sábado, 4 de abril de 2026

Menina Isabel, de Maria José Dupré - RESENHA #221

Com Menina Isabel finalizo a ficção adulta de Maria José Dupré, autora cuja obra tenho lido com prazer desde 2014. À exceção de Éramos Seis e Dona Lola (lidos quando este blog ainda não existia), todos os romances da escritora paulista estão resenhados por aqui. Foi maravilhoso acompanhar a trajetória desta prosadora que sempre me pareceu subestimada, talvez por sua fama de autora best-seller no século passado.

Menina Isabel (1965), seu último romance publicado, é obra menos inspirada, mas que nem por isso deixa de ter o seu interesse particular. Nele temos muitas das características marcantes da escrita da senhora Dupré: personagens femininas complexas, apreciação do cotidiano, escrita poética, conflitos geracionais, etc.

Podendo também ser considerado um romance de formação, a obra compreende a trajetória de Isabel desde a infância até os dezenove anos. Toda a vida da personagem é marcada por um fato ocorrido logo no início da narrativa: a separação dos pais. Além do trauma de crescer numa família “diferente”, Isabel sofre por se sentir ignorada e subestimada por todos em casa, que distorcem o fato da separação, escondendo-lhe detalhes que ela acaba tendo de descobrir sozinha.

Isabel circula entre dois ambientes: o apartamento em São Paulo, onde é ignorada pelo irmão João, desprezada pela irmã Marina e negligenciada pela mãe pouco atenciosa; e a fazenda Pau Queimado, pertencente ao avô Laerte, espécie de refúgio de toda sua vida, lugar onde se conecta com a natureza e consigo mesma.

Os primeiros episódios do livro, referentes à infância de Isabel, são ambientados em Pau Queimado. Isso confere certa leveza à narrativa que infelizmente não iria muito além das primeiras páginas. O texto é aconchegante, nesse início de romance, com as descrições dos cafezais, os passeis no cavalinho Serapião, as atenções do avô Laerte, as guloseimas de café da manhã feitas pela Ludovica e as histórias impressionantes da avó Eulália.

Mas a vida idílica em Pau Queimado é interrompida pela voz da realidade que grita de São Paulo. Isabel precisa entrar para a escola e cumprir com todos os deveres que se esperam de uma menina da classe média alta. A separação dos pais, que ela busca entender por toda a infância, põe um travo constante em sua existência. Isabel ainda se sente deslocada num lar pouco afetuoso: o irmão João parte para um seminário, a irmã Marina implica com sua aparência, o pai tenta comprá-la com passeios impessoais, e a mãe vive de lamentações, chorando por um problema que ninguém ousava tocar.

A rebeldia torna-se inevitável. Isabel negligencia os estudos, inventa mentiras sobre Marina e despreza a companhia forçada do pai. A mãe, única que ainda tem sua simpatia, parece uma morta em vida, alguém quase tão carente quanto a própria filha caçula. Isabel torna-se má, caprichosa. É sua maneira de sobreviver.

A adolescência converte a menina feia numa moça atraente, e logo Isabel percebe que sua beleza era um trunfo em suas mãos. Decidida a se vingar da irmã, Isabel afugenta todos os pretendentes de Marina, e quando o relacionamento se torna mais sério com um deles, Henrique, a irmã mais nova arma um plano de manipulação para atraí-lo.

Quando a mãe também ganha as atenções de um pretendente, Isabel se revolta, não aceitando que um padrasto assuma um lugar de poder em sua casa. Diante disso, ela usará o mesmo poder de manipulação para afastar Jorge de sua mãe, mas Isabel não contava que seu adversário pudesse ser mais perigoso do que ela supunha.

Menina Isabel, mesmo tendo uma proposta interessante, pecou quanto ao desenvolvimento. A trama, especialmente na segunda metade, ganha um tom mais artificial, e certos acontecimentos se dão num modo automático, soando pouco convincentes. É visível um esforço da autora por manter um contraponto entre a cidade e o campo, mas os episódios em Pau Queimado não conseguem preservar a vivacidade das primeiras cenas. A certa altura do romance, o drama da protagonista parece ficar insustentável, e a própria autora se mostra hesitante sobre como prosseguir: o resultado é um desfecho por demais prolongado, ainda que sem muita matéria, e uma solução meio súbita, sem maiores explicações.

O último romance de Maria José Dupré encerra de modo simpático sua produção ficcional. Embora não feche o ciclo com chave de ouro, entrega-nos um pouco mais da prosa delicada, sensível e absorvente de uma autora que era perita em cativar leitores no frenético “vira-páginas” de seu estilo.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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