Muito já se discutiu sobre a primazia do romance
brasileiro, o que não deixa de causar certa admiração, principalmente depois
que se lê o esclarecedor artigo de Aurélio Buarque de Holanda para O Cruzeiro, de 1952, mais tarde
reutilizado (com algumas alterações) como prefácio em edição de O Filho do Pescador (Melhoramentos,
1977). De tudo o que li sobre a referida questão, o texto do Aurélio me pareceu
o de observações mais acertadas. Não vou remoer o assunto aqui, pois não é o
motivo do post. Limito-me a dizer que, como José Veríssimo, reconheço o romance
de Teixeira e Sousa como o primeiro de nossas letras.
Todos que se deram ao trabalho de ler e analisar
O Filho do Pescador (1843) são
unânimes sobre a precariedade do livro. Desse modo, ainda que
involuntariamente, a crítica lançou sobre a obra tal anátema, que há pelo menos
vinte anos a mesma não é reeditada. A última edição de que tenho notícia é a
preparada por Domício Proença Filho para a editora Artium em 1997; edição por
que li.
Muito me admira essa aversão à obra de Teixeira
e Sousa, mesmo da parte de estudiosos da Literatura. Não me proponho aqui a
desmentir os muitos defeitos apontados pela crítica; antes, quero fazê-los
pensar nosso primeiro romance como o que é: o primeiro. Quando paramos para
analisar as primeiras obras de nossos autores preferidos, deparamo-nos com
problemas que, de modo geral, não aparecem em trabalhos posteriores, sem
contarmos que não poucos escritores acabam excluindo publicações imaturas de
suas bibliografias. O começo não é fácil pra ninguém rs. Agora, pensemos no que
consistia a prosa de ficção do Brasil antes de 1843. Quando muito, tínhamos o Compêndio Narrativo do Peregrino da América,
de Nuno Marques Pereira, que de caráter notadamente religioso, era mais um
livro didático de escola dominical rs. Há quem lembre os contos ou novelas da
primeira metade do século XIX; mas certamente que as narrativas de Lucas José
de Alvarenga e Pereira da Silva (imitadas de argumentos europeus) ou mesmo as
novelas mais ou menos originais de Joaquim Norberto não tinham o porte do
romance de Teixeira e Sousa.
Foi, pois, o autor cabo-friense quem abriu
caminho para todos os outros “romancistas” posteriores. O Filho do Pescador não é, portanto, apenas um problemático livro
de autor estreante; é o primeiro romance de uma nação. Não parece pois justo
exigir excelência de obra pioneira no exercício do gênero literário mais
complexo em nosso país. Esta consideração que elevou tal romance em meu conceito,
mas não apenas ela. Se considerarmos também que Teixeira e Sousa foi um mulato
de precária educação (interrompida aos treze anos por problemas financeiros), e
que por volta dos vinte anos, já não tinha nenhum membro da família vivo,
passaremos a admirá-lo muito mais, pois, não obstante tantas adversidades,
perseverou ele ainda com suas atividades literárias. Todas essas razões são
mais que suficientes para justificar o interesse pela leitura do objeto desta
resenha.
O Filho
do Pescador é um típico romance de folhetim. Não quero
dizer com isto simplesmente que trata-se de narrativa de caráter folhetinesco;
sua primeira publicação foi de fato em forma de “folhetim”, quando saiu nos
rodapés do jornal O Brasil, de 6 de
julho a 22 de agosto de 1843. Enquanto romance de folhetim, a obra não poderia
deixar de conter todos os elementos característicos do gênero, que era mesmo
destinado a agradar o grande público. Portanto, como era comum aos folhetins, o
enredo é bastante movimentado, os personagens estereotipados, há manutenção de
suspense, além de reviravoltas e ganchos entre os capítulos. Ainda que narrado
de forma linear, o autor faz uso de flashbacks através de revelações feitas
pelos próprios personagens.
Seduzida por Sérgio, Laura abandona sua mãe e
vai viver com o amante; era órfã de pai e contava apenas treze anos. Após dar a
luz a um menino, Sérgio a abandona, levando-lhe seu filho. Laura é amparada por
outro homem, mas ambos acabam naufragando na costa fluminense; morre o amante,
mas Laura é salva por Augusto, o filho do pescador, que a leva para sua casa na
praia de Copacabana, onde se desenrola a trama. Apaixonado pela náufraga, a
quem acredita ser viúva, Augusto quer casar-se com ela, mesmo contra a vontade
do velho pescador, seu pai.
Realizado o casamento, Laura dá cada vez mais
mostras de sua leviandade. Tendo casado por interesse, sente-se logo atraída
por Florindo, cantor de modinhas e “amigo” de seu marido. Florindo persuade
Laura a livrar-se de Augusto; para tanto, ela provoca um incêndio, mas o
escravo João resgata seu senhor; uma tentativa de envenenamento acaba surtindo
mais efeito. É também sugerido que Laura se relacionava com outros homens; após
ser abandonada por Florindo, ela exige que Marcos (o amante seguinte) mate aquele
que a desprezou. O que Laura não sabe é que alguém discretamente testemunha
todos os seus crimes; com que intenções, não vou dizer. Para complicar tudo ainda
mais, Emiliano, um jovem caçador, acaba despertando em Laura sentimentos
que ela nunca antes experimentara. Esse novo amor, que é correspondido, se
afigura diferente dos outros, revestido de pureza e honestidade; mas o Dr.
Sinval, padrinho e pai adotivo de Emiliano, é dono de um segredo que
impossibilita terminantemente tal união.
O romance, como já bem sugere o enredo, é
bastante artificial e repleto de exageros. Os tipos são mesmo caricatos e
Aurélio Buarque de Holanda os percebe como abstrações: “O autor não movimenta
seres humanos; movimenta abstrações – a Beleza e a Fealdade, o Egoísmo e a
Renúncia, a Virtude e o Vício”. O crítico também reconhece uma “despreocupação
com a verossimilhança”; não que os episódios sejam exatamente inverossímeis; a
forma como o autor os conta, tão deliberadamente e sem maiores explicações, é
que os torna. Como aponta o mesmo crítico, os personagens se movimentam meio
que de forma automática, como se fossem máquinas trabalhando, isentos portanto
de necessidades comuns ao cotidiano de todas as pessoas.
Sobre o estilo do autor, não podemos deixar de
mencionar suas frases de efeito que permeiam toda a obra, que fizeram Domício
Proença Filho associá-las aos atuais modelos de autoajuda, e Aurélio Buarque de
Holanda chamar seu autor um “sub-Marquês de Maricá”. Eu, particularmente,
gostei dessas máximas do autor. Digam o que disserem, marquei várias delas,
pois me causaram, sinceramente, boas impressões.
Domício Proença Filho reconhece ainda no
narrador do romance certas técnicas que antecipam o esmerado estilo machadiano.
O narrador de Teixeira e Sousa, embora peque por se confundir com o autor
(ainda que por causa explicável: o romance é uma espécie de resposta a pedido
de certa dona Emília), mantém uma conversação com o leitor: comenta as
situações, supõe que impressões os episódios narrados poderiam provocar,
transcreve até supostos pensamentos de possíveis leitores a respeito da obra.
Todas essas técnicas narrativas, sim, dão certa graça ao livro.
Mas o que deveras mais me chamou atenção nesta
leitura, e que também não passou despercebido a Domício Proença Filho, é a
atualidade do discurso feminista de Emiliano (note-se que é um personagem
masculino) no último capítulo. Teixeira e Sousa, através deste personagem,
reflete a condição da mulher em sua época, tão constantemente exposta à
qualidade de vítima pela maldade dos homens. Em suma, critica-se uma realidade
que persiste até os dias de hoje: o homem que exige virtude da mulher e que a
repreende por seu vício, ainda que ele mesmo tenha colaborado com sua
corrupção.
O Filho
do Pescador é uma leitura simplesmente necessária a todos
os apreciadores da literatura nacional, não só pelo seu valor histórico/documental,
mas para compreensão do alicerce do que hoje chamamos romance brasileiro.
Avaliação: ★★★★
Daniel Coutinho
***
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Puxa, que interessante! Não sabia que este é considerado o primeiro romance brasileiro.. aliás, não me lembro de ter ouvido falar do livro. (Talvez tenha sido mencionado nos meus tempos de escola, mas não lembro mesmo).
ResponderExcluirInteressante também a história do autor do mesmo!
Gostei imenso do que li!
Abraços
Marina
Marina Carla- Devaneios e Desvarios
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Sim, o primeiro; e tão injustamente esquecido. Gostei bastante da leitura dele. É obra visivelmente defeituosa, mas que ainda assim surpreende, justamente por ser a primeira no gênero "romance".
ExcluirCaso tenha interesse, há uma digitalização da edição de 1977 no site "Caminhos do Romance", e outra mais antiga no acervo digital do portal Brasiliana da USP.
Abraço!
O primeiro romance brasileiro ignorado pelo cânone, que adotou a carta de Caminha como literatura... Brasil tem mania de colonizado. Leitura necessária.
ResponderExcluirSim, bastante necessária, mas infelizmente esquecida.
ExcluirParabéns pela resenha!
ResponderExcluirMuito obrigado :)
ExcluirGostei bastante da resenha. Me deparei com esse romance há pouco e me despertou muito interesse! Essa análise foi uma ótima introdução.
ResponderExcluirQue bom que gostou, Victor! A obra de Teixeira e Sousa é essencial para se compreender a formação do romance brasileiro.
ExcluirAbraço!
Romance escrito em 1843 merece respeito e admiração.
ResponderExcluirCom certeza! =)
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