sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Em Algum Lugar... (2ª edição mais correta) - Adquira já o seu!


Acaba de chegar a 2ª edição mais correta do meu "Em Algum Lugar..." e está lindíssima!!!

Trata-se de minha primeira incursão pelo gênero "conto", gênero este que tanto aprecio.

Os leitores mais antigos devem estar lembrados que publiquei esta obra ano passado na XII Bienal Internacional do Livro do Ceará, graças a uma seleção acadêmico-literária voltada para os professores da rede pública estadual.


A pequena tiragem, que logo se esgotou, acabou sendo insuficiente, mas o livro finalmente está de volta: com um novo projeto gráfico, uma diagramação mais decente, além de ter passado por uma acurada revisão que não pude fazer na edição anterior.


Na época em que tinha canal no Youtube, gravei dois vídeos especiais comentando a experiência de escrita e lançamento da obra. Para quem porventura ainda não tenha visto, aí estão eles.





SINOPSE

"Em Algum Lugar..." é uma coletânea que enfeixa vinte contos de variado estilo. O volume abre-se com o fantasioso "Entrada franca", que narra uma perseguição psicológica: uma desconhecida que, perdida numa floresta, tenta escapar de algo que nem mesmo ela pode definir. Encontrando refúgio num misterioso jardim, ela procura libertar-se de toda e qualquer opressão, e acaba adormecendo. Os dezoito contos que se seguem seriam os supostos “sonhos” da perseguida. Nada têm eles em relação um com o outro. Os contos se apresentam como histórias independentes e manifestam diferentes temáticas. A coletânea se encerra com "Sem saída", que faz um retorno ao primeiro conto, na tentativa de descobrir o grande segredo do livro, que é desvendar o tal lugar de que fala o título, além de mostrar quem é a perseguida e do que ela foge.
 
ADQUIRA SEU EXEMPLAR!!!

Quem tiver interesse em adquirir uma cópia desta nova edição (que está mesmo linda!), solicite através do e-mail: autordanielcoutinho@gmail.com

Para quem preferir o livro digital, compre pela Amazon:

***

Quem finalizar a leitura, por favor, não deixe de comentar comigo o que achou. Pode até fazer resenha, mesmo que seja que nem uma daquelas que ocasionalmente aparecem por aqui rs!

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Quem com Ferro Fere, com Ferro Será Ferido, de Juvenal Galeno - RESENHA #85

Decidi empreender a nobre tarefa de ler a obra completa de Juvenal Galeno em ordem cronológica. Há pouco tempo, li Prelúdios Poéticos (1856), marco inaugural do Romantismo no Ceará. A obra seguinte foi também de grande importância para nossas letras, em razão de ter sido a primeira produção teatral escrita em solo cearense. Trata-se de Quem com Ferro Fere, com Ferro Será Ferido, provérbio em um ato, escrito em 1859, encenado pela primeira vez em 1861, mas publicado em livro somente em 2010.

Única realização de Galeno enquanto dramaturgo, Quem com Ferro Fere... teve relativo sucesso nos palcos, dada a quantidade de representações executadas. Mesmo possuindo um enredo muito simples e personagens estereotipados, a obra é carregada de denúncia social, além de retratar com bastante fidelidade os tipos e costumes da Terra da Luz no período monárquico.

No pequeno drama, Luís é um humilde agricultor que padece, além da doença da esposa, o despotismo do tenente Amorim, que deseja ultrajar a honra de sua filha Maria. Esta, noiva de Francisco, precisará ter suas núpcias adiantadas, para que se ponha termo à maledicência popular. O tenente Amorim, no entanto, planeja criar uma situação que resulte na prisão de Luís e no recrutamento de Francisco, para que Maria fique inteiramente sob seu domínio.

É com muita graça e uma surpreendente perícia que o autor desenvolve a peça com sequências rápidas e movimentadas. Os personagens estão sempre entrando e saindo de cena, cumprindo cada um deles com seu papel, segundo as intenções do autor. Há uma preocupação de Galeno em tornar os tipos realistas, seja por aquilo que fazem em cena (Maria cosendo, Luís debulhando milho, Amâncio fazendo fogueira) ou pelas situações referidas (Maria na missa, Luís no roçado).

A crítica central concentra-se na situação do pobre perante o despotismo das autoridades locais que, segundo seus interesses particulares, prendiam e recrutavam pessoas deliberadamente, além de não atenderem às próprias leis regidas pela Constituição do Império. Se por um lado, a peça mostra a resistência de uma família que zela pelos seus valores, por outro, temos personagens desiludidos e desesperançados como o bêbado Tomaz, que busca esquecer as misérias da pobreza no álcool, acompanhado de sua viola alegre e brejeira.

Ainda que o desfecho seja excessivamente artificial e improvável, não perde aquele tom teatral que entretém o público, além de manter-se fiel à proposta sugerida no provérbio-título. Com ser a primeira mostra de dramaturgia escrita no Ceará, temos um texto e uma história excelentes e dignos do autor das Lendas e Canções Populares (que será lido ano que vem rs!).

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

*** 

Instagram: @autordanielcoutinho
SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Amor que Mata, de Visconti Coaracy - RESENHA #84

Visconti Coaracy (1837-1892) é geralmente lembrado pela polêmica que teve com José de Alencar em 1874, graças à adaptação teatral que fez do romance O Guarani, da qual Alencar não recebeu sua parte em direitos autorais. Ninguém contudo se lembra de sua produção ficcional, que se perdeu nas colunas dos vários periódicos para os quais Coaracy colaborou em mais de quarenta anos de vida jornalística.

Em 1873, porém, submeteu uma novelinha sua para publicação num clube de assinatura, Bibliotheca Brazileira, que então estreava. Amor que Mata parece não ter interessado o público, sofrendo a condenação de tornar-se uma referência obsoleta. Cabia a mim desencavar essa história do esquecimento rs.

O romancete de Coaracy, tal como A Corveta Diana, é visivelmente influenciado pela pena do Dr. Macedinho, mas sem os atributos imaginativos de Hoonholtz. Trata-se de uma historinha inevitavelmente fadada ao esquecimento instantâneo. Talvez funcione como passatempo, mas daqueles que não se podem levar a sério mesmo, e que se leem pela falta de coisa melhor, ou por pura obstinação, o que é o meu caso rs.

No enredo, temos Luiz, um protagonista desiludido com o amor. Após pôr em dúvida as qualidades físicas e morais de Isabel, jovem viúva, esta decide vingar-se alimentando uma paixão ardente no jovem mancebo. Isabel, que também ignorava o amor, acaba apaixonada pelo insolente moço que, convencido dos belos atributos da viúva, está disposto a conquistá-la, mas o orgulho de ambos poderá levá-los a um destino infeliz e fatal.

A experiência jornalística do autor é o que acaba lhe valendo em sua narrativa sensaborona. Sua escrita é inegavelmente fluente e bem delineada, faltando-lhe no entanto verve suficiente para desenvolver uma boa trama. Até mesmo a estrutura do livro, cujos capítulos compreendem uma sequência de episódios ligeiros, é interessante, até o momento em que se depara com um enredo deficiente e problemático.

O narrador, que não soube se haver com os protagonistas, embananou-se de verdade com os personagens secundários, precipitando a relação amorosa entre Pedro e Eulália, além de sugerir um destino fatal a um personagem tão pouco lutuoso como o Sr. Dolby.

Desconfio que Coaracy tenha pago um favor ou mesmo uma dívida com seu Amor que Mata, já que não lhe pude reconhecer qualquer intenção artística. Talvez só quisesse entregar uma historinha de oitenta páginas (sabe-se lá com que fim) a um desses editores desleais que mal sabem o que publicam. Uma pena! O delineado de sua frase poderia ter lhe rendido mais... ou não rs?

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

Editora Oitocentista lançou em 2024 uma edição fac-símile de Amor que Mata. Para adquirir seu exemplar, fale com a editora pelo Instagram (@editoraoitocentista) ou por e-mail (editoraoitocentista@gmail.com).
*** 

Instagram: @autordanielcoutinho
SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com

sábado, 3 de novembro de 2018

A Corveta Diana, de Antônio Luís von Hoonholtz - RESENHA #83

Antônio Luís von Hoonholtz (1837-1931) foi um importante almirante brasileiro, herói da Guerra do Paraguai, que se dedicou a diversas atividades de relevância nacional, o que lhe rendeu, por exemplo, o título de “barão de Tefé”. É também lembrado por ter sido pai da caricaturista Nair de Tefé, a segunda esposa do presidente Hermes da Fonseca.

Hoonholtz, afora suas mil atividades de fôlego, era ainda um amante das letras, tendo sido um grande leitor de poetas e prosadores nacionais e estrangeiros. Seus entusiasmos literários levaram-no à ousadia de escrever seu próprio romance que, segundo ele, era na verdade uma “memória” de acontecimentos reais. Consciente do pouco valor de sua obra, mantivera-a guardada por dez anos, até que seu irmão José Paulino, o Juca, depois de ler o manuscrito, decidira mandar imprimir o livro sem comunicar nada a Antônio. Ao que parece, o romance intitulado de A Corveta Diana (1873) não chegou a ser comercializado, pois a pequena tiragem que dele se fez foi toda destinada aos amigos mais próximos do autor.

Adepto da escola romântica, servindo-se dos modelos bebidos em Teixeira e Sousa e Joaquim Manuel de Macedo, Hoonholtz nos apresenta uma narrativa sentimental e previsível, mas divertida e agradável. Sua escrita é até bastante cuidada para um homem que não era do meio, o que para mim foi uma grata surpresa. A Corveta Diana é pois o que chamo de passatempo literário, mas que preza por uma linguagem e estilo cativantes. Os únicos entraves que tive durante a leitura foram o jargão náutico utilizado nas cenas marítimas e a reprodução do sotaque português do personagem Jorge.

O romance nos apresenta Amélia, uma bela órfãzinha de dezessete anos, que vive na companhia das irmãs Chiquinha, Quinota e Mariquinhas, esta última casada e mãe de três filhos. As meninas decidiram evitar passeios e divertimentos até que a morte da mãe completasse um ano, sujeitando-se a uma vida monótona e desinteressante. A chegada da corveta Diana naquela sossegada praia catarinense viria tirá-las do tédio.

O comandante Otávio, moço muito simpático, logo dá-se a conhecer e faz a apresentação de seus amigos oficiais: o velho comissário Ricardo, o piloto Gustavo, o escrivão Adriano, o guarda-marinha Fernando, o Dr. Alberto e o segundo-tenente Alfredo, que preferira isolar-se de todos, separando-se das senhoras com um breve aceno. Tal atitude chamara a atenção de Amélia, que imediatamente considerou o moço um orgulhoso.

Nossa protagonista é na verdade uma romântica sonhadora que espera pela chegada de um homem ideal. Desapontada com os oficiais que conhecera, ela sofre uma amarga desilusão que lhe tira o sono. Recostada na janela do quarto, Amélia tem seus pensamentos interrompidos pelo som de uma voz que canta a ária do Ernani. Era Alfredo quem passava e que ganhava, a partir daquele momento, o interesse da jovem. Daí surge uma profunda afeição entre os dois.

Mas como em toda boa história romântica, não poderíamos deixar de ter um vilão horrendo e perverso. Aqui, quem assume este papel é o desprezível Dionísio, que tendo idade para ser pai de Amélia, dirige seus galanteios à bela órfã. Percebendo-se rejeitado em benefício de Alfredo, Dionísio faz uso de suas influências para obter a retirada da Diana. Com a partida do tenente, ele empenha-se em tecer um plano de vingança, objetivando a desonra de Amélia.

Mesmo tendo um enredo tipicamente folhetinesco, o romance de Hoonholtz revela um observador sensível e atento. Para além das fórmulas de segredos do passado que são revelados e passagens apelativas que vão de um matricídio a um quase incesto, o autor nos brinda com cenas cheias de carisma e sensibilidade, como o passeio de Alfredo pelas ruas do Desterro (hoje Florianópolis) ou a conferência íntima onde os oficias trocam confidências pessoais. O capítulo em que Otávio conta a história de seus amores com Julieta e o Dr. Alberto compartilha a sua inovadora teoria de conquista é um verdadeiro tributo a Macedo, de quem Hoonholtz devia ser grande admirador.

Não esperava mesmo encontrar as qualidades que me revelou A Corveta Diana. O almirante provou que, mesmo carecendo de talento estilístico, possuía uma escrita desembaraçada e correntia. Desejei ler seu drama naval A Justiça de Deus, mas não o localizei. Fiquei com esta impressão final de que Hoonholtz devia ser aquele cara sério de casca grossa que encobre um coração generoso, delicado e dócil.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

*** 

Instagram: @autordanielcoutinho
SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com

terça-feira, 30 de outubro de 2018

A Casa do Passado, de Algernon Blackwood - RESENHA #82

Desejando ler algumas histórias de terror, influenciado pelos leitores aficionados do gênero que, neste mês de outubro, cultuam o sobrenatural, decidi conhecer a obra de um autor inglês, Algernon Blackwood (1869-1951), por indicação da amiga Claire Scorzi.

Pouco conhecido no Brasil, Blackwood foi redescoberto pela escritora Heloisa Seixas que, no início dos anos 2000, traduziu e organizou uma antologia de dez contos do autor para a editora Record. Esta seleta, A Casa do Passado, prometia entregar, como dizia o subtítulo, “dez grandes contos de terror”, mas apenas três ou quatro narrativas se encaixam realmente no gênero, sendo que as demais apenas exploram elementos fantásticos.

Os contos de Algernon Blackwood, mesmo os de terror, dificilmente provocam medo, ainda que este seja o objeto maior de sua análise. Em quase todas as histórias desta seleta, o autor demonstra um cuidado bastante minucioso em descrever a sensação de medo experimentada por seus personagens. Surpreendeu-me o caráter analítico de sua prosa, especialmente pela profundidade psicológica que ela atinge.

As narrativas transcorrem lentamente, num ritmo que por vezes chega a ser cansativo, mas a lentidão quase sempre é compensada pela beleza da escrita. O tratamento artístico que Blackwood dá ao seu texto é primoroso e, em certos casos, notadamente poético. Seu amor pelas viagens e paisagens naturais reflete-se nos múltiplos cenários que encontramos em sua obra, como nas minuciosas descrições da natureza. Não fosse a demora e a despreocupação do narrador com o prosseguimento do enredo, seu texto fluiria mais livremente.

Quando li “Lobo Andarilho”, por exemplo, que deve ter umas trinta páginas, pensei: “tivesse este conto umas dez páginas de menos, seria uma obra-prima”. Pensaria mais ou menos o mesmo de muitos outros contos do livro. O que dizer então de “Os salgueiros” com suas intermináveis sessenta páginas? Há quem o considere, como o próprio autor considerava, a obra máxima de Blackwood. É um conto excelente, sem dúvida, mas excessivamente lento e prolixo.

Estou meio em dúvida quanto ao melhor conto desta antologia. Fico entre “O quarto ocupado” e “As asas de Horus”. O primeiro possui uma estrutura e um ritmo comedidos, além de uma ideia aterradora muito bem desenvolvida. O outro, embora menos moderado que o primeiro, deu-me a impressão de estar assistindo a um grande espetáculo, certamente por seu toque impressionista e teatral.

Além desses, apreciei com grande empolgação o já mencionado “Lobo Andarilho” que, como disse, beirou a excelência, com sua mistura de lenda antiga e narrativa de suspense; além do conto que dá título à coletânea, “A casa do passado”, fantasia poética que me deixou pelo menos uma meia hora pensando em reencarnação. É prosa poética de alta qualidade que nos faz refletir que todos carregamos uma “casa do passado” dentro de nós, cheia de lembranças adormecidas e não lembradas.

Integra a coleção outro conto bastante conhecido de Blackwood: “A boneca”, que inspiraria incontáveis outras histórias de brinquedos assassinos. Não obstante sua originalidade, incomodou-me a incoerência do enredo, que realmente não me convenceu. Pareceu-me incoerente que, dadas as circunstâncias descritas, a cozinheira desse a boneca à Monica; como também nada fizessem (ela, a arrumadeira e Madame Jodzka) para desfazer-se do brinquedo após a constatação do perigo; e, finalmente, a atitude do coronel Masters perante o caso, especialmente por não ignorar os pormenores em torno da terrível boneca.

Blackwood flerta ainda com o gênero de ficção científica, construindo mundos paralelos em histórias como “O caso Pikestaffe” e, ainda que mais sutilmente, em “Os salgueiros”. Outra peculiaridade de sua prosa é o toque de sensualidade que permeia alguns de seus contos, mais perceptível na primeira metade do volume.

Quanto aos outros contos, ainda que não tenham me parecido ruins, julguei-os pouco cômodos para uma “antologia”, mas atribuí o fato à dificuldade de acesso à obra de Blackwood, alegada pela organizadora em prefácio. Gostei mesmo assim, de modo geral, de todas as histórias, até as mais bobinhas, como “A ala Norte” e “O homem que era Milligan”.

Não consegui sentir medo lendo Algernon Blackwood. Tá bem: talvez só um pouquinho, quando lia “A boneca”, que meu celular começou a tocar sem aparecer nada na tela rs. Em compensação, apreciei de verdade o esteta que ele mostrou ser em seus textos, tão cheios dele mesmo: de suas paixões, de suas fantasias e, sobretudo, de seus medos.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

*** 

Instagram: @autordanielcoutinho
SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com

sábado, 20 de outubro de 2018

A Queda dum Anjo, de Camilo Castelo Branco - RESENHA #81

Evitei por muito tempo este livro de Camilo, antipático que sou ao assunto “política”, sem descuidar do valor que ele (o livro) representa na colossal bibliografia do imortal português. Após conhecer os lances passionais do autor de Amor de Perdição, reconhecia a necessidade de encarar outras tendências cultivadas pelo mestre lusitano. A Queda dum Anjo (1866) certamente não foi a leitura mais agradável que Camilo me entregou, mas deu-me a felicidade de constatar que a febre dos amores, na qual ardia o romancista, impediu que a abordagem política empanasse os elementos mais simpáticos da novela.

Eu poderia ter apreciado mais este romance. Eis minha sensação final. O entrave maior, desta vez, não foi o hermetismo já tão conhecido na obra camiliana. O autor, autoconsciente de sua capacidade vocabular, e talvez criticado por seus excessos linguísticos, quis mostrar que o diabo pode ser muito mais feio do que se pinta. Decidiu pois que era necessário revelar a verdadeira verborragia: o vernáculo adornado de pretensões, o palanflório prolixo que nada diz. Para tal demonstração, ele nos dá o presunçoso Dr. Libório de Meireles, que rouba a paciência de Calisto Elói, o protagonista, tanto quanto dos leitores, com seus discursos incompreensíveis.

Os debates nas sessões parlamentares, onde se despeja a enfadonha demonstração do genuíno discurso verborrágico, foi o entrave maior de que falei. Ficava mesmo tentado a fechar o livro ou fazer leitura dinâmica rs. Compreendo as boas intenções do linguista, mas reprovei o exagerado método adotado para convencer-nos de que: “As laranjas, espremidas demais, dão sumo azedo, que corta a língua.” Tirante o enfado destas passagens irritantes, A Queda dum Anjo, se não toma ares de perfeição, admite uma leitura mais feliz.

Passando à narrativa, o autor nos apresenta Calisto Elói, um raro exemplar e representante do velho Portugal, cujos costumes são os mais antiquados possíveis, notados desde seu traje, do começo do século, até seus livros, nenhum deles com menos de cento e cinquenta anos. Este austero senhor é casado com uma prima, dona Teodora, senhora empenhada numa meticulosa economia doméstica. Logo de início somos levados a crer que o matrimônio dos dois é puramente convencional, não implicando sentimentalismo algum.

Calisto, com quarenta e quatro anos, sempre tivera o instinto do dever, combatendo com excessivas leituras os impulsos e afoitamentos da juventude. Sua louvada reputação faz dele um provinciano de destaque, sendo elegido, quase que por unanimidade, deputado de Miranda. Partindo para Lisboa, ele depara-se com uma realidade bem diversa daquela rezada em seus alfarrábios. A corte dá-lhe ensejo para o exercício de suas virtudes, que são logo alvo de censura pelos parlamentares liberais. A conduta do "anjo”, no entanto, acaba cedendo aos sintomas de uma “mocidade serôdia”.

O coração de Calisto, ainda virgem das paixões espontâneas, acaba incendiando naquele novo terreno, em contato com as damas elegantes da sociedade. Adelaide é a primeira mulher a fazê-lo perceber os encantos da paixão, que tiram-lhe o sono, que fazem-no cismar e compor versos. Calisto experimenta o ciúme, pelo pretendente jovem da donzela, e sofre o desprezo da mesma, que prefere ao outro. Eis os lances de uma mocidade tardia que, segundo o narrador, independente de tempo, é inevitável para todo e qualquer homem.

A impossibilidade do amor com Adelaide libera os sentimentos de Calisto para uma nova inclinação. É aí que surge Ifigênia, uma prima distante do deputado que, viúva, jovem e desamparada, recebe com acolhimento a proteção deste. Semelhante a Calisto, Ifigênia nunca conhecera o amor, tendo dedicado a seu marido um afeto paternal. Diante pois daquele coração igualmente virgem, não creio ser necessário explicar a qualidade da “queda” de que trata o título do romance.

Camilo, um brincalhão de primeira, já no título da obra reflete os preconceitos de sua época. Mas o que poderia ser uma “queda” para o público, a atitude de Calisto, para ele, era exemplo de libertação. De fato, não é um processo de perversão o que sofre o personagem; é antes um reconhecimento advindo de uma análise pessoal que o faz mudar. São os interesses pessoais que estão em jogo, bem aos olhos do leitor. O comportamento dos personagens é apenas reflexo desses interesses. O que poderia ser considerado uma “imoralidade” corresponderia ao ideal de “felicidade” de Calisto Elói.

Assim como no Amor de Salvação, a companhia de Camilo melhora consideravelmente a experiência de leitura, porque seu narrador traz marcas notadamente pessoais, o que nos faz senti-lo próximo e presente. Humor e ironia são ingredientes bem utilizados neste romance que, para minha surpresa, tirou-me boas gargalhadas, mesmo quando tratava de “política” rs.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

*** 

Instagram: @autordanielcoutinho
SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Pequenos Assombros, de Bruno Paulino - RESENHA #80

Preparando-me psicologicamente para encarar as macabras histórias de Algernon Blackwood, que devo ler em breve, decidi dar uma chance a este livrinho que caiu-me às mãos recentemente (presente de um amigo poeta), cuja proposta muito me interessou.

Lançamento deste ano, Pequenos Assombros, do cearense Bruno Paulino, encerra contos e crônicas que exploram o universo do terror, seja através do reconto de causos populares, como também da expressão pessoal de um aficionado do gênero.

Os dez trabalhos publicados na coletânea atendem, todos eles, a uma concisão que beira mesmo o sobrenatural rs. Esse limitado espaço assentou mais às narrativas de caráter pessoal, como “Visagem”, “Um velho gato”, “O exterminador de lagartixas” e “O despertar dos cassacos”, que não por coincidência figuram entre os melhores textos do conjunto.

Por outro lado, a tentativa de registrar casos conhecidos, especialmente de nossa região, não vingou com a mesma comodidade no livro, dada a força dos argumentos que exigiam um desenvolvimento mais destacado. “O mistério no céu do Salva-Vidas”, por exemplo, recordou-me uma das histórias mais antigas contadas por meu pai, com pormenores mais significativos até. Estou mesmo embirrando porque não consigo lembrar o nome que se dava ao tal objeto voador aludido na história dele. Prometo perguntar de novo assim que possível e publicar nos comentários rs.

Também já conhecia (e acho que todo mundo rs) as lendárias botijas que faziam enriquecer os sortudos que as encontrassem. Um episódio similar é ricamente registrado por Franklin Távora em “O tesouro do rio”, nas suas esquecidas Lendas e Tradições Populares do Norte, já resenhadas por aqui também. O curioso do conto de Bruno, “A botija de dona Guidinha”, é justamente o aproveitamento da figura histórica de Marica Lessa, imortalizada como Margarida, ou simplesmente Guidinha, na obra máxima de Oliveira Paiva.

Destaco ainda “Excertos do estranho diário do Dr. Albuquerque”, que apresenta uma história de lobisomem por um artifício que me pareceu bastante conveniente, principalmente pela sugestão sutil de uma confissão, uma revelação que poderia implicar (quem sabe) um sentimento de culpa. As demais narrativas, conquanto mereçam algum interesse, sufocaram na concisão exagerada, como um sapato que nos aperta o pé.

Pequenos Assombros, com o talento demonstrado por seu autor, poderia ter saído muito melhor com umas cem páginas a mais. Irritou-me ver num livro tão curtinho aqueles bobos erros de revisão, com que sempre implico; mas, felizmente, longe (muito longe) de superar o recordista História entre Mundos. Lembram-se dele rs?

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

*** 

Instagram: @autordanielcoutinho
SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com