Quem me acompanha há mais tempo sabe da minha
fixação pela literatura oitocentista, mormente aquela produzida por autores do
meu estado, o Ceará. Desejava imensamente trazer boas novas com esta resenha, a
partir de uma descoberta que me estimulou grandes entusiasmos literários, mas o
adágio que reza “nem tudo que reluz é ouro” foi a carapuça que melhor me serviu
neste caso.
João Adolfo Ribeiro da Silva (1841-1884) me iludiu
com castelos no ar, do mesmo modo que Carlos (protagonista de seu romance
homônimo) fizera com uma dezena de namoradas. Deixe-me explicar. Quando deparei,
em minhas pesquisas, com este autor cearense, o detalhe a seu respeito que mais
chamou minha atenção foi o fato dele ter nascido em Sobral, cidade que fica a
menos de vinte quilômetros de onde moro. Até então, o único ficcionista
sobralense dos oitocentos que eu conhecia era o nosso grande Domingos Olímpio,
cuja obra só veio a lume no início do século passado.
A descoberta de um prosador romântico nascido em
Sobral, do qual eu nunca ouvira falar, publicado ainda no século XIX, parecia
um tesouro promissor para este amante das letras nacionais. Imediatamente tratei
de encaixar o romance Carlos (1867) no meu projeto “Editora Oitocentista”
(busque por @editoraoitocentista no Instagram), para que a obra voltasse
a circular, mas a leitura do dito livro me fez perceber que fiz muito barulho
por nada.
Carlos é um romance
medíocre. O próprio autor confessa tê-lo escrito como passatempo em nota
introdutória. A falta de esmero é perceptível em praticamente todos os aspectos
literários. A escrita é sobejamente derramada e cheia de floreados que pareceriam
exagerados ao mais incurável dos românticos. O enredo é totalmente
desinteressante, passando a impressão de que quase nada acontece no decurso de
duzentas páginas. As personagens parecem bonequinhas de pano nas mãos de alguma
menina que mal deixou de ser impúbere. O estilo predominante é o que os poetas
antigos chamariam de vaporoso.
É evidente que João Adolfo não era nenhum ignorante.
Ele demonstra um bom domínio da língua e nos apresenta, quase que
obsessivamente, suas diversas referências, que vão da mitologia grega aos mais
cultuados medalhões do Romantismo. Seus personagens, querendo passar por
cultos, estão sempre lendo Goethe, ou Musset, ou a já esquecida Madame de
Girardin. Logo, boas referências não faltaram, mas o estudo sem talento não
consegue alçar voos muito altos.
Não há dificuldade alguma em resumir-se o Carlos.
A tarefa soa até ridícula. Trata-se de um jovem mancebo que, após iludir Amélia,
sua namorada de infância, parte para Recife a fim de bacharelar-se em Direito e
(por que não?) iludir mais meia dúzia de moçoilas incautas. A primeira delas é
Júlia, seguida pela jovem viúva Cesarina e, finalmente, por Adelaide, uma
herdeira rica recém-chegada da Europa. Nem preciso dizer que todas elas caem de
amores pelo estudante, que acaba preferindo o dinheiro de Adelaide a qualquer outro
romancezinho bobo. A indiscrição de um amigo de Carlos, porém, acaba revelando
a verdadeira natureza dos interesses do nosso conquistador barato, frustrando
assim o iminente projeto de casamento. Bacharel formado, Carlos retorna para
Sobral, onde chora suas mágoas e casa-se com Amélia, que nunca deixara de amá-lo.
Como visto, não há criatividade alguma nesse
romance tão profundo quanto um papel japonês. Está mais para um exercício de
escrita, que deve ter rendido alguns patacões ao seu autor, que fê-lo publicar
em folhetins do Diário de S. Paulo e, anos depois, em volume. Mas,
claro, para nós, cearenses, que residimos ou conhecemos Sobral, a leitura de Carlos
não deixa de constituir uma curiosidade literária, ainda que decepcionante.
Avaliação: ★
Daniel Coutinho
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