segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Rosinha e Sebastião, de Manoel Pereira Sobrinho - RESENHA #36

Meu primeiro contato com o cordel se deu através da influência do meu pai. Mesmo sendo uma pessoa de baixa escolaridade, meu pai, desde criança, ouvia com atenção os mais velhos lerem/recitarem os livrinhos de feira. Depois que aprendeu a ler, passou a ter um contato mais direto com vários folhetos que circulavam no pé-de-serra onde morava. De tanto ler essas histórias, acabava decorando os versos, e os sabia de cor até alguns anos atrás. Assim, na minha infância, tive a oportunidade de ouvir dele os causos que contavam os tais livrinhos de seu tempo, que ele nunca soube chamarem-se cordéis.

O primeiro e mais querido de todos era um que chamava Rosinha, Sebastião e Heleno. Também ouvia com entusiasmo A Vitória de Floriano e a Negra Feiticeira; O Pavão Misterioso; e O Negrão do Paraná e o Seringueiro do Norte. Quem acompanhou o Mais Livros! de setembro viu que consegui obter todos esses folhetos através das edições Luzeiro. Finalmente, poderei lê-los, eu mesmo, sem perdas de versos esquecidos rsrsrs. Mas a verdade é que os estou economizando. Portanto, de tempos em tempos, é que farei a leitura dessas histórias que tanto me encantaram na infância.

A versão lida por meu pai contém muitas variantes dessa que li, a começar pelo título. Mas em se tratando de uma matéria como o cordel, genuinamente popular, não é de se admirar que os folhetos tivessem mais de uma versão. As variantes, contudo, em nada mudam a história original, que é a mesma em todas as versões que consultei. Manoel Pereira Sobrinho (1918-1995), paraibano, transportou para o cordel várias obras da literatura universal, mas também era reconhecido por suas histórias originais, como é o caso de Rosinha e Sebastião.

A história se passa na Paraíba, onde residem os jovens protagonistas deste folheto, ambos filhos de moradores da fazenda São José. Sebastião, enamorado da bela Rosinha, vive fazendo de tudo para conquistar a moça, mas sua ingenuidade não lhe permite ver que, na verdade, Rosinha só quer tirar proveito dele. Longe de amar Sebastião, Rosinha deseja um casamento vantajoso com um homem que lhe proporcione uma vida diferente, fora do sertão.

Num festejo religioso, Rosinha conhece Heleno, vendedor de miudezas, e fica logo encantada com a classe do moço, a quem logo convida para uma visita em sua casa. A partir desse novo contato de Rosinha, ela passa a desprezar ainda mais Sebastião, que logo fica sabendo o real motivo do súbito desinteresse da moça em relação a ele. Rosinha deixa claro que não vê futuro em homem que vive de serviço pesado; por isso, prefere Heleno, que além de delicado, é muito mais promissor.

Desiludido com seu amor malogrado, Sebastião apronta as malas, deixa os pais e segue com destino a Fortaleza, onde logo é empregado e faz fortuna. Aqui, a sorte de Rosinha e Sebastião começa a mudar consideravelmente. Enquanto Sebastião dá a volta por cima, Rosinha descobre que seu querido Heleno é um homem casado. O destino lhes reserva um novo encontro, mas como as circunstâncias são outras, tanto para um como para o outro, nada garante que os dois possam ficar juntos dessa vez.

Ficou curioso? Pois não deixe de ler esse cordel maravilhoso! Quem não puder adquirir o livreto original da editora Luzeiro, poderá ler online clicando AQUI!

Rosinha e Sebastião é história romântica das mais populares do nordeste. A poesia de Manoel Pereira Sobrinho é bastante agradável e instigante. No entanto, o autor me pareceu embaraçado na construção de algumas rimas, de maneira que ele prescinde da lógica em alguns versos para não perder o esquema rítmico. Em outros casos, ele altera a pronúncia de algumas palavras, como “bênção”, transformando-a em oxítona para rimá-la com “Sebastião”. Foram só esses pequenos detalhes que me incomodaram durante a leitura; felizmente, nada que comprometesse a experiência ou estragasse a fagueira lembrança de infância.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz - RESENHA #35

Fiquei tão entusiasmado com a leitura de Dôra, Doralina ano passado, que decidi-me a ler Memorial de Maria Moura este ano. Estava guardando para um momento propício, até que ele chegou. Comecei a ler Rachel de Queiroz com O Quinze, sua obra mais famosa. Aprecio bastante o estilo desta minha conterrânea que, através de sua escrita simples e direta, conseguiu atingir um público mais abrangente do que se imagina.

Rachel não é de muitos floreios. Sua linguagem é bastante marcada pela oralidade. Seu regionalismo é acessível e demonstra, até certo ponto, uma preocupação com a compreensão do leitor. Dessa forma, se um personagem “provoca”, como se diz no nordeste, logo se explica que ele vomitou. É uma característica que prezo muito num autor: a preocupação com o entendimento de sua obra, mas de forma dosada, conforme já referi na resenha de Casa de Pensão. Este Memorial de Maria Moura, contudo, para mim, foi mais do mesmo. Não que isto seja ruim, mas a verdade é que não vi muita novidade na obra final da Rachelzinha. De antemão, já vou logo confessando que não gostei do argumento: a menina órfã que, após vingar a morte da mãe, torna-se uma bandida do sertão. Definitivamente não gosto de histórias de bandidos rsrsrs. Mas não foi só isso o que me desagradou na Moura.

Rachel realiza um jogo de narradores na construção de seu romance. A impressão que tive é que ela pretendia dar voz a vários personagens ao longo de toda a obra. A tarefa, contudo, saiu mais difícil do que o planejado. Assim, ela começa com cinco narradores: Beato Romano, Moura, Tonho, Irineu e Marialva. Em seguida, concentra-se apenas em três: Moura, Beato Romano e Marialva; esta última raramente aparece. Para o final, temos apenas a Moura e o Beato Romano, mas a primeira, que é sempre a mais recorrente, termina por narrar sozinha os capítulos finais. A ideia de criar vários narradores num mesmo romance pode ser encrenca. Basta lembrarmos do péssimo Relato de um Certo Oriente. Com Rachel, também não funcionou. Como os títulos dos capítulos são nomeados de acordo com os personagens responsáveis pela narração, ficava evidente o embaraço da autora em sustentá-los. E o que dizer de dois ou três capítulos seguidos narrados pela Moura? É por isso que, paulatinamente, ela vai descartando o artifício à medida que aproxima os narradores ao convívio da Moura. Tonho e Irineu, inimigos da protagonista, acabam sendo descartados da tarefa de narrar. Duarte e Cirino poderiam muito bem substituir os narradores descartados; mas para que Rachel buscaria mais sarna para se coçar, não é mesmo? Teria sido muito mais acertado que o livro fosse todo narrado pela Moura.

Este Memorial não trouxe grandes novidades em sua forma geral. A escrita de Rachel é aquilo de sempre. Seria capaz de reconhecer sem que me dissessem. Talvez a única variante a fugir do convencional seja a rudeza do romance. Parece livro de homem rsrsrs! Fez lembrar aquele caso do lançamento d’O Quinze, quando um crítico desacreditou que fosse livro de mulher. O Memorial é dez vezes mais másculo. Contudo, vez por outra, temos aquele toque feminino, especialmente nos capítulos narrados por Marialva. Rachel também repete muitos elementos de Dôra, Doralina, como: tragédias em família; a paixão avassaladora da Moura por Cirino, tal como a de Dôra pelo Comandante; o grupo de saltimbancos de Valentim, como aquele do Seu Brandini; dentre outros. O caso do Beato Romano foi outro fator que não me chamou atenção. Isso de padres que caem no pecado da carne me parece tema muito batido. Memorial de Maria Moura foi o primeiro livro de Rachel de Queiroz que me pareceu cansativo. A falta de interesse só era combatida pelo prazer de ler a Rachelzinha, que mesmo contando situações maçantes, não perde a graça. Finalmente, a linguagem utilizada não lembra o século XIX. Eu, que sou fã confesso dos romancistas dessa época, já estou bastante afeiçoado à linguagem oitocentista. Não fossem as referências à escravidão e ao regime imperial, situaria a Moura, sem dúvida, em meados do século passado.

A história se situa no sertão nordestino, no tempo do jovem imperador Pedro II. O livro já começa bem movimentado. Senti falta daquela Rachel que prepara o terreno com cuidado antes de entrar em ação. A mãe de Maria Moura supostamente suicidou-se, mas a menina acredita que, na verdade, seu “padrasto” esteja envolvido na morte dela. Liberato não era casado com a mãe da Moura, mas demonstrava um grande interesse em tomar posse dos bens da “suicida”. Ele começa por seduzir a órfã, que não lhe resiste, mas quando percebe seus reais interesses, seduz um homem da fazenda e o convence a matar Liberato. Jardilino, o assassino de Liberato, começa a exigir da Moura o “pagamento” pelo seu serviço, mas a esperta prepara-lhe uma armadilha, e ele acaba morrendo também.

Terminada essa página de tragédias em família, o romance volta-se para uma questão de terras. Os primos da Moura, Tonho e Irineu, querem tomar posse da parte da propriedade que lhes confere. Embora consciente do direito dos primos, a Moura faz resistência, o que leva os primos procurarem a justiça. Obrigada a realizar a partilha, a Moura, para vingar-se, ateia fogo na fazenda e foge em busca da Serra dos Padres. Nessa região, ela deseja encontrar uma propriedade que pertencera a seus antepassados, mas que fora empossada pelos índios. Nessa trajetória, ela segue com João Rufo, seu fiel servidor, e mais três cabras: Zé Soldado, Maninho e Alípio. A intenção da Moura é mesmo formar um exército de homens liderados por ela. Para impor respeito a eles, ela traja-se com as roupas do falecido pai e corta os cabelos. Daí em diante, eles seguem saqueando todos que lhe aparecem no caminho. Moura não permite que matem as vítimas. Seu interesse é apenas tomar posse dos bens dos viajantes: animais, armas, munição, dinheiro, etc. Dessa forma, ela consegue reforços para cumprir com seu plano, que é recuperar as terras de seus avós e construir uma grande Casa Forte, para abrigar a ela e a seu futuro grande exército.

Muitas pedras rolarão a partir do surgimento dessa Moura bandida. Eis uma personagem com quem não simpatizei. A princípio, até compreendi seu momento de fraqueza, seu desejo de vingança, mas nunca concordei com seus métodos radicais. Não conseguia torcer por seus planos, não admirava mesmo suas qualidades, sendo elas aplicadas para fins ilícitos. Enfim, antipatizei totalmente com essa cangaceira metida a macho rsrsrs. Mas o interessante mesmo, e que considero a genialidade do livro, é o fato da Moura não passar de uma farsa. Ela é mulher como as outras, com o coração endurecido, certo, mas com todas as fragilidades da mulher. Há um capítulo em que Rachel deixa isso bem claro, quando a Moura deseja voltar a ser a mulher de antes e viver para o seu amor, Cirino; mas quando percebe que o que o atraía para ela era justamente aquela sutileza do ser, aquela dona Moura tão temida pelos homens, vê-se obrigada a continuar revestida de sua casca grossa.

Memorial de Maria Moura, longe de ser um livro ruim, é apenas mais uma amostra da genial Rachel de Queiroz. Se a mim não causou tanto efeito, é porque, além de não ter simpatizado o enredo, não encontrei na obra grandes novidades, como já disse. É a mesma Rachel de sempre, talvez um pouco mais embrutecida, mas sem deixar de conter o talento que a consagrou como uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Mais Livros! - NOV/2016



Novembro veio recheado de muitas novidades: livros novos, presentes, black friday... Por falar em black friday, os livros adquiridos no último dia 25 só serão mostrados em dezembro, ok? Será, sem dúvida, o Mais Livros! mais incrível deste blog! Só espero que todos eles cheguem a tempo rs.

Passando às aquisições, acabei adquirindo outra edição dos Folhetins de França Júnior. É que não sabia que a edição de 1926 contém o triplo da matéria publicada na de 1915. Mas não me arrependo de ter adquirido essa versão menos completa, por conta da grande surpresa que tive com ela e que já mostrei no Mais Livros! de outubro. A nova edição adquirida possui mais de 700 páginas, além de conter uma belíssima fotografia do autor.

No mês passado também mostrei vários livros da Júlia Lopes de Almeida da editora Mulheres. Quando realizei o pedido, constava que A Falência ainda estava disponível em estoque, mas infelizmente o livro se esgotou; por isso, acabei optando por aquela edição da HUCITEC. Como já havia pago, acabei solicitando da editora Cruel Amor, o qual já possuía numa edição da Coleção Saraiva, mas numa diagramação péssima com letra pequeníssima. Estou querendo muito ler este livro! Brevemente ele terá resenha por aqui.

Há muito tempo conheço o site “Teledramaturgia”, mas só recentemente tomei conhecimento de que o idealizador do mesmo lançou um almanaque com curiosidades referentes às telenovelas gravadas no Brasil até 2007. Nunca fui muito de acompanhar novelas brasileiras, mas o assunto chama minha atenção; por isso, obtive o belíssimo Almanaque da Telenovela Brasileira, de Nilson Xavier. A edição está belíssima, toda ilustrada em preto e branco, e bastante interativa. A Panda Books caprichou mesmo. Impossível folheá-lo e não lembrar do tempo em que vivia grudado na telinha. É outro livro que quero ler urgentemente rs!

Por influência da amiga Claire Scorzi, comprei uma tradução portuguesa de Rob Roy, de Walter Scott (Europa-América, 2003). Essa obra que já ganhou inúmeras adaptações não é muito conhecida em sua forma original. Foi difícil encontrar uma edição íntegra. As edições brasileiras que encontrava eram todas condensadas. Não esperava que a edição fosse tão bonita: capa dura com sobrecapa, bom papel, letra regular, espaçamento entre linhas... Só conhecia as edições de bolso da Europa-América (tenho algumas), que são bem simplórias. Dessa simplória coleção de bolso, adquiri o primeiro livro da saga Rocambole, de Ponson du Terrail: A Herança Misteriosa (1987, em 2 vols). Devem lembrar que já tenho a saga Rocambole completa, mas numa tradução que me pareceu “um pouco enxuta”. Como queria ler ao menos uma obra com tradução íntegra do texto original de Ponson du Terrail, optei por essa edição da Europa-América; mas, agora que fiz um cotejo geral (incluindo o original francês), percebi que minha edição da saga completa, que é da editora Brasil, também é íntegra. Afirmo isso porque conferi diversas passagens e as supressões do original são tão mínimas, que acabam sendo justificadas pela forma dada ao texto pelo tradutor. Fiquei feliz em saber que meu Rocambole está completo mesmo.

Passemos às edições Abril. Comprei vários títulos da memorável coleção “Grandes Sucessos” dos anos 80; e alguns da recente “Clássicos Abril Coleções” de 2010, aquela com capas em tecido. Da “Grandes Sucessos”, comprei: Satiricon (Petrônio); Bel-Ami (Guy de Maupassant); O Sol É para Todos (Harper Lee); O Caso dos Dez Negrinhos (Agatha Christie); Em Algum Lugar do Passado (Richard Matheson); Tubarão (Peter Benchley); e Uma história de Amor (Erich Segal). Da “Clássicos Abril Coleções”, adquiri: Os Sofrimentos do Jovem Werther (Goethe); Cândido (Voltaire); O Coração das Trevas (Joseph Conrad); e A Metamorfose (Franz Kafka).

Folheando a edição de Uma História de Amor, acabei descobrindo que o livro tem uma sequência: A História de Oliver, que adquiri numa edição de 1977 do extinto Círculo do Livro. Vale lembrar que a obra de Segal deu origem àquele famoso filme Love Story, que é mesmo muito lindo. Reconheço que tomei conhecimento da existência do livro muito depois de ver o filme. Há filmes que despertam em mim uma curiosidade incrível pela obra original. Por isso, acabei adquirindo também Curto Alcance, coletânea de contos da norte-americana Annie Proulx. O último conto desse livro deu origem ao filme O Segredo de Brokeback Mountain, com o saudoso Heath Ledger.

Há algum tempo vinha querendo adquirir alguns livros de Sidney Sheldon. Muitos literatos o recriminam, bem o sei, taxando-o de literatura barata. Geralmente, não me interesso por esses livros que causam uma febre no público, mas como os livros do Sheldon já têm algum tempo e continuam sendo apreciados, imagino que sejam bons mesmo. A Outra Face é um livro que tinha na biblioteca da minha escola. Lembro que li as primeiras páginas e gostei, mas por algum motivo, não prossegui com a leitura e nunca concluí. Por isso, consegui um exemplar na mesma edição daquele que eu começara. O Reverso da Medalha é comumente o livro mais recomendado de Sheldon. Assim, além de obter um exemplar dele, comprei A Senhora do Jogo, que é sua sequência. Confesso que me senti enganado ao comprar esse livro, pois pensava que era obra do próprio Sidney Sheldon, mas a verdade é que ele foi escrito unicamente por Tilly Bagshawe, com a devida autorização dos herdeiros de Sheldon. Mas, pelo visto, a finalidade desta obra era puramente comercial; tanto, que colocaram o nome de Sidney Sheldon enorme na capa e o da verdadeira autora em tamanho consideravelmente menor. O engraçado é que o nome de Tilly nem sequer aparece na lombada do livro, mas o de Sheldon está lá, em letras garrafais. Decepcionante, não? Estou aqui sem saber se deva ler este livro ou não. Talvez o descarte. E aí? Acham que merece ser lido?

Finalmente, ganhei alguns presentes, o que não é muito comum rs. Do querido Léo Prudêncio, o autor de Aquarelas: haicais, ganhei um exemplar de Agrestes, de João Cabral de Melo Neto; e Poesia ltda, de Charles Marlon, que é autor contemporâneo. Aproveito para agradecer novamente ao Léo, que vive me arrastando para o mundo da poesia rs. Através do Léo, conheci O Poeta de Meia-Tigela, essa criatura sinistra das letras cearenses, que me mandou sua premiada obra Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas, como também seu livro mais recente, Acidade, escrito em parceria com Carlos Nóbrega. O Poeta DMT ainda me mandou um exemplar de Eu Tenho Medo de Górki & outros contos, da também contemporânea Ângela Calou. Obrigado de novo, Poeta! Adorei que tenha autografado os livros, especialmente pela forma como o fez.

Não poderia deixar de citar que também ganhei os dois primeiros números da revista Mutirão, que é uma espécie de antologia de autores cearenses. O nº 1 me foi mandado pelo Léo, e o segundo pelo Poeta DMT, que é o idealizador da revista. Já estão sendo pensadas as próximas edições do Mutirão e, numa delas, possivelmente, aparecerá um conto meu. Vamos aguardar pra ver!

Que mês e tanto, hem? Mas dezembro vem aí com todas as promoções que pude aproveitar da black friday, que embora não tenha sido tão incrível (esperava descontos maiores), foi até razoável. Até!

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Casa de Pensão, de Aluísio Azevedo - RESENHA #34

 A leitura de Casa de Pensão me fez recordar o ritmo delicioso que têm os romances de Aluísio Azevedo. Lembro perfeitamente da sofreguidão com que li O Cortiço e O Mulato, que são verdadeiras joias literárias. Assim como Macedo, tinha deixado Aluísio de lado por muito tempo. Na verdade, estou numa fase que me faz correr para tudo que sempre quis ler, mas que, por variados motivos, vivo adiando. No geral, são leituras que considero essenciais, muitos deles pertencentes à nostálgica “Série Bom Livro” da editora Ática, através da qual conheci muitos clássicos brasileiros. Essa fase da capa branca é minha favorita, talvez por ter o melhor e mais variado catálogo dessa coleção de clássicos. Para quem não estiver entendendo do que estou falando, esclareço que essa “Série Bom Livro”, que é antiquíssima, já teve várias fases no que diz respeito ao projeto gráfico dado aos livros, que mudou bastante até chegar ao modelo atual que, a meu ver, é de péssimo gosto. Modernizaram as capas de tal maneira, que as ilustrações destoam (e muito) da estética literária dos autores editados; sem falar da diagramação horrível com letra bastante minúscula. Por isso, essa fase da capa branca ainda é a melhor, mesmo não possuindo também a melhor das diagramações. Pelo menos, gosto das capas rsrsrs. Mas voltemos ao que interessa!

Aluísio é, sem dúvida, um dos meus autores preferidos da vida! Costumo comentar que poucos escritores conseguem prender tanto a minha atenção como ele. Com efeito, sua escrita elegante e fluente parece prezar pelo interesse do leitor. Vendo-se obrigado a escrever para sobreviver, Aluísio empenhou-se como poucos na confecção de suas obras. Percebo nele uma característica admirável com a qual me identifico sobremaneira: trata-se do cuidado em dosar a intenção autoral com o gosto do público, o que é empresa deveras difícil. Geralmente, os escritores tendem por apenas um desses caminhos, mas quando escrevem movidos unicamente por sua própria intenção artística, acabam involuntariamente distanciando-se de grande parte dos leitores; todavia, quando escrevem exclusivamente na intenção de agradar o público, acabam produzindo literatura fútil. É preciso saber dosar, e Aluísio faz isso muito bem. É verdade que ele também teve sua fase literária para agradar as massas em geral, mas apenas por uma questão financeira, pois lhe desgostavam esses livros por encomenda, como confessaria em vida. Eu é que não consigo imaginar nada ruim que venha de Aluísio; por isso, morro de curiosidade de ler seus romances “inferiores”: A Condessa Vésper, Girândola de Amores, Filomena Borges, etc.

Casa de Pensão, como tudo que já li de Aluísio, é muito bem desenhado. O autor, que também era caricaturista, vaza seu talento pictórico na modelação das figuras que povoam o romance. Penso que se dessem a qualquer artista plástico as passagens em que Aluísio descreve seus personagens, eles poderiam facilmente transformá-las em desenho. A técnica de condução da trama é coisa de mestre! Enquanto lia, pensava: “Esse cara é tão genial, que poderia escrever qualquer coisa, que seria bom.” O texto dele é mesmo de quem sabe o que faz, de quem escreve com senhoria e total domínio ou controle da circunstância imaginada. Dá gosto em ler! Sinceramente, o nome Aluísio Azevedo deveria ser mais reverenciado do que é, como um dos vultos maiores de nossas letras, à altura de Alencar e Machado. A cada livro, gosto mais dele, especialmente quando dá mostras do leitor que foi de literatura nacional e estrangeira. Lamartine parece ser um de seus preferidos; lembro de ser citado em O Mulato também. Uma passagem em que Amâncio, protagonista de Casa de Pensão, lê um volume caindo aos pedaços, me agradou em especial, uma vez que o volume era um romance do Alencar.

Assim como em O Cortiço, Casa de Pensão possui vasto leque de personagens, não nas proporções do primeiro, mas ainda assim de amplitude considerável. Aluísio parece ter preferência por aglomerados de pessoas vivendo próximas, talvez por facilitar seu trabalho em analisar as influências do meio e a mediocridade das massas. Amâncio é um jovem de vinte anos que sai do Maranhão, a fim de estudar medicina no Rio de Janeiro. Longe de sentir entusiasmo pelos estudos, o que ele vislumbra mesmo são os prazeres da corte: mulheres impudicas, noitadas com os amigos, liberdade sem limites, tudo isso sem ter que dar satisfação a quem quer que seja. É por isso que ele rejeita ficar em casa do Campos, comerciante rico que devia favores a um tio de Amâncio. O jovem assente em morar na casa de pensão de um novo amigo que fizera: João Coqueiro. E para lá vai.

Amâncio é um homem lúbrico, lascivo e mulherengo. Sedento de prazeres carnais, vive fantasiando indecências com todas as mulheres à sua volta: Hortênsia (mulher de Campos), Carlotinha (irmã de Hortênsia), Amélia (irmã de João Coqueiro), Lúcia (moradora da casa de pensão); nem Nini escapa. Nini é a filha louca de Madame Brizard, viúva francesa com quem casou João Coqueiro. Nini ficara louca após a morte do marido e do filho. Todos os personagens (ou quase todos) postos em cena vêm comprovar a mediocridade humana, as baixezas e vilanias da sociedade, sempre movida por interesses egoístas. João Coqueiro, por exemplo, casou com Madame Brizard por conveniência. Após a morte dos pais, ficara sozinho no mundo com Amélia, sem dinheiro para prosseguir com o negócio da casa de pensão que herdara. Aceitara casar com Madame Brizard, visando obter o dinheiro necessário para prosseguir o negócio em sociedade com a francesa.

Esse João Coqueiro, que é mesmo um especulador, convida Amâncio para a casa de pensão, objetivando arrastá-lo para sua irmã Amélia. O jovem, rico e promissor, é contudo tolo, de maneira que todos tentam arrancar dinheiro dele. Amâncio, que não é tão tolo quanto pensam, não deseja casamento. O que ele quer é divertir-se longe de pessoas maçantes e estudar o menos possível. As mulheres, todas elas, não passam de possíveis aventuras. Quando João Coqueiro percebe uma crescente aproximação entre o estudante e Lúcia, desconfia que a megera possa frustrar seus planos. Essa Lúcia, que vive amasiada com Pereira, um grande estafermo que passa por seu marido, deseja livrar-se do “estorvo” e seguir a vida com melhor partido. Amâncio parece ser esse partido ansiado, mas, como já se viu, o jovem não quer compromisso. Lúcia, por seu lado, não desiste de seu intento, mesmo conhecendo os planos de João Coqueiro. Amélia, mesmo se insinuando o tempo todo, parece ser a que menos chama a atenção de Amâncio, que é mais atraído por mulheres que se fazem de difícil rsrsrs.

A trama segue num ritmo que mantém o leitor preso de dois sentimentos: a indignação e a curiosidade. Casa de Pensão é puro Realismo, com alguns toques de Naturalismo. De todos os amores contracenados, o único que se mostra verdadeiramente honesto é o amor maternal/filial. Os demais são todos movidos por interesses mesquinhos e vis. Aluísio desnuda a sociedade tal qual ela é; e, mesmo tendo se passado tantos anos, percebemos que muita coisa não mudou. Confesso que chegou a me incomodar tanta hipocrisia, tanta baixeza, tanta especulação; o que me faz lembrar minha preferência pelos livros românticos que, embora idealistas e utópicos, constroem um mundo mais justo que (mesmo fictício) serve de refúgio para pessoas desiludidas com o mundo real.

Dos fatores que me perturbaram em Casa de Pensão, é escusado dizer que o final é o primeiro deles, porque mesmo as piores baixezas pintadas por Aluísio, quando escritas por sua pena, são toleráveis; eis outra proeza sua. Do mesmo modo quando li O Cortiço e O Mulato, fiquei impressionado com o desfecho em Casa de Pensão. Confesso que ainda estou meio impressionado com ele, embora já o imaginasse em minhas suposições. Contudo, a maneira como Aluísio apresenta o capítulo final é digno dos escritores de sua monta. Perturbador, mas incrível!

Mas vou já dizer uma coisa que me desagradou na escrita do Aluísio e que, para ser sincero, não lembro se ocorre nas duas outras obras já citadas. É essa mistura dos discursos direto e indireto que ele persiste em fazer, como também o recorrente uso do travessão. Já vi muitos escritores confundirem falas e pensamentos de personagens à voz do narrador; mas fazer o contrário, isto é, adequar a voz do narrador às falas propriamente ditas dos personagens, é, no mínimo, esquisito e inusitado. Mas vindo do querido Aluísio, é, logicamente, perdoável. Costumo fazer uma explanação geral do livro ao final do post, mas penso que, desta vez, já disse tudo. Portanto, se você nunca leu Aluísio Azevedo na sua vida, não sabe o que está perdendo! Difícil vai ser escolher o próximo.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco - RESENHA #33

Não imaginava que Amor de Salvação me daria tanto trabalho quanto deu. Camilo Castelo Branco foi um gênio da língua portuguesa, sobre a qual tinha um domínio inacreditável. Dele, só tinha lido Amor de Perdição e A Brasileira de Prazins. O primeiro, sua obra mais conhecida, escrita quase como um passatempo quando esteve na prisão, foi uma boa iniciação de sua obra para mim; o outro, porém, me apresentou o verdadeiro Camilo, com toda sua genialidade e poderoso vernáculo. Embora o tenha lido há muito tempo, lembro muito bem do quanto fiquei envolvido pela história da desditosa Marta de Prazins. As dificuldades da leitura, lembro bem, não tiravam o interesse do livro. Taí um livro que quero muito reler! Essas duas leituras haviam criado uma imagem positiva de Camilo em minha concepção. Ansiava pelo Amor de Salvação, supondo que me seria mais agradável ainda que o outro, por trazer um título que sugere uma réplica feliz à trágica novela de Simão e Teresa.

Ledo engano de minha parte! Criar expectativas pode ser prejudicial às experiências de leitura, mas, neste caso, creio que o livro me seria inevitavelmente o que foi: só bom, nada mais. A princípio, confesso que me senti desafeiçoado àquela linguagem altamente rebuscada de Camilo, aos diálogos complexamente elaborados, ao linguajar típico da região minhota, etc. Felizmente, minha edição trazia rodapés em quase todas as páginas, o que me foi bastante útil. Conta-se que, no século XIX, os brasileiros buscavam os livros de Camilo, que àquela época já era o mestre da novela passional, quando desejavam enriquecer seu vocabulário. Em observação preliminar à obra, ele já adverte: “O leitor folheia duzentas páginas deste livro, e o amor de felicidade e bom exemplo não se lhe depara ou vagamente lhe preluz. [...] Volume que descrevesse um amor de bem-aventuranças terrenas, seria uma fábula”. Nessa perspectiva, este livro é um “Amor de Perdição 2”, assinalando-se que a dose de perdição nele é ainda maior rsrsrs. Mas sem querer confundir os leitores, vou logo avisando que Amor de Perdição e Amor de Salvação não possuem qualquer ligação em relação às tramas, que são independentes.

A proposta de Camilo é apresentar um protagonista que vivencia a perdição através do amor, mas que ao final poderá ser “salvo”. Não pensem que isto é um spoiler. Em se tratando de Amor de Salvação, nem me preocupo em dar spoilers, uma vez que o próprio autor faz isso. E isto é sério! Eis o primeiro detalhe que me incomodou (e bastante mesmo!) nesta leitura: o autor antecipa revelações. Logo nos capítulos iniciais, o leitor já tem uma ideia geral do que será contado com pormenores nos capítulos subsequentes. O que ocorre é que o enredo de Amor de Salvação, por não ser lá muito interessante, acaba se tornando mais insosso em decorrência do leitor já saber muito a respeito. Que ousadia de minha parte chamar o livro de Camilo de insosso rsrsrs! Mas estou apenas sendo sincero. Não vou desgostar de Camilo por causa desse livro! É praticamente impossível amar todos os livros de um autor. Até Alencar, de quem admiro quase todas as obras literárias, me aborreceu com sua Diva e, de certo modo, também n’O Sertanejo. Assim, continuo sendo admirador confesso de Camilo e, com certeza, lerei ainda muitos outros livros seus!

Amor de Salvação contém dois narradores: o narrador-autor, que se mantém no anonimato; e Afonso de Teive, o protagonista. Os quatro primeiros capítulos funcionam como um prólogo, onde se dá o panorama geral do que decorrerá em sequência, conforme já observei. O narrador-autor, perdendo-se pela região do Minho, acaba deparando-se com um homem que se dá a conhecer. Trata-se de Afonso, não reconhecido de imediato, pelas visíveis mudanças sofridas. Aquele estudante boêmio que publicava textos espirituosos tornara-se num senhor de vida tranquila, ao lado da mulher e de oito filhos (sem contar um nono à espera). Afonso diz ter encontrado a felicidade na vida simples, sob a luz da religião; mas a verdade é que não foi muito fácil para ele chegar aonde chegou. O narrador-autor, que é um romancista de fôlego (sugerindo ser o próprio Camilo?), acaba cedendo ao desejo de Afonso de transportar sua história de vida para um romance, que deveria se chamar “Amor de Salvação”. Os dois amigos encaminham-se para uma estalagem, onde passam a noite; fazendo-se aí ocasião suficientemente propícia para que Afonso realize todo o seu relato.

Afonso conta sobre os planos de sua mãe Eulália de casá-lo com a filha de uma grande amiga. Esta donzela é Teodora, que achando-se órfã, é encerrada num convento por um tio que lhe serve de tutor. Mesmo sabendo do acordo selado entre as duas mães sobre o casamento de seus filhos, o tio de Teodora opõe-se ao consórcio, alegando a pouca idade dos jovens. O convento constitui verdadeiro tormento para Teodora, que é seduzida pelos prazeres mundanos. Consciente de que esperaria muito tempo até poder casar-se com Afonso, ela encontra uma maneira de antecipar a saída de seu cárcere: casando-se com seu primo Eleutério, o filho de seu tio-tutor. Eleutério, longe de ter as qualidades de Afonso, é um ignorante que ganha a vida num negócio com animais. Nem preciso dizer que Teodora não o amava; casou-se mesmo com a intenção de libertar-se. A notícia do casamento de Teodora causa grande alvoroço em Afonso e sua família. A mãe insiste em que ele a esqueça, mas embora concentre seus interesses em estudos e viagens, seus esforços são baldados e ele continua a amar Teodora.

Impossível não lembrar as observações da crítica com relação às escolhas irônicas de Camilo aos nomes de suas personagens. Teodora, por exemplo, significa “dádiva divina”, quando é apresentada no livro como mulher fatal. Mafalda, prima de Afonso, tem um nome que remete a “mau fado” ou “destino ruim”, quando no livro é um anjo de bondade. Essa prima Mafalda surge na história quando Afonso passa uma temporada na casa de Fernão de Teive, seu tio. A moça, que é um exemplo de pureza, involuntariamente se encanta do primo, mas sabe que ele tem o coração ocupado por uma mulher casada com quem ainda se corresponde. Teodora, desejosa de novas venturas, tenta Afonso por vários meios, até que ele não possa mais resistir.

Analisando a síntese da narrativa, constata-se que a mesma não é ruim. O que me desgostou, além das revelações antecipadas de que já falei, foi a fluência do texto. Quase sempre previsível, a novela carece daquela vivacidade tão comum aos escritores do Romantismo. Embora seja um romance romântico de fato, o autor experimenta um humor satírico, que é o que, de certo modo, sustenta a obra. O narrador-autor meio que faz-se de comentarista às desventuras de seu amigo. Dei boas gargalhadas com a ironia ferina que perpassa todo o volume. Assim, agradei-me mais dos elementos secundários que da narrativa propriamente dita. Reconheci perfeitamente a genialidade do escritor, mas senti falta do poder de fabulação do romancista.

Amor de Salvação não traz uma narrativa envolvente, empolgante e instigante. É obra que se eleva por sua forma diferenciada de defender a moral e a religião. É um romance romântico atípico, cuja técnica literária aproxima-se à de um ensaio satírico, não nas proporções de uma Madame Pommery, mas ainda distante de um romance romântico convencional.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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