais literária. Tanto que mesmo os
capítulos mais técnicos encerram com sinais de pura poesia.
A
história, penso, todo mundo já conhece. Policarpo é um funcionário público que
sofre de um patriotismo exacerbado, uma espécie de monomania pelo Brasil.
Trata-se de um homem idealista que valoriza tudo quanto há em sua terra,
sentindo profunda necessidade de “praticar” o seu ideal. Como o romance se
divide em três partes, cada uma delas compreende uma dessas “práticas” do
idealismo de Quaresma.

A
leitura deste livro exige certa paciência daqueles que, como eu, não toleram
política. Mas reitero a afirmação de que a arte subsiste nele o tempo todo, de
tal forma que o Policarpo Quaresma ganha a total simpatia do leitor, que ri e
que chora diante de seu tão puro e sincero idealismo.
Avaliação: ★★★
Daniel Coutinho
***
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gostei desse trecho: "O século XX é marcado por uma nuvem de escritores preocupados em denunciar os problemas nacionais, sejam políticos, econômicos, religiosos, etc. Sou dos que pensam que a literatura deve ser pura e laica, livre de partidos e de tendências influenciadoras. Daí, minha preferência pelos autores oitocentistas que, geralmente, mesmo quando tratam de política, usam-na como mero pano de fundo, não deixando em segundo plano o ideal artístico que é a obra literária em si."
ResponderExcluireu também tentei ler esse livro umas duas vezes, fui vencido pelo cansaço. não gosto de livros que deixem a arte literária em segundo plano e se deixam levar por questões sociais e políticas... foi um dos motivos que me fez se desinteressar por george orwell e o jorge amado, ambos com obras bastante sociais e políticas.
Alias a Rachel fez isso em Caminho de Pedras que pra mim só melhora do meio pra frente quando ela abandona essas questões e foca na narrativa dos personagens principais com seus dramas e problemas.
Como disse na resenha, a obra não deixa morrer o teor literário. A leitura fica cansativa, mas logo se recupera. O livro possui muitas passagens agradáveis com os personagens secundários. É que acabei não colocando isso no post, pra não estendê-lo muito.
ExcluirNão sabia que George Orwell era desses! Ele é tão endeusado. Nunca li, mas falam tanto de "1984" e "A Revolução dos Bichos" que pretendo ler um dia.
Jorge Amado é mais tolerável. Ao menos, "Seara Vermelha" (único que li) não chega a perder o interesse do leitor.