quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A Intrusa, de Júlia Lopes de Almeida - RESENHA #57

Ainda estou mui impressionado pela leitura d’A Intrusa (1905), de Júlia Lopes de Almeida. Sabe quando você tem a impressão de que tal livro foi feito especialmente para agradá-lo? Pois foi esta minha impressão. D. Júlia já me havia dado mostras de seu talento com o estranho Cruel Amor, lido ano passado; mas esta nova experiência foi ainda mais grandiosa pelo efeito da recepção. Lia as páginas d’A Intrusa com tanto interesse, que desejava que o livro não terminasse; ainda que não conseguisse poupá-lo. Certamente que o argumento do romance, por ser tão instigante, renderia uma obra mais extensa. Sentia-me um coautor enquanto formulava mentalmente outros episódios que adoraria ver no livro.

Simpatizei demasiado o enredo. Argemiro, viúvo há nove anos, vê com tristeza a desordem em que se acha seu lar; lamenta também a ausência da filha, Maria da Glória, de onze anos, que vive na chácara dos avós maternos, onde é muito malcriada. Mesmo sendo ainda jovem, repudia um segundo casamento, tão viva que está a imagem da falecida em seus pensamentos; sem contar que a mulher, agonizando, fizera-lhe prometer fidelidade mesmo após a morte. Nestas circunstâncias, não querendo casar-se novamente e ao mesmo tempo necessitado de uma intervenção feminina em sua casa, põe um anúncio no jornal, solicitando uma governanta.

Alice Galba, uma jovem solteira de vinte e cinco anos, logo se apresenta na residência do viúvo, e por ele é admitida, com a especial condição de que não se vejam. Mesmo na entrevista de contratação, Argemiro não pôde ver o rosto de sua governanta, que estava coberto por um véu. Logo nos primeiros dias de trabalho, Alice assume o controle da casa e dos criados, inclusive Feliciano, que era quem dispunha de tudo anteriormente. Este era criado de confiança por ser filho da ama de leite da falecida senhora, mas não tinha o menor desvelo nos trabalhos domésticos, abusando dos gastos e da confiança de seu patrão.

Uma súbita mudança se faz notar na casa de Argemiro que, imediatamente, percebe o decoro da governanta no trato das mais simples tarefas. Os móveis lustrosos, as roupas bem dobradas nas gavetas, objetos antigos restaurados, o jardim bem cultivado, todos os cômodos na mais perfeita ordem. Tudo enfim torna-se agradável aos olhos de Argemiro, que mesmo nunca vendo Alice, pressente-a em todos os detalhes. Sente-se mesmo satisfeito por não vê-la, evitando todo e qualquer constrangimento; não a reconhece como mulher, mas como uma alma eficiente e silenciosa.

Mas agora entendamos por que tão prendada mulher é uma “intrusa”.

Com uma governanta em casa, Feliciano perde os plenos poderes que egoisticamente usufruía. Além de não ter mais o comando dos outros criados, ele já não pode fumar os odorosos havanas do senhor, nem dispor de suas camisas e gravatas, e, principalmente, já não pode despender com excessos o dinheiro que lhe era confiado. Destruíram seu reinado e, para ele, é inadmissível que uma mulher branca o tenha feito. Revoltado com sua própria raça, Feliciano tem mania de superioridade por ter sido educado na mesma cartilha de sua finada senhora.

Luiza, a baronesa do Cerro Alegre e sogra de Argemiro, também aborrece Alice, pois receia que a moça possa tomar o lugar de sua filha. A finada é cultuada de tal forma como se nunca houvera morrido. A baronesa teme que seu genro falte com a promessa exigida pela morta, como também lamenta que sua neta, Maria da Glória, esteja cada vez mais amiga da “outra”, que tem alcançado grandes progressos na educação da menina. Alice, segundo ela, não passa de uma calculista mal-intencionada que, fazendo-se de boazinha, deseja ser a nova senhora da família.

Petronilha, esposa do ministro Pedrosa, não acredita que haja candidato mais conveniente para casar-se com sua filha do que Argemiro, que é advogado muito bem-sucedido. A senhora pedrosa arrasta a filha para o lado do viúvo em todas as ocasiões possíveis, ainda que a jovem não demonstre sinceras inclinações amorosas por ele. Alice Galba representa, portanto, uma perigosa ameaça que poderá tornar tudo ainda mais difícil para seus planos.

Finalmente, ainda que com muita sutileza, padre Assunção, o melhor amigo de Argemiro, demonstra receios em relação a Alice. Ainda que para ele a jovem governanta não seja exatamente uma intrusa, é sempre com cuidado que observa o quanto seu amigo é dominado por sua delicada influência. Ao leitor, podem parecer estranhos os zelos do padre que, mais do que ninguém, é consciente da nobreza da governanta. Mas há uma razão especial para essa reserva, que só será revelada a seu tempo.

O objeto da cisma de todos esses personagens é quem menos aparece no livro. O que sabemos de Alice é sempre nos transmitido por intermédios. A autora meio que evita nossa simpática intrusa, como a querer que o leitor formule sua personalidade a partir das impressões dos outros, o que me pareceu uma interessante sutileza da narrativa. Contudo, mesmo privados de um acesso mais direto à misteriosa personagem, pressentimo-la o tempo todo, tal como Argemiro que, mesmo sem a ver, percebe-lhe constantemente, seja no aroma que agora há em sua casa, seja num livro aberto, abandonado às pressas numa janela.

A Intrusa é de uma animosidade que alude aos melhores romances do século XIX. Há uma vivacidade nos episódios, pintados sempre com muita graça, como decididos a agradar o leitor a todo custo. O ritmo é sempre formidável pela leveza e brilhantismo das cenas. Não é livro que propõe densas reflexões ou que vá mudar a sua vida; é obra para encanto e deleite de todo leitor que esteja sôfrego por acompanhar uma história curiosa e enternecedora.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa - RESENHA #56

Muito já se discutiu sobre a primazia do romance brasileiro, o que não deixa de causar certa admiração, principalmente depois que se lê o esclarecedor artigo de Aurélio Buarque de Holanda para O Cruzeiro, de 1952, mais tarde reutilizado (com algumas alterações) como prefácio em edição de O Filho do Pescador (Melhoramentos, 1977). De tudo o que li sobre a referida questão, o texto do Aurélio me pareceu o de observações mais acertadas. Não vou remoer o assunto aqui, pois não é o motivo do post. Limito-me a dizer que, como José Veríssimo, reconheço o romance de Teixeira e Sousa como o primeiro de nossas letras.

Todos que se deram ao trabalho de ler e analisar O Filho do Pescador (1843) são unânimes sobre a precariedade do livro. Desse modo, ainda que involuntariamente, a crítica lançou sobre a obra tal anátema, que há pelo menos vinte anos a mesma não é reeditada. A última edição de que tenho notícia é a preparada por Domício Proença Filho para a editora Artium em 1997; edição por que li.

Muito me admira essa aversão à obra de Teixeira e Sousa, mesmo da parte de estudiosos da Literatura. Não me proponho aqui a desmentir os muitos defeitos apontados pela crítica; antes, quero fazê-los pensar nosso primeiro romance como o que é: o primeiro. Quando paramos para analisar as primeiras obras de nossos autores preferidos, deparamo-nos com problemas que, de modo geral, não aparecem em trabalhos posteriores, sem contarmos que não poucos escritores acabam excluindo publicações imaturas de suas bibliografias. O começo não é fácil pra ninguém rs. Agora, pensemos no que consistia a prosa de ficção do Brasil antes de 1843. Quando muito, tínhamos o Compêndio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, que de caráter notadamente religioso, era mais um livro didático de escola dominical rs. Há quem lembre os contos ou novelas da primeira metade do século XIX; mas certamente que as narrativas de Lucas José de Alvarenga e Pereira da Silva (imitadas de argumentos europeus) ou mesmo as novelas mais ou menos originais de Joaquim Norberto não tinham o porte do romance de Teixeira e Sousa.

Foi, pois, o autor cabo-friense quem abriu caminho para todos os outros “romancistas” posteriores. O Filho do Pescador não é, portanto, apenas um problemático livro de autor estreante; é o primeiro romance de uma nação. Não parece pois justo exigir excelência de obra pioneira no exercício do gênero literário mais complexo em nosso país. Esta consideração que elevou tal romance em meu conceito, mas não apenas ela. Se considerarmos também que Teixeira e Sousa foi um mulato de precária educação (interrompida aos treze anos por problemas financeiros), e que por volta dos vinte anos, já não tinha nenhum membro da família vivo, passaremos a admirá-lo muito mais, pois, não obstante tantas adversidades, perseverou ele ainda com suas atividades literárias. Todas essas razões são mais que suficientes para justificar o interesse pela leitura do objeto desta resenha.

O Filho do Pescador é um típico romance de folhetim. Não quero dizer com isto simplesmente que trata-se de narrativa de caráter folhetinesco; sua primeira publicação foi de fato em forma de “folhetim”, quando saiu nos rodapés do jornal O Brasil, de 6 de julho a 22 de agosto de 1843. Enquanto romance de folhetim, a obra não poderia deixar de conter todos os elementos característicos do gênero, que era mesmo destinado a agradar o grande público. Portanto, como era comum aos folhetins, o enredo é bastante movimentado, os personagens estereotipados, há manutenção de suspense, além de reviravoltas e ganchos entre os capítulos. Ainda que narrado de forma linear, o autor faz uso de flashbacks através de revelações feitas pelos próprios personagens.

Seduzida por Sérgio, Laura abandona sua mãe e vai viver com o amante; era órfã de pai e contava apenas treze anos. Após dar a luz a um menino, Sérgio a abandona, levando-lhe seu filho. Laura é amparada por outro homem, mas ambos acabam naufragando na costa fluminense; morre o amante, mas Laura é salva por Augusto, o filho do pescador, que a leva para sua casa na praia de Copacabana, onde se desenrola a trama. Apaixonado pela náufraga, a quem acredita ser viúva, Augusto quer casar-se com ela, mesmo contra a vontade do velho pescador, seu pai.

Realizado o casamento, Laura dá cada vez mais mostras de sua leviandade. Tendo casado por interesse, sente-se logo atraída por Florindo, cantor de modinhas e “amigo” de seu marido. Florindo persuade Laura a livrar-se de Augusto; para tanto, ela provoca um incêndio, mas o escravo João resgata seu senhor; uma tentativa de envenenamento acaba surtindo mais efeito. É também sugerido que Laura se relacionava com outros homens; após ser abandonada por Florindo, ela exige que Marcos (o amante seguinte) mate aquele que a desprezou. O que Laura não sabe é que alguém discretamente testemunha todos os seus crimes; com que intenções, não vou dizer. Para complicar tudo ainda mais, Emiliano, um jovem caçador, acaba despertando em Laura sentimentos que ela nunca antes experimentara. Esse novo amor, que é correspondido, se afigura diferente dos outros, revestido de pureza e honestidade; mas o Dr. Sinval, padrinho e pai adotivo de Emiliano, é dono de um segredo que impossibilita terminantemente tal união.

O romance, como já bem sugere o enredo, é bastante artificial e repleto de exageros. Os tipos são mesmo caricatos e Aurélio Buarque de Holanda os percebe como abstrações: “O autor não movimenta seres humanos; movimenta abstrações – a Beleza e a Fealdade, o Egoísmo e a Renúncia, a Virtude e o Vício”. O crítico também reconhece uma “despreocupação com a verossimilhança”; não que os episódios sejam exatamente inverossímeis; a forma como o autor os conta, tão deliberadamente e sem maiores explicações, é que os torna. Como aponta o mesmo crítico, os personagens se movimentam meio que de forma automática, como se fossem máquinas trabalhando, isentos portanto de necessidades comuns ao cotidiano de todas as pessoas.

Sobre o estilo do autor, não podemos deixar de mencionar suas frases de efeito que permeiam toda a obra, que fizeram Domício Proença Filho associá-las aos atuais modelos de autoajuda, e Aurélio Buarque de Holanda chamar seu autor um “sub-Marquês de Maricá”. Eu, particularmente, gostei dessas máximas do autor. Digam o que disserem, marquei várias delas, pois me causaram, sinceramente, boas impressões.

Domício Proença Filho reconhece ainda no narrador do romance certas técnicas que antecipam o esmerado estilo machadiano. O narrador de Teixeira e Sousa, embora peque por se confundir com o autor (ainda que por causa explicável: o romance é uma espécie de resposta a pedido de certa dona Emília), mantém uma conversação com o leitor: comenta as situações, supõe que impressões os episódios narrados poderiam provocar, transcreve até supostos pensamentos de possíveis leitores a respeito da obra. Todas essas técnicas narrativas, sim, dão certa graça ao livro.

Mas o que deveras mais me chamou atenção nesta leitura, e que também não passou despercebido a Domício Proença Filho, é a atualidade do discurso feminista de Emiliano (note-se que é um personagem masculino) no último capítulo. Teixeira e Sousa, através deste personagem, reflete a condição da mulher em sua época, tão constantemente exposta à qualidade de vítima pela maldade dos homens. Em suma, critica-se uma realidade que persiste até os dias de hoje: o homem que exige virtude da mulher e que a repreende por seu vício, ainda que ele mesmo tenha colaborado com sua corrupção.

O Filho do Pescador é uma leitura simplesmente necessária a todos os apreciadores da literatura nacional, não só pelo seu valor histórico/documental, mas para compreensão do alicerce do que hoje chamamos romance brasileiro.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

TOP 10 - MELHORES LEITURAS DE 2017!!!



Encerradas as leituras do ano, vamos comentar, como de costume, os títulos mais marcantes que, diferente do que ocorreu ano passado, foram muitos. Ainda que tenha dado 5 estrelas a apenas 3 títulos (portanto, menos que em 2016), não foi nada fácil fazer essa seleção, pois muitos livros beiraram a avaliação máxima. Mais difícil ainda foi classificar as escolhas por ordem de preferência, mas não querendo romper com minhas tradições, abracei o desafio, e aí estão pois os bonitos, do último ao primeiro colocado. Todos tiveram uma resenha em vídeo, publicadas todas elas no canal Literatura & EU; deixarei os títulos hiperlinkados, para o caso de vocês terem perdido alguma ou, quem sabe, quererem rever.


# 10º lugar ALVES & CIA., de Eça de Queirós (4 estrelas)
2017 definitivamente foi um ano dedicado a Eça, mas, infelizmente, não me senti devidamente recompensado por essa dedicação. Dos quatro livros lidos, apenas este Alves & Cia. foi merecedor de 4 estrelas. Obra póstuma, trata-se de uma novela sobre infidelidade conjugal. Após flagrar a esposa nos braços de seu sócio Machado, Alves cisma em encontrar uma maneira eficiente de limpar sua honra ultrajada, mas as conveniências e interesses pessoais poderão intervir cabalmente em sua decisão.

# 9º lugar UMA MULHER, de Francesca Lenardon Pilosio (4 estrelas)
Tive uma das leituras mais fluidas do ano nesta minha primeira experiência com a literatura italiana. Franca Lenardon, como também era conhecida a autora de Uma Mulher, está hoje totalmente esquecida e pouco se sabe a seu respeito. Para mim, foi a descoberta do ano, merecendo o prêmio de autora revelação rs. A delicadeza que tem este romance de memórias faz o leitor simpatizar a romântica Luísa, uma mulher desprovida de ambições materiais, e que sofre da incapacidade de deixar de amar. Simples, poético e enternecedor.

# 8º lugar AMOR DE MÃE, de Paul Vialar (4 estrelas)
A excentricidade já é uma marca notável na literatura francesa, mas o tipo excêntrico deste Amor de Mãe é profundamente tocante, porque somos todos sensíveis ao afeto maternal. Daniela é a personificação da maternidade, sendo ela incapaz de partilhar outros sentimentos. Pelos filhos, sua razão de viver, será capaz de todos os sacrifícios. Os artifícios de construção e condução da narrativa usados pelo prolífico Paul Vialar tornam a leitura excepcional.

# 7º lugar A DAMA DAS CAMÉLIAS, de Alexandre Dumas, filho (4 estrelas)
Os amores do nobre Armand Duval com a célebre cortesã Marguerite Gautier inspiraram meu amado Alencar em Lucíola. O texto, não sei se pela tradução que li, me pareceu de uma modernidade impressionante, pois não compartilha do ritmo particular aos romances oitocentistas. O romance é de uma elegância soberba, seja pelo estilo, seja pela forma; pois é constantemente belo e gracioso, como que engajado em seduzir o leitor. O único senão que lhe impediu a nota máxima foi o pouco desvelo na feitura da transição redentora por que passa Marguerite; o que, a meu ver, foi melhor realizado no romance de Alencar.

# 6º lugar O MONGE, de Matthew Gregory Lewis (4 estrelas)
Diferente de tudo que já li na vida, nunca um romance me pareceu tão tenebroso ou revestido de uma atmosfera tão diabólica como O Monge. O próprio diabo constitui um personagem da trama, ainda que, à primeira vista, de forma implícita. Mas não foram seus mil e um demônios que conferiram à obra de Lewis uma avaliação excelente. Mas o pior é que o fator que o engrandece acaba sendo também o defeito que lhe ofusca o brilho. Estou me referindo à substância colossal do romance que, mesmo não sendo uma obra tão extensa, dá a impressão de ser muito maior, pela excessiva matéria utilizada pelo autor, que incluiu em sua obra vários mitos da cultura inglesa. Ainda que pecando pelos excessos, é uma obra magistral.

# 5º lugar O FEIJÃO E O SONHO, de Orígenes Lessa (4 estrelas)
Como não ser atingido por este livro que trata de uma questão que me é tão particular? Qual poeta nunca foi desdenhado? Qual escritor nunca teve de sacrificar o seu ideal em virtude das necessidades mundanas? Sou mais um dentre milhões e milhões de autores que sonham com o dia em que poderemos viver da literatura que produzimos. Enquanto não chega esse dia, continuemos nos sacrificando para que não falte feijão em nossa mesa.

# 4º lugar AVES DE ARRIBAÇÃO, de Antônio Sales (4 estrelas)
Aves de Arribação é uma das obras mais bem executadas da literatura cearense. E o que mais impressiona é que Antônio Sales não teve que apelar aos horrores da seca para atingir tão elevado sucesso. Romance subestimado, em grande parte por ser de um cearense, apresenta uma galeria relativamente pequena de personagens que povoam uma trama simples, mas devidamente analisados em suas complexidades sob a perícia de um narrador que, entre a moral e a razão, constrói um ritmo excitante. Alípio, Florzinha e Bilinha formam um triângulo amoroso que certamente não esquecerei logo.

# 3º lugar OTELO, de William Shakespeare (5 estrelas)
Nada do que eu disser sobre Shakespeare servirá para aumentar-lhe a fama, que já chegou ao ponto máximo que qualquer artista poderia chegar. Se Otelo não foi a melhor leitura do ano, é seguramente por não pertencer à forma literária que mais aprecio (e praticamente o restante da humanidade também): o romance. O que quero dizer é que, por mais entusiasta que seja do teatro, jamais o elevarei sobre o romance; como também não trocaria Otelo por incontáveis romances maus. A humanidade dos tipos de Shakespeare é assombrosa; e, a despeito de certos escrúpulos meus, não posso deixar de admitir que Iago é um dos personagens mais fantásticos que já foram criados.

# 2º lugar A LAGOA AZUL, de H. De Vere Stacpoole (5 estrelas)
Entre este e o primeiro colocado não há exatamente uma ordem de preferência. Os dois são, para mim, verdadeiras obras-primas que, não obstante serem completamente diferentes no que se refere a enredo, compartilham da mesma sensibilidade e pureza, tão magnificamente expressas por seus autores. O livro A Lagoa Azul acabou perdendo o interesse das pessoas em consequência da grande popularidade do filme de Randal Kleiser (The Blue Lagoon, 1980), o que é uma grande injustiça, sendo o romance de Stacpoole provido de qualidades que os efeitos audiovisuais não puderam transmitir. Acho o filme excelente, e por ele decidi conhecer o original; não é caso de dizer que este ou aquele seja melhor: ambos se complementam; e podem acreditar: a experiência com o livro acrescenta demais! A belíssima tradução de Mario Quintana talvez, penso eu, tenha melhorado o original que, por si só, já é exuberante.

# 1º lugar OS DOIS AMORES, de Joaquim Manuel de Macedo (5 estrelas)
O que esperava quando peguei Os Dois Amores para ler era uma leitura regular e agradável, tal como tinha sido com O Moço Loiro, lido no ano passado; mas, desde os primeiros capítulos, estava convencido de que se tratava de uma proposta diferente. Sempre fui muito sensível ao estilo de Macedo, mas o que ele me proporcionou com este livro eu jamais irei esquecer. E sabe por quê? Porque estava precisando. Como um sedento que encontra água, assim foi comigo. E se me perguntarem o que estava buscando que em Macedo encontrei copiosamente, eu direi: fé. Quando percebemos tanta maldade à nossa volta, tanta vileza, tanto egoísmo e tanto desamor, queremos desacreditar do ser humano. Daí, você lê O Mandarim, e Eça te confirma o quanto as pessoas são desprezíveis; em seguida, você lê Os Dois Amores, um livro esquecido e aparentemente ingênuo, e vê que nem tudo está perdido, que a luz e a esperança da humanidade estão em cada um nós. Precisamos pensar mais no quanto podemos ser melhores do que já somos. Não podemos perder a fé no homem. Não podemos desistir de nós mesmos.

Daniel Coutinho

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sábado, 23 de dezembro de 2017

Vicentina, de Joaquim Manuel de Macedo - RESENHA #55

Queria terminar o ano com um livro especial, por isso guardei Vicentina para este momento. Todos vocês sabem da minha estima por Macedo. É aquele autor que leio com um sorriso comprido, que me faz cócegas no cérebro, que me aquece o coração, enfim. A leitura de seus romances é, para mim, quase um exercício de purificação rs, como também um refúgio contra todo o pessimismo deste mundo moderno.

Vicentina (1853) concentra-se em dois núcleos principais. O primeiro gira em torno da personagem que dá título ao romance, uma criatura misteriosa, tida como louca, que vive reclusa nas ruínas de uma ermida, na companhia de uma velha e uma menina. O segundo constitui-se de uma intriga amorosa na qual estão envolvidos vários personagens, dentre eles o casal principal: Adriana e Américo.

Como já era de se esperar, sendo Macedo um repetidor de fórmulas (eis o defeito seu que mais me aborrece), não poderia faltar um personagem velho e bastante conhecedor de antigas histórias. Aqui, quem faz as vezes de contador de causos é Leocádio que, muito supersticioso, relata as ocorrências naturais e sobrenaturais que cercam a ermida abandonada. Mesmo aborrecendo essa repetição de fórmulas, é sempre com algum enlevo que acompanho esses causos do passado.

Mas sigamos com mais linearidade, para melhor compreensão dos leitores.

A narrativa abre com Américo dirigindo-se à fazenda do Rio Claro, nas proximidades do Rio de Janeiro, onde se inaugura um engenho de cana-de-açúcar. Esta fazenda é propriedade de Cristiano e Gabriela, sua esposa. O casal tem uma única filha, Adriana, uma jovem solteira, que é apaixonada por Américo, e por ele correspondida. Ambos, contudo, receiam expressar seus sentimentos, especialmente pela diferença social que os separa, sendo Américo um enjeitado que sempre viveu da caridade de uma velha que o adotou, até finalmente conseguir um emprego público, por intermédio do Dr. Benedito, seu protetor.

Não tinha como não associar Américo a Cândido, de Os Dois Amores, por serem órfãos e rodeados de protetores, e ainda por certos detalhes que prefiro omitir, para não precipitar revelações. Mas a verdade é que são tipos bem diferentes de caráter, sendo Cândido comedido e recatado, e Américo estouvado e extravagante.

Um dos ingredientes que mais me encanta na pena de Macedo é o seu humor, já perceptível no primeiro capítulo da obra. É inútil manter-se sério diante do caiporismo de Américo ao alugar um mouro lento e manhoso, que parece o estar distanciando da fazenda do Rio Claro. Sempre que Américo pergunta a alguém pela distância restante, o percurso se alonga em pelo menos meia légua rs.

Os sentimentos de Américo e Adriana, embora não claramente manifestados, não passam despercebidos a todos quanto os observam. A verdade é que Cristiano e Gabriela fazem muito gosto na relação dos jovens, que também é aprovada pelo Dr. Benedito que, como já disse, é o protetor de Américo. Contudo, dentre os circunstantes que vieram para a primeira moagem da fazenda, temos três personagens que obstarão a união do feliz casal: Fabiana (velha viúva), Frederico (moço estroina) e Leonor (sobrinha/vítima de Fabiana).

Confesso que custei entender os motivos que moviam estes personagens, especialmente dona Fabiana, a executarem as mais infames intrigas contra o casal principal. De começo, só ficamos sabendo que, na verdade, quem dona Fabiana pretendia atingir era o Dr. Benedito, pois há muitos anos o médico havia impedido seu casamento com Fernando, irmão de dona Gabriela. Fabiana deseja lograr os amores de Américo, pois o acredita um filho natural de Benedito, para quem seria um grande desgosto a não consumação do casamento com Adriana.

O caso é que as intrigas de Fabiana chegam a proporções que podem parecer inadmissíveis para suas justificativas, principalmente porque Adriana é quem acaba sendo vítima dos ataques da megera. Não podia conceber que a maldade de alguém pudesse ser tão medonha ao ponto de sacrificar terceiros, que de nada tivessem culpa. Mas até o final do romance, o leitor toma conhecimento de circunstâncias que o fazem compreender melhor o caráter de Fabiana. Quanto a Frederico, após dissipar a fortuna herdada de seu finado pai, pretende um casamento vantajoso para amparar-se financeiramente; Adriana não passa de uma feliz alternativa para seu intento. Leonor, finalmente, é um mero fantoche nas mãos de sua perversa tia.

Macedo acaba dando mais ênfase ao núcleo de Adriana, quando eu, de minha parte, estava muito mais curioso por Vicentina. Essa excêntrica personagem que, a meu ver, constituiu a novidade deste romance, não foi devidamente aproveitada, o que me pareceu um sério problema do livro, que estampa seu nome na capa. Foi o que mais me desagradou em Vicentina: a falta de Vicentina.

Dessa interessante personagem, devo ser muito cauteloso quanto ao que devo dizer. Não se trata exatamente de uma louca, como muitos pensam, simplesmente por ouvi-la cantar à beira de um abismo. Vicentina é uma desgraçada que decidiu afastar-se do mundo após ter sido vítima de uma fatalidade. Desconfiada de todos, mantém-se constantemente reclusa com uma velha que, sempre de luto, vive chorando pelos cantos; e uma menina que, a despeito de estar rodeada por tipos tão melancólicos, vive rindo-se o tempo todo. Uma única pessoa é admitida no lar das ermitoas; trata-se do Dr. Benedito que, em segredo, visita-as com regularidade.

Esqueci-me de dizer que, durante o trajeto até a fazenda do Rio Claro, Américo trava conhecimento com Camilo, filho de um fazendeiro vizinho, o senhor Mariano. É Camilo apaixonado por Vicentina, a quem observa de longe em seus momentos meditativos, quando se põe a cantar as mais tristes melodias à beira do fatal abismo chamado de “boca do inferno”, designação esta devidamente explicada pelo fantasioso senhor Leocádio, que supunha criaturas malignas às três mulheres da ermida.

Vicentina pareceu-me evidentemente uma boa leitura de entretenimento. As fórmulas de Macedo são aqui, todas elas, aplicadas em função de entreter o leitor: com muitos diálogos, mistérios do passado, transcrição de melodias, intrigas de família, etc. A certa altura do romance, porém, percebi certa densidade que lembrou-me as deliciosas digressões de Os Dois Amores. Macedo, com suas intenções moralistas e sua fé cristã, tenta explicar a razão dos padecimentos de seus personagens. Adriana, por exemplo, acaba sendo vítima de uma terrível armadilha de dona Fabiana, mas por imprudência sua mesmo. É como se o autor quisesse alertar as fieis leitoras de seu tempo. Ainda que advertida pela própria Vicentina para que tivesse cuidado, Adriana acaba agindo com ingênua credulidade, o que a coloca numa difícil situação.

Macedo ainda alerta para a necessidade de haver confiança total entre mãe e filha. “Oh! quantas desgraças teriam havido de menos no mundo se as mães soubessem fazer-se as confidentes fieis e dedicadas de suas filhas!” (vol. 2, pág. 104). Esta referida passagem lembrou-me bastante um romance francês que li há alguns anos: O Pecado das Mães, de Henri Ardel. Como se não bastasse justificar o sofrimento de Adriana, ele ainda dá o exemplo de qual atitude seria a mais sensata nas mesmas circunstâncias apontadas, não só por parte da filha, mas de seus pais também. Macedo é o filósofo da boa família rs.

Vicentina é pois um excelente entretenimento para quem curte literatura romântica, sendo dotado dos usuais artifícios que tanto popularizaram o estilo de seu autor. Acredito que tenha assinalado com clareza o que vi de bom e ruim na obra. Causará certamente um efeito mais positivo em quem não conhece ainda o estilo de Macedo; nem por isso, será desagradável para quem, como eu, é apreciador incurável da pureza que exala da pena deste tão amado pintor da cena doméstica.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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sábado, 2 de dezembro de 2017

Cante Lá que Eu Canto Cá, de Patativa do Assaré - RESENHA #54

Cante Lá que Eu Canto Cá (1978) é a rapsódia da vida sertaneja. Não se trata de um livro composto para ser o que é, mas de uma conquista — literalmente falando — de seu próprio autor.

Quando o Centro de Documentação, Estudos e Pesquisas (CENDEP), responsável pela divulgação do trabalho de artistas populares da Região dos Cariris, idealizou a publicação de uma obra que sintetizasse a poesia popular nordestina, o nome de Patativa já era bastante cultuado. A ideia, a princípio, era reunir toda a obra do poeta de Assaré, mas logo percebeu-se a dificuldade do projeto, diante de alguém tão despretensioso no que diz respeito à publicação de sua lavra literária. “Nunca quis fazer profissão de minha musa”, dizia ele. Com apenas um livro publicado àquela altura e mais uma porção de folhetos avulsos dispersos aleatoriamente, a fonte mais segura de toda sua obra não era outra senão o próprio Patativa, que a sabia inteiramente de cor. Decidiu-se, pois, reunir a parte mais significativa da produção patativana, cabendo ao próprio autor selecionar e ordenar os poemas. Assim nasceu Cante Lá que Eu Canto Cá, o livro de todos os sertanejos.

Eis uma obra que é um verdadeiro portento da literatura nordestina. São mais de cem poemas compilados num livro que é uma amostra cabal do talento de Patativa. São inúmeros estilos e temáticas adotados pelo autor, que escreve desde glosas em linguagem matuta a sonetos rigorosamente metrificados. Mas o que prevalece mesmo no livro é essa preferência pelo registro oral da fala do caboclo nordestino, tornando-o ainda mais característico em seu propósito: cantar o sertão e o sertanejo. Mas o que Patativa não dispensa mesmo é a “rima”, a alma do poema, segundo ele, que chega a criticar o “verso branco” logo no poema de abertura “Aos poetas clássicos”.

Há tanta matéria no livro, que uma simples resenha não é capaz de abarcar a substância de Cante Lá que Eu Canto Cá. Mas passemos aos poemas narrativos, pelos quais tenho uma quedinha, e que constituem relevante espaço no conjunto da obra.

O humor é um elemento bastante significativo em poemas como “Maria Têtê”, que trata da infidelidade de uma mulher, na melhor veia cômica do autor. Têtê, mulher de Joge Sutinga, é uma bela caboclinha que inusitadamente começa a aparecer em casa com vários objetos achados; mas depois de dar a luz a um lindo loirinho de olhos azuis, fica evidenciada a real procedência desses objetos rs. “Tudinha” também tem certo chiste no relato de um homem, cuja amada o trocou por um palhaço. “O sonho de Mané Filiciano”, por sua vez, conta as desventuras de um homem que, após sonhar com o diabo, vê sua sorte despencar. “Pesão” também é um dos mais divertidos, provavelmente inspirado na figura real de um estudante baiano chamado Sacramento, dono de um pé de tamanho descomunal. Eis uma pequena amostra da leveza do humor de Patativa: “Para não andar descalço/E no pé botar um calço/Precisa fazer contratos:/Alguém me disse que foi/Um grande couro de boi/Para o seu par de sapatos.” (pág. 260).

Mas não pensem que o humor predomina neste livro! Infelizmente, Patativa privilegia temas tristes e sérios. Certamente foi isso o que mais me desagradou nessa leitura. Quem leu minha resenha de seus Cordéis, deve lembrar do que falei a respeito da imagem do “nordestino sofrido”, que aqui é muito mais evidente. Patativa parece ser um porta-voz do homem do campo que sofre; muitos de seus poemas são “ais” desesperados e apelativos; mas não podemos esquecer que estamos falando de alguém que esteve a vida inteira muito próximo da classe mais miserável de nossa região. Felizmente, como a querer equilibrar o bom tom de sua obra, movido por uma espécie de orgulho sertanejo, ele enaltece a vida no sertão e seus costumes, desprezando os recursos modernos da civilização em poemas como “Ingém de ferro” e expressando a mais sincera saudade de seu torrão em praticamente todos os poemas escritos no Rio de Janeiro, onde esteve em decorrência de uma enfermidade no pé.

Dessa parcela de poemas sofridos, contudo, destaco alguns que são realmente excelentes. “A morte de Nanã” é um dos mais tristes, constituindo-se no relato de um pai sobre a morte de sua filha na seca de 32. O clássico “A triste partida” dispensa comentários, por ser a composição mais célebre do autor e, provavelmente, o texto literário mais importante que já se escreveu sobre a questão do êxodo rural. “Mãe preta” é um dos meus favoritos, talvez por ser impregnado de uma atmosfera que transmite a nostalgia do eu-lírico; lê-lo vale por um aconchego numa noite chuvosa. “Flores murchas”, finalmente, é soneto digno da poesia moderna, à qual Patativa, mesmo sendo averso, acabou experimentando talvez involuntariamente.

A força da poesia de Patativa do Assaré está de fato na sua oralidade. Em muitos poemas, o autor sugere um interlocutor, geralmente algum “sinhô dotô”, a quem será confiado um causo, um desabafo, um lamento ou até um protesto. A referência a um interlocutor confere ao poema aquele tom de “conversa” ou “dedo de prosa”, tornando-o ainda mais próximo do leitor, que faz papel de quem está com os ouvidos atentos àquela descontraída prosa gostosa de interior.

Ler Cante Lá que Eu Canto Cá foi uma experiência maravilhosa, ainda que um tanto cansativa pela extensão da obra que, como já disse, privilegia os aspectos mais sofridos da Região Nordeste. Mas, afinal, passei a admirar ainda mais Patativa que tanto amou a poesia e o sertão, que não soube viver sem ambos.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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