quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Sobre a 2ª edição ampliada dos "Cordéis" de Patativa do Assaré


No primeiro semestre deste ano, tomei contato com a obra de Patativa do Assaré. A obra escolhida para essa experiência foi uma reunião dos cordéis publicados por Patativa, cuidadosamente coligidos e organizados pelo pesquisador Gilmar de Carvalho, um grande admirador do poeta d’A triste partida, seu biografado. Confira a resenha aqui!

Um leitor do blog (Hélio Leite), percebendo que eu lera a edição de 1999, informou-me sobre uma 2ª edição ampliada, lançada em 2012, contendo cinco novos folhetos. Animei-me, especialmente ao saber que essa nova edição também era fruto de novas pesquisas de Gilmar de Carvalho, que teve o cuidado de informar as respectivas fontes dos novos folhetos divulgados, um deles, inclusive, transcrito a partir de uma gravação onde o próprio Patativa o recita.

A edição é bastante semelhante à de 1999, a começar pela capa. Novas xilogravuras foram acrescidas para ilustrarem os novos cordéis, como também novos textos de apoio, entre os quais se destaca o texto das orelhas, que contém o trecho de uma entrevista com Patativa, concedida ao próprio Gilmar em 1996. O poeta, com suas maneiras simples e desinteressadas, mostra-se estar ciente de sua produção literária, fazendo referências não só aos títulos de seus simplórios folhetos, mas às circunstâncias em que eles foram produzidos. Uma ressalva a essa nova edição é a qualidade do papel, muito melhor na anterior.

Comentando rapidamente os cinco novos folhetos, temos um conjunto interessante em que se revelam outras particularidades da cultura cordelista. A “Carta em versos ao escritor Tomé Cabral sobre seu livro Patuá de Recordações” destoa bastante do conjunto da obra, por não ser exatamente o que se entende por cordel. O que Patativa faz é apenas empregar sua lira ao trabalho de agradecer a Tomé Cabral o presente que este lhe fez ao mandar-lhe um exemplar de Patuá de Recordações.

Em seguida, temos dois “folhetos por encomenda” que constituem relatos verídicos de crimes praticados no sertão. “O crime de Cariús” relata o assassinato do farmacêutico Carlos Gomes de Matos, morte encomendada pelo médico Nelson Carreira, um inimigo de Carlos. O problema desse cordel é a quantidade de pormenores mencionados, com relação às várias pessoas envolvidas no crime, o que enfada o leitor e prolonga o texto em demasia. O mais provável é que, longe de ser uma falha de Patativa, esses pormenores tenham sido exigidos pela família da vítima. O fato de tratar um caso verídico leva Patativa a optar pelo pseudônimo Alberto Sipauba.

“A morte de Artur Pereira” nos conta o caso tenebroso de uma filha que matou o próprio pai. Patativa teve o consentimento da família do falecido para registrar o crime em seu folheto. Amélia é filha natural de Artur Pereira. Desde pequena, a menina revela um comportamento odioso, parecendo não ter afeição por ninguém. O que Amélia preza mesmo é sua liberdade. Ao ver-se subjugada pelo poder paterno, não hesita em preparar um almoço envenenado para Artur. Mesmo o crime sendo descoberto, Amélia não passa mais que alguns dias na prisão. Patativa protesta a impunidade e ousa nos versos finais dirigir-se à filha assassina, exortando-a por sua libertinagem. Foi o que mais me interessou dentre os novos cordéis.

“Sonho agradável” foi resgatado a partir de uma gravação preservada pelo professor Carlos Henrique Sales Andrade. Esse cordel achava-se perdido há muitos anos e Patativa preferia que assim o fosse, pelas maneiras indecorosas de como se referiu a Assaré, seu município natalício. Receoso de provocar desafetos, Patativa parece ter empregado grande esforço por esquecê-lo e, de certa forma, conseguiu, pois o constante da gravação é apenas um fragmento do poema original, já não lembrado integralmente por Patativa. Se duvidar, era o único que ele não sabia de cor rsrsrs. O cordel conta sobre uma febre pestilenta que assolou Assaré no início dos anos 40. Buscando auxílio médico, um sertanejo interiorano decide fazer pouso na cidade. Passando a noite num casebre, ele começa a sonhar que morria e subia ao céu, onde encontrou Cristo, Maria e tantas outras divindades. O sertanejo trava um diálogo com São Pedro que, ao saber que o homem era de Assaré, compadece-se imediatamente dele.

Outra particularidade da poesia popular é o repente. A cultura nordestina está marcada pelas inúmeras disputas de repentistas, que eram poetas/cantadores que duelavam com suas rimas improvisadas, muitas vezes caracterizadas pela manutenção de um verso obrigatório. O “Encontro de Patativa do Assaré com a alma de Zé Limeira, o poeta do absurdo” apresenta justamente uma disputa de repentistas. Baseado num caso supostamente real, Patativa e Zé Limeira pelejam arduamente em décimas nas quais se mantém o verso “nos dez de galope da beira do mar”.

Os novos cordéis acrescidos a esta 2ª edição certamente a enriqueceram, complementando a mesma com outras particularidades da poesia popular nordestina. É mesmo louvável o trabalho realizado por Gilmar de Carvalho na tarefa de resgate e compilação da produção cordelística de Patativa. O trabalho de revisão do livro é que ficou a desejar, sendo detectáveis muitos erros óbvios que poderiam ter sido evitados.

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Por que ninguém lê Caridad Bravo Adams?

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Caridad Bravo Adams


Você já ouviu falar em Caridad Bravo Adams? Provavelmente não. Se, porém, você, assim como eu, passou a adolescência assistindo novelas mexicanas no SBT, é bem provável que lembre deste nome. Na verdade, até hoje os argumentos de Caridad Bravo Adams fazem sucesso com o público de telenovelas no mundo todo. Grandes sucessos como Cañaveral de Pasiones, La Mentira, Corazón Salvaje, Yo No Creo en los Hombres e Abrázame Muy Fuerte continuam cativando as grandes massas, seja em suas versões primitivas, como também pelos remakes. Caridad Bravo Adams continua sendo um grande sucesso através das telenovelas, mas seu nome é mesmo tão obscuro, que poucos telespectadores lembrarão dele.

E o que dizer de seus livros? As obras que deram origem às telenovelas de hoje! Estão todos esquecidos. Pelo que sei, nem no México se edita mais. Em lugar nenhum. Com muita sorte e bastante dinheiro, você encontra algum exemplar velho nos sebos estrangeiros e “mercados libres” da web. Ao que parece, Caridad nunca foi traduzida para o português. E como lamento tudo isso! Como queria ler seus romances Pecado Mortal e Soledad, nos quais se baseia Abraça-me Muito Forte, aquele novelão com Aracely Arámbula e Fernando Colunga. Leria qualquer livro seu que encontrasse. Sempre tive curiosidade de conhecer sua obra no original, mas como já se viu, parece que ninguém mais no mundo está interessado em publicar seus romances novamente.

Para quem ainda estiver boiando e não entendeu nada do que eu disse, vou explicar melhor.

Caridad Bravo Adams (1908-1990) foi uma escritora mexicana de grande sucesso. Dedicou-se a vários gêneros, especialmente ao romance e à poesia. Publicou mais de vinte livros, muitos deles adaptados para novelas do rádio e da televisão. Como já disse, sua obra continua sendo aproveitada até os dias atuais, pois o êxito de suas histórias continua inabalável. O motivo do post é minha indignação ante o descaso para com a obra literária de Caridad, que não é mais editada nem no México.

Será que os mexicanos não leem? Não têm apreço pela obra de sua ilustre compatriota? Aproveitam-se do talento de Caridad com as rentáveis produções televisivas, nas quais seu nome aparece muito rapidamente nos créditos, mas não se preocupam em difundir a obra da escritora, quem dirá estudá-la. Sempre achei que o Brasil é um país fraquíssimo no quesito “leitura”, mas estou vendo que os mexicanos levaram “a melhor” nessa. O descaso para com a obra de Caridad Bravo Adams é a prova viva do que estou dizendo. Nenhum de seus livros é comercializado atualmente. Quem quiser adquiri-los, trate de garimpar nos sebos e alfarrabistas.

Alguém poderá dizer (talvez até um mexicano) que se a obra de Caridad não é mais editada, é porque a mesma não teve força suficiente para resistir ao implacável tempo. Certamente, o fato de um autor fazer sucesso em vida não assegura sua imortalidade. É bem verdade que não conheço as qualidades literárias da autora de La Mentira. Talvez suas obras sejam uma droga mesmo! Mas se elas fazem tanto sucesso na TV (e, em relação a isso, Caridad tem resistido ao tempo), é de se supor que algo de bom comportem. Mas o que me admira mesmo é a indiferença dos telespectadores de hoje pelos livros. É bem provável que 99% das pessoas que acompanham tramas mexicanas não tenham o hábito de ler. Pois havendo um interesse notável por parte do público, isto não animaria as editoras a desencavar Caridad das cinzas? Penso que sim.

Felizmente, ainda é sim possível ler Caridad Bravo Adams (no original) graças aos esforços de uma minoria de leitores que disponibilizaram algumas de suas obras em formato digital. Os links são compartilhados no Facebook e não têm fins lucrativos. Contudo, não encontrei os desejados Pecado Mortal e Soledad. Estão disponíveis para download, além da trilogia Corazón Salvaje, os romances La Mentira, Cristina, Bodas de Odio, Una Sombra entre los Dos, Al Pie del Altar, Más Fuerte que el Odio, Águilas Frente al Sol e El Destino de un Patriota. A quem interessar, as obras estão disponíveis na página Biblioteca Virtual. Não posso opinar sobre a qualidade das edições, porque ainda não li nenhuma. Não domino o espanhol, mas com um dicionário de lado, posso até encarar.

Caridad Bravo Adams me lembra muito a escritora brasileira Maria José Dupré ou Sra. Leandro Dupré, como gostava de ser chamada. Seus romances, tal como os de Caridad, granjearam muito sucesso com o público, alcançando a televisão com Éramos Seis. Aqui, felizmente, a Sra. Leandro Dupré continua sendo editada. No entanto, dos onze romances publicados, somente Éramos Seis resiste ao tempo. Alguns de seus livros infantis também continuam nas livrarias, como A Ilha Perdida e alguns da série O Cachorrinho Samba. Tenho orgulho de dizer que tenho a obra completa dessa grande autora, tão elogiada por Monteiro Lobato, e tão subestimada pela crítica contemporânea. De sua obra, só li Éramos Seis e sua sequência Dona Lola. O primeiro é um verdadeiro primor, obra de uma delicadeza emocionante. Dona Lola não me pareceu grande coisa. Não é um livro ruim, mas comparado a seu antecessor, é bem menos significativo. Já está na hora d’eu voltar a ler seus livros. Brevemente, lerei O Romance de Teresa Bernard. Já estou com saudades da nossa Caridad Bravo Adams brasileira.


Enfim, precisava desabafar minha insatisfação para com essa injustiça à obra de Caridad Bravo Adams. Queria poder ler suas obras em edições físicas e, claro, traduzidas para o português. Mas, conforme já se viu, se o México não está interessado nisso, o Brasil muito menos. Vou me conformar em ler as edições digitais que baixei. Mas estou em dúvida: se devo começar por La Mentira ou Bodas de Odio. A primeira deu origem à novela A Mentira, com Guy Ecker e Kate del Catillo; a outra é o argumento de Amor Real, com Adela Noriega, Fernando Colunga e Mauricio Islas.

Essas novelas mexicanas... rs.

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Depois do Verão (Long After Summer), de Robert Nathan - RESENHA #32

Depois de uma onda de livros de horror, precisava descansar o cérebro de tanta tensão rsrsrs. Não poderia ter feito escolha mais acertada ao pegar Depois do Verão. Penso que em outras circunstâncias, teria desdenhado o livro, o que me leva a pensar no quanto pesa o fator circunstancial na hora de avaliar uma obra. Qualquer dia, tendo tempo, faço uma postagem especialmente para explicar os critérios que utilizo, como também definir o perfil dos livros que recebem de uma a cinco estrelas.

Depois do Verão (1948), do norte-americano Robert Nathan, é um dos romances mais despretensiosos que já li. Provavelmente tenha sido isso mesmo o que mais me agradou nele. Sendo aparentemente uma história trivial, concentra uma beleza peculiar, típica do autor, e que a crítica costuma chamar de “Nathan’s touch” ou “toque de Nathan”. A obra dele ganhou fama no Brasil graças à tradução que Erico Verissimo fez do romance O Retrato de Jennie. O “toque de Nathan” é... como posso dizer... encantador! Mas a percepção desse encanto dependerá sempre do grau de sensibilidade do leitor. Diante de um amante da poesia, é bem provável que a obra de Nathan seja um deleite, pois a mesma se caracteriza pela delicadeza de sua abstração. Como não sou muito afeito à poesia, não me deleitei tanto com a prosa poética deste livro; não obstante, aproveitei o suficiente, de maneira que, para mim, Depois do Verão foi uma espécie de terapia.

A trama não tem nada demais além de certa excentricidade. A força do livro está no minimalismo do autor que, de maneira simples, constrói uma narrativa que preza pela simplicidade e pureza dos sentimentos. Impossível não aludir ao Romantismo. Nathan foi, sem dúvida, um neorromântico. A singeleza e graciosidade de seu estilo, como também uma tendência pessimista acompanhada de descrições melancólicas, vêm confirmar tal observação. A premissa do livro parece ser a despreocupação dos jovens com o fatalismo do mundo real. O narrador-personagem é um verdadeiro pensador da fragilidade humana e efemeridade da vida. Seu nome não é revelado, sugerindo talvez ser o próprio Nathan que, assim como ele, gostava de velejar em Cape Cod.

Nosso narrador anônimo é um solteirão de vida simples e tranquila. Precisando de uma secretária para cuidar dos serviços domésticos, ele decide consultar seu amigo Manuel Pereira e Josie, sua esposa. O casal Pereira receberia naqueles dias uma órfã, prima de Josie; mas por ter apenas 14 anos, Joana é logo descartada para o trabalho. Quando o narrador repentinamente adoece, Manuel acaba mandando Joana para cuidar do amigo. A garota, em sua extrema simplicidade, mostra-se uma companhia agradável e bastante responsável no cumprimento das tarefas do lar. A seu amo, porém, não passam despercebidas as misteriosas circunstâncias em que apareceu aquela parenta ignorada dos Pereira, como também a reação positiva da menina estando em sua casa, na companhia sua e de Penny, uma adorável cachorrinha. Joana não aparenta ter estima pelos parentes, e estes tampouco por ela.

Por intermédio de seu amo, Joana conhece Jot, um garoto da sua idade. E aqui não poderia deixar de comentar a puerilidade do elemento amor na obra de Nathan. Não se reconhece nela a sensualidade e lascívia do amor carnal. O amor se manifesta como um elemento assexuado. Que não se confunda, contudo, puerilidade com ingenuidade. O que ocorre em Depois do Verão é uma manifestação contrária ao fatalismo do mundo, a partir de uma busca desenfreada pelo “belo”. É como diz o narrador: “— Talvez seja porque há tanta dor neste mundo que eu não posso suportar a perda da menor parcela de beleza.” (pág. 162). Nathan mostra-se um estilista da palavra, interessado tão somente em expressar suas impressões do mundo. Quando o narrador reconhece a felicidade despreocupada que sentem Joana e Jot, lamenta saber, mediante suas próprias experiências, que tudo aquilo seria passageiro, uma emoção que provavelmente não duraria mais que um verão.

De fato, quando Joana, sem esperar, é assolada por esse fatalismo tão combatido por Nathan, não encontra forças para seguir em frente. Sua mente maquinalmente realiza um retrocesso e Joana começa a voltar no tempo, dia após dia, sempre no sentido inverso, até chegar finalmente ao momento de encarar seu passado, antes de chegar à casa dos Pereira. Sim, deixei aqui uma lacuna em relação à causa desse sofrimento, do qual Joana foge com a estratégia involuntária de que já falei; pois não quero dar spoiler! Mas de antemão, previno aos leitores que se preparem às várias lacunas deixadas por Nathan. Depois do Verão é daqueles livros que não encerram em si mesmos. O leitor chegará ao desfecho desejando saber uma porção de coisas, a começar pelo propósito desse livro. Parece uma história sem finalidade alguma ou mesmo um fragmento de uma obra maior. Você termina o livro e não acredita que acabou.

Uma curiosidade engraçada é que Robert Nathan tinha uma superstição de que somente seus títulos com três palavras fariam sucesso, talvez por sua fama ter despontado com One More Spring. Quando traduzido, Long After Summer deveria chamar-se “Muito Depois do Verão”, mas os editores brasileiros optaram por seguir a superstição do autor ao escolher o título Depois do Verão. Como disse, a leitura foi mesmo uma terapia. Mesmo tendo gostado, confesso que fiquei bastante intrigado com as lacunas deixadas por Nathan. O desfecho da história também não me pareceu muito acertado, beirando a incoerência. No mais, foi um livrinho bonitinho, sensível e poético, mas bastante melancólico também.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Mais Livros! - OUT/2016




Depois que a editora Pedrazul lançou aquela belíssima edição d’A Intrusa, de Júlia Lopes de Almeida, comecei a pesquisar mais sobre a autora e, em consequência disso, fiquei animado a adquirir suas outras obras. Não sabia que tinha publicado tantos romances. Na verdade, sua obra, que é muito vasta, compreende muitos outros gêneros. Concentrei-me em reunir sua prosa de ficção, que é o que sempre me interessa em qualquer autor. Mas a verdade é que seria praticamente impossível obter os romances da dona Júlia, não fossem os louváveis esforços da editora Mulheres.

A editora Mulheres, de Santa Catarina, foi fundada em meados dos anos 90 por três professoras aposentadas da UFSC. A proposta da editora era relançar obras esgotadas de escritoras brasileiras clássicas, como Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. Foi através dessa obra que conheci a editora Mulheres, mas só há pouco tempo descobri que eles haviam relançado quase todos os romances de Júlia Lopes de Almeida, alguns deles já esgotados. Após a morte de Zahidé Lupinacci Muzart, que era a principal responsável pela editora, as publicações foram interrompidas, mas, atualmente, é possível adquirir os títulos do catálogo através do e-mail “gerusabondan@gmail.com”. Assim, outubro foi quase que totalmente dedicado à autora de A Falência.

Direto com a editora, adquiri os romances: A Família Medeiros; A Viúva Simões; Pássaro Tonto; e O Funil do Diabo, que era inédito em livro. Deles também adquiri a coletânea de contos Ânsia Eterna, que contém o famoso conto “A caolha”. As obras esgotadas, tive que adquirir por outras fontes. Memórias de Marta, achei na Livraria Cultura; A Silveirinha, encontrei na Estante Virtual. Não consegui a edição deles de A Falência; por isso, acabei comprando uma edição de 1978. A editora Mulheres ainda possui em catálogo Cruel Amor e Correio da Roça, que é romance epistolar. O primeiro eu já tinha na minha “Coleção Saraiva”; o outro, acabei comprando antes, no começo do mês, numa edição de 1987.

A editora Mulheres ainda me mandou uma cortesia: Os Papéis do Coronel, único romance publicado pelo brasileiro Harry Laus. A edição é bilíngue (português/francês), pois o livro parece ter sido publicado primeiro na França. Adorei o presente!

Passando às outras aquisições, acabei aproveitando a dica de um leitor aqui do blog (Hélio Leite) que me informou sobre uma edição ampliada dos Cordéis de Patativa do Assaré, lançada pela UFC em 2012. A nova edição, que não poderia deixar de adquirir, possui 5 outros folhetos, os quais pretendo ler assim que possa, para fazer uma postagem complementar à que já fiz. Será uma dessas postagens extraordinárias que aparecem a qualquer momento, ok?

Outra grande aquisição foi a Obra Completa de Cruz e Sousa (José Aguilar, 1961). Mesmo não sendo muito afeito à poesia, tenho interesse em conhecer nossos poetas mais clássicos. Dessa forma, vez por outra, incluirei algo do tipo nas compras do mês, pois minha estante de poesia é bastante escassa rsrsrs. Finalmente, obtive as obras de um autor que fazia falta na minha estante: França Júnior, contemporâneo de vários escritores queridos. Consegui boa parte de sua produção enquanto dramaturgo na edição Teatro de França Júnior, que o MEC lançou em 2 volumes, em 1980. Essa edição pertence à coleção “Clássicos do Teatro Brasileiro”, da qual já tenho o teatro de Joaquim Manuel de Macedo, Arthur Azevedo e Qorpo Santo.

Interessei-me por adquirir os Folhetins que França Júnior publicou na “Gazeta de Notícias”, e que foram reunidos pelo editor Jacintho Ribeiro nos Santos num volume publicado em 1915. Mas fiquei encantado mesmo foi com a surpresa que tive. Minha edição trouxe dois recortes do jornal “A Gazeta”, dos anos 50, com artigos de Brito Broca, comentando justamente os Folhetins de França Júnior. Fiquei pensando: quem teria posto os recortes lá? Certamente algum estudioso da Literatura. O próprio Brito Broca? Viajei agora, né rsrsrs? Infelizmente, o livro não traz assinatura do antigo dono. E dificilmente vocês me verão repetir isso rsrsrs. Quem quer que tenha sido, achei genial! O segundo artigo traz até algumas considerações sobre leituras. Brito Broca cita Rosa, de Joaquim Manuel de Macedo; Sonhos d’Ouro, de José de Alencar; e O Garimpeiro, de Bernardo Guimarães. Meus três autores românticos favoritos... Parece coisa do destino mesmo rsrsrs.

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O Exorcista (The Exorcist), de William Peter Blatty - RESENHA #31

O Exorcista foi um dos meus piores terrores de infância. Lembro que morria de medo quando via as chamadas do filme na TV. Engraçado como o medo, de certa forma, nos atrai. Mesmo morrendo de medo, tinha aquela vontadezinha de assistir, uma curiosidade teimosa. Ficava ouvindo meus amigos comentando, prestava sempre atenção, imaginava as cenas na minha cabeça e me assustava só de pensar. Um dos meninos tinha conseguido o livro, numa edição bem antiga da Nova Cultural. Lembro que nenhum de nós teve coragem de ler, nem mesmo eu que era o mais afeito a livros.

Finalmente, mais de 10 anos depois, criei coragem suficiente para encarar o livro e o filme. Tinha como uma questão de honra superar esse trauma de infância rsrsrs. Mas, com toda sinceridade, foi mais difícil do que pensei.

É bem provável que a inevitável associação da recente experiência com as lembranças da infância tenha contribuído bastante com o medo que senti. Provavelmente, se nunca tivesse sequer ouvido falar na trama, não teria sido tão abalado pela experiência. Quando peguei o livro pra ler, parecia estar voltando no tempo. Não tinha como não me sentir incomodado: um repentino pavor, um tremor nas mãos, um gelo nos pés... Xi... Fazia tempo que não sentia isso rsrsrs. Mesmo assim, não desisti daquilo a que me propusera e fui ficando menos tenso com o decorrer da leitura, mas não isento daquela apreensão ao menor ruído, a qualquer movimento inesperado. Ui rsrsrs! Estou rindo agora, mas, no ato da leitura, tive medo mesmo.

Estou me perguntando se preciso mesmo contar o enredo. Todo mundo já conhece essa história, não? Mas para quem tiver esquecido, O Exorcista relata o caso de uma garotinha de doze anos, que é possuída pelo demônio (ou não?). Blatty realiza um esforço admirável na construção de uma trama que pende para duas soluções: uma natural e uma sobrenatural. Sempre que Regan apresenta um novo sintoma de possessão, uma explicação científica logo nos aparece como uma réplica. Há quem diga que esse debate não tem solução no livro, mas somente uma pessoa inteiramente cética não chegaria à conclusão de que Regan estava mesmo endemoninhada. Não quero abrir parêntese para falar de religião, mas faço questão de esclarecer que meu entendimento da obra se fundamenta na fé que professo.

O Exorcista, mais do que um livro de terror, é uma obra que pretende discutir o que é “fé”. Chris, a mãe de Regan, é uma atriz ateia. Quando percebe que a Ciência não tem recursos para “curar” sua filha, sendo inclusive aconselhada pelos próprios médicos a buscar uma solução espiritual, passa a acreditar no sobrenatural. Ainda que não admita a existência de Deus, alimenta sua fé numa força invisível e misteriosa aos homens. Por outro lado, o autor nos apresenta Damien Karras, um padre cuja fé está abalada. Procurado por Chris, o padre Karras, que também é psiquiatra, consente em examinar Regan. Diferente de Chris, o padre não acredita na hipótese de possessão. Suas explicações são sempre amparadas pela lógica natural da Ciência. O próprio “exorcismo” aplicado a Regan é realizado mais como medida científica que espiritual. Daí, não poderia deixar de destacar a presença do fator Ciência no livro.

O autor, mesmo baseando-se num caso real, faz uma pesquisa científica impressionante. Algumas passagens do romance são verdadeiras aulas de psiquiatria, focando sobretudo em distúrbios com características extrassensoriais. É perceptível também, claro, a pesquisa religiosa, especialmente no que diz respeito a satanismo, demonologia e exorcismo. Todas essas pesquisas dão respaldo para que Blatty persista no combate entre a Fé e a Ciência, na tenuidade entre o natural e o sobrenatural. Nem preciso dizer que a trama é muito bem realizada. Quem viu o filme deve lembrar-se da riqueza de conteúdo do enredo. Mesmo sendo muito fiel ao livro, o filme apresenta algumas variantes que, ao invés de prejudicar a trama, aperfeiçoam-na quase sempre. E agora podemos nos concentrar nos problemas do livro.

Logo que comecei a leitura d’O Exorcista, percebi que faltava ao autor técnica literária. Não parecia que lia um romance, mas um roteiro de cinema, o que me leva a crer que, desde o princípio, o objetivo de Blatty era levar O Exorcista às telas. A obra traz diálogos extensos e muitas vezes maçantes, especialmente na primeira metade. Em várias passagens, reconhecemos falas que poderiam ter sido suprimidas, por não trazerem nenhuma relevância à obra. Algumas conversas impacientam o leitor, principalmente a partir do momento em que a narrativa assume uma roupagem de romance policial. Isso ocorre após a morte de um personagem secundário, o que abre espaço para uma fervorosa investigação por parte do detetive Kinderman, que me chateou bastante com suas inacabáveis perguntas. Não tenho experiência com literatura policial, mas se nela encontrar personagens impertinentes como esse Kinderman, vou passar longe do gênero rsrsrs.

Não poderia deixar de admitir que, sim, à medida que o romance se desenrola, a técnica literária da qual senti falta nos capítulos iniciais, vai surgindo paulatinamente e ganhando força. É bastante perceptível o crescimento ou evolução da obra do início ao fim. Nem preciso dizer que o desfecho do romance é de tirar o fôlego. Contudo, não vi a grande obra-prima que tanta gente falava. Na verdade, penso que, se não fossem os temas delicados que aborda com frieza (as obscenidades, as profanações, além de certos exageros com relação à possessão de Regan), este livro não teria causado tanto alvoroço. Mas vejam bem! Estou falando do livro. O filme, que condensa muitos excessos da obra original, principalmente no tocante à sintetização dos diálogos, é realmente fabuloso, tanto que revolucionou a indústria do Cinema de horror.

A escrita apelativa de Blatty é revoltante. Fico imaginando a reação de um cristão rsrsrs... O excesso de cenas provocantes, entremeada de palavrões e gestos obscenos, torna a leitura uma experiência... digamos... repugnante. As descrições das profanações, aparecidas na igreja próxima à casa de Chris, confirmam a intenção do autor de chocar o leitor. Enfim, são tantas baixezas, censuradas até pelo filme, que acabam não tendo outra função que não a de indignar. O aproveitamento das questões relativas à fé e ao mal que existe em cada um de nós acaba compensando e até justificando a razão de ler este livro.

Pronto. Penso que já falei tudo o que tinha planejado, faltando apenas comentar a última frase, que tem intrigado tanta gente. Se você não quiser saber da frase, pare por aqui e tchauzinho! Quem continua lendo este post, ou já leu o livro ou não se importa que eu revele a frase, que é: “No ato de esquecer, eles tentavam se lembrar.” Assim como deve ter acontecido com todo mundo que chegou ao fim do livro, julguei estranha essa frase que aparece após a trivial conversa entre o padre Dyer e o detetive Kinderman. Mas pensando um pouco, observando o rumo que tomara a conversa, totalmente distante do recente drama, imagino que o autor tencionava revelar que embora os personagens parecessem “esquecidos” dos recentes acontecimentos, eles não conseguiam tirá-los do pensamento. Se você entendeu de outra forma, compartilhe nos comentários! Enfim, acabou. Finalmente virei essa assustadora página!

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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