Meu primeiro contato com Dickens foi através de
duas de suas famosas novelas natalinas, que muito me agradaram quando as li.
Essa experiência positiva me deixou ainda mais curioso por conhecer os
colossais romances do maior escritor vitoriano, e aqui faço referência mesmo à
extensão das obras, em sua maioria calhamaços de 800 páginas.
Seguindo minha preferência pessoal de conhecer as
obras de um autor em ordem cronológica, decidi que o primeiro tijolão a ser
devorado seria As Aventuras do Sr. Pickwick (1837), romance de estreia
de Dickens. Mas, de antemão, previno a todos que desejem conhecer a importante
obra do criador de David Copperfield que não sigam pelo mesmo caminho.
Falo baseado não apenas na minha experiência pessoal, mas em comentários e
resenhas de outros leitores, que acabei consultando após concluir a leitura.
Como é natural a uma obra de estreia, As
Aventuras do Sr. Pickwick é possivelmente o romance mais problemático de
Charles Dickens. Nele evidentemente já verificamos muitas das qualidades do
prosador inglês, que era excelente na caracterização de personagens e nas
descrições meticulosas. Mas Dickens, que aplicara com sucesso sua perícia de
observador na crônica jornalística, ainda não conhecia com propriedade o
território do romance.
É possível que as circunstâncias de publicação do Pickwick
justifiquem seus problemas mais graves. E aqui não estou entrando na questão do
“romance de folhetim” ou do “romance de entretenimento”. Quem me conhece sabe
perfeitamente que sou um apreciador confesso tanto de um quanto do outro, e que
não acredito que tal gênero ou tal formato tornarão uma obra obrigatoriamente
ruim. As circunstâncias às quais aludo referem-se aos propósitos incertos do
que acabou sendo o primeiro romance de Dickens. Muito provavelmente, ao receber
o convite para publicar uma obra de fôlego em periódico, o novel escritor
iniciou o trabalho sem saber exatamente onde aquilo terminaria.
À primeira vista, a proposta parece ser a criação
de uma novela à moda antiga, na qual temos várias pequenas histórias sucessivas
com os personagens de sempre. Mas, em determinado momento, tramas maiores
começam a ganhar espaço ao longo do livro, aproximando-o mais do romance
tradicional, onde as células dramáticas se desenvolvem simultaneamente. A
impressão final é que o livro foi concebido quase que completamente à base de
improviso, e que o autor ia compondo o que convinha às necessidades do
periódico.
Chama bastante atenção a queda de ritmo na segunda
metade da obra. É quando fica mais perceptível a intenção do autor em esticar a
narrativa, do modo como ocorre até hoje nas telenovelas de boa audiência. O
sucesso de Pickwick no jornal exigia que o personagem continuasse protagonizando
suas estrepolias, acompanhado sempre de seu criado leal, o impagável Sam
Weller.
Sobre o humor em Pickwick, é inegável que
funciona bastante, especialmente na primeira metade. As situações embaraçosas,
os mal-entendidos, os personagens caricatos tornam os episódios bastante
hilários. Há contudo um excesso de pancadaria que lembra o humor pastelão de
histórias como as do seriado Chaves.
Outro detalhe que incomoda bastante é a necessidade
inexplicável do autor por identificar os personagens durante os diálogos, ainda
que esteja mais do que explícito que se trata de uma conversa entre duas
pessoas. Isso ocorre tantas vezes, que deixa qualquer leitor irritado. Para
exemplificar, logo no início do Capítulo XXII temos claramente uma conversa
entre Sam Weller e seu pai. Como se trata de um trecho longo, transcreverei
resumidamente apenas as indicações do narrador: “perguntou o sr. Weller ao
afetuoso filho/replicou o sr. Weller, o moço/indagou o pai/respondeu o
filho/replicou o mais velho dos Wellers/tornou o sr. Samuel/replicou o pai, com
um suspiro/continou o sr. Weller/replicou Sammy/disse o sr. Weller.” (págs. 314
e 315). Dickens julgava seus leitores tão burros, que não pudessem identificar
as falas de um e de outro, ou só queria completar o número de páginas a serem entregues?
A dispersão da narrativa se evidencia fortemente no
fato de que não há um desenvolvimento lógico dos personagens. A lealdade
incondicional de Sam Weller para com o amo, por exemplo, não tem uma explicação
clara. Os amigos do Sr. Pickwick também não são devidamente aproveitados/desenvolvidos.
Dois deles contraem casamentos precipitados na etapa final do livro, e um
terceiro praticamente desaparece.
Há uma tentativa de se criar um vilão na figura do
Sr. Jingle, mas mesmo ele, que a princípio prometia movimentar a história,
acaba tendo um destino estupidamente insosso. Povoam ainda as 800 páginas do Pickwick
uma miríade de personagens descartáveis que aparecem/desaparecem/reaparecem
magicamente, sendo impossível lembrar de todos eles.
É lamentável que, ao final, tenha ficado com esta
horrenda impressão de que As Aventuras do Sr. Pickwick é uma tremenda “encheção
de linguiça”. Não acho, contudo, que sua leitura seja uma completa perda de
tempo. A primeira metade, como já mencionei, é repleta de bons momentos, sem
falar dos contos enxertados que aparecem ocasionalmente e que dão um refresco à
narrativa. Uma versão compactada certamente causaria melhor impressão. Porque
800 páginas... Ai, ai, ai! David Copperfield, Nicholas Nickleby, Grandes
Esperanças... Será que dou conta?
Avaliação: ★★
Daniel
Coutinho
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