sábado, 17 de outubro de 2026

Carlos, de João Adolfo Ribeiro da Silva - RESENHA #226

Quem me acompanha há mais tempo sabe da minha fixação pela literatura oitocentista, mormente aquela produzida por autores do meu estado, o Ceará. Desejava imensamente trazer boas novas com esta resenha, a partir de uma descoberta que me estimulou grandes entusiasmos literários, mas o adágio que reza “nem tudo que reluz é ouro” foi a carapuça que melhor me serviu neste caso.

João Adolfo Ribeiro da Silva (1841-1884) me iludiu com castelos no ar, do mesmo modo que Carlos (protagonista de seu romance homônimo) fizera com uma dezena de namoradas. Deixe-me explicar. Quando deparei, em minhas pesquisas, com este autor cearense, o detalhe a seu respeito que mais chamou minha atenção foi o fato dele ter nascido em Sobral, cidade que fica a menos de vinte quilômetros de onde moro. Até então, o único ficcionista sobralense dos oitocentos que eu conhecia era o nosso grande Domingos Olímpio, cuja obra só veio a lume no início do século passado.

A descoberta de um prosador romântico nascido em Sobral, do qual eu nunca ouvira falar, publicado ainda no século XIX, parecia um tesouro promissor para este amante das letras nacionais. Imediatamente tratei de encaixar o romance Carlos (1867) no meu projeto “Editora Oitocentista” (busque por @editoraoitocentista no Instagram), para que a obra voltasse a circular, mas a leitura do dito livro me fez perceber que fiz muito barulho por nada.

Carlos é um romance medíocre. O próprio autor confessa tê-lo escrito como passatempo em nota introdutória. A falta de esmero é perceptível em praticamente todos os aspectos literários. A escrita é sobejamente derramada e cheia de floreados que pareceriam exagerados ao mais incurável dos românticos. O enredo é totalmente desinteressante, passando a impressão de que quase nada acontece no decurso de duzentas páginas. As personagens parecem bonequinhas de pano nas mãos de alguma menina que mal deixou de ser impúbere. O estilo predominante é o que os poetas antigos chamariam de vaporoso.

É evidente que João Adolfo não era nenhum ignorante. Ele demonstra um bom domínio da língua e nos apresenta, quase que obsessivamente, suas diversas referências, que vão da mitologia grega aos mais cultuados medalhões do Romantismo. Seus personagens, querendo passar por cultos, estão sempre lendo Goethe, ou Musset, ou a já esquecida Madame de Girardin. Logo, boas referências não faltaram, mas o estudo sem talento não consegue alçar voos muito altos.

Não há dificuldade alguma em resumir-se o Carlos. A tarefa soa até ridícula. Trata-se de um jovem mancebo que, após iludir Amélia, sua namorada de infância, parte para Recife a fim de bacharelar-se em Direito e (por que não?) iludir mais meia dúzia de moçoilas incautas. A primeira delas é Júlia, seguida pela jovem viúva Cesarina e, finalmente, por Adelaide, uma herdeira rica recém-chegada da Europa. Nem preciso dizer que todas elas caem de amores pelo estudante, que acaba preferindo o dinheiro de Adelaide a qualquer outro romancezinho bobo. A indiscrição de um amigo de Carlos, porém, acaba revelando a verdadeira natureza dos interesses do nosso conquistador barato, frustrando assim o iminente projeto de casamento. Bacharel formado, Carlos retorna para Sobral, onde chora suas mágoas e casa-se com Amélia, que nunca deixara de amá-lo.

Como visto, não há criatividade alguma nesse romance tão profundo quanto um papel japonês. Está mais para um exercício de escrita, que deve ter rendido alguns patacões ao seu autor, que fê-lo publicar em folhetins do Diário de S. Paulo e, anos depois, em volume. Mas, claro, para nós, cearenses, que residimos ou conhecemos Sobral, a leitura de Carlos não deixa de constituir uma curiosidade literária, ainda que decepcionante.

Avaliação: ★

Daniel Coutinho

OBS.: Adquira seu exemplar de Carlos diretamente pelo Instagram: @editoraoitocentista ou por e-mail: editoraoitocentista@gmail.com

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