sábado, 5 de maio de 2018

A Vida como Ela É..., de Nelson Rodrigues - RESENHA #66

Nós, que pertencemos a esta categoria rara e sinistra dos “leitores”, estamos sujeitos a passar por experiências tenebrosas. Nem só de Machado de Assis viverá o homem, não é mesmo? Sim, este é o prelúdio de uma resenha daquelas!

Não à toa mencionei aqui Machado de Assis. Entre 2014 e 2015 realizei uma de minhas empreitadas literárias mais ambiciosas: ler os contos completos do bruxo do Cosme Velho. A princípio, hesitei, imaginando o quão cansativo seria ler 190 contos consecutivos, mas a ideia era mais empolgante que assustadora e, por isso, resolvi-me a executá-la. O resultado foi mais surpreendente do que o esperado. Ficava assombrado com a capacidade que Machado tinha para contar histórias curtas; por diversas vezes, era uma surpresa atrás da outra. Os temas eram sempre tão variados, de modo que a leitura nunca parecia maçante ou repetitiva.

Mas não é interesse desta resenha enaltecer o criador de Capitu; tampouco confrontar seu talento com o de Nelson Rodrigues. A comparação me foi sugerida pela semelhança das experiências no que diz respeito à quantidade de contos lidos. Ainda que A Vida como Ela É... não atenda à mesma proporção (a coletânea de Nelson contém 100 histórias), nem por isso pode ser considerada obra de pouco fôlego.

Decidi ler os contos de Nelson Rodrigues porque os supunha leves; estava um tanto impressionado com as misérias de guerra relatadas n’A Retirada da Laguna, do Visconde de Taunay. Mal sabia eu que de “leve” o livro só tinha a escrita, que chega a ser primária; e menos ainda que encontraria misérias em número maior que as do episódio da Guerra do Paraguai. O estilo tragicômico do autor não era exatamente o que eu imaginava, mas esta circunstância foi o que menos me desgostou.

Tendo publicado centenas desses contos num período de aproximadamente dez anos (desconheço a periodicidade), talvez que Nelson pensasse que os leitores não lembrariam das histórias publicadas há um ano, por exemplo; assim, não vê problema em repeti-las com poucas alterações; mas algumas histórias são recontadas tantas vezes, que acredito muito no fato de que essas “reescritas” aconteciam frequentemente num mesmo ano. Que os leitores da coluna não lembrassem, posso entender perfeitamente! O imperdoável mesmo é o péssimo trabalho de seleção, realizado em 1961, das cem “melhores” histórias. Foi esta antologia que li.

Como se não bastasse o fato do autor ter incluído nessa seleção várias versões de uma mesma história, ele não se deu ao trabalho sequer de ordená-las numa disposição em que isso ficasse menos perceptível. Em algumas ocasiões, a história seguinte é justamente a anterior, se é que me entendem rs! Essas constantes repetições/variações de um mesmo tema denotam que esses contos foram escritos ligeiramente, quase de improviso e com pouquíssima criatividade, para não dizer nenhuma rs.

Os personagens, em sua maioria, dariam conta do maior sanatório do país; ainda que, curiosamente, a psiquiatria seja desdenhada em vários contos. Nelson Rodrigues parecia ser maníaco por alguns temas, dentre os quais: obsessão, assassinato, traição e suicídio. Ouso dizer que todos os contos do livro se enquadram num desses quatro temas, e não poucas vezes em mais de um deles. Mas o tema mais recorrente é, sem dúvida, a “traição”: seja entre amigos, irmãos, casais, pais e filhos, etc. Dentre essas traições, as de infidelidade conjugal parecem ter um apreço especial por parte do autor.

Não bastassem os temas serem repetitivos, a própria escrita é sempre a mesma. É algo mais ou menos assim...

[Atenção! O texto abaixo é uma imitação proposital do “estilo” do contista Nelson Rodrigues.]

Tavares, bebendo com Paiva, revela ao amigo: “Tenho que te contar uma coisa sobre tua mulher”. O outro, meio confuso, reage. “Batata? Do que se trata?”. Tavares pigarreia e solta: “É o cúmulo que só tu ainda não saibas! Tua mulher te trai com o Hermes. Saem de automóvel e outros bichos.”. Paiva não podia acreditar no que o amigo dizia de Lucila. Sua esposa, tão adorável, parecia ser a mulher mais correta. Em solteira, era a pequena mais direita do Rio de Janeiro, segundo diziam. “Esta pequena é pra casar”, dizia seu pai. Casados, tiveram uma perfeita lua de mel na montanha. Hermes, então, amigo de dentro da sua casa; muito sorridente, tinha sempre o ar de quem lavou o rosto há dez minutos. Não podia ser verdade. “Escuta, Tavares. Sempre te considerei amigo do peito. Por isso, é bom que tenhas provas da tua acusação, porque senão, eu juro que te mato!”.

Vocês que leram o livro devem lembrar muito bem dessa história, até porque ela é recontada uma boa porção de vezes rs. A quem ainda não leu, advirto: é daí pra pior!

A Vida como Ela É..., a meu ver, deveria ter morrido no jornal. Acredito que o próprio Nelson Rodrigues pensasse isso enquanto escrevia as histórias. É surpreendente a repercussão da coluna, especialmente pelas várias adaptações para rádio, TV e cinema. Não digo que a ideia do livro seja de todo ruim. A seleção é que está malfeita. Não duvido que Nelson Rodrigues guardasse os recortes de sua coluna, selecionasse cem deles aleatoriamente, entregasse-os ao editor e dissesse, enquanto fumava um cigarro: “Taí, te vira!”.

Embora, no geral, todas as histórias possam ser facilmente esquecidas, seria injusto de minha parte não destacar as que me pareceram as melhores do livro, para não dizer as menos ruins rs. São elas: O escravo etíope; O monstro; Noiva da morte; O sacrilégio; Uma senhora honesta; Cemitério de bonecas; O gato cego; A morta; O menorzinho; Gagá; Justo pelo pecador; e Caixa de Sapato. Uma coletânea com esses doze contos dispensaria, sem grandes prejuízos, a inserção dos outros oitenta e oito rs!

As histórias d’A Vida como Ela É... têm quase sempre o mesmo número de páginas, pois eram escritas sob medida para a coluna de Nelson Rodrigues no Última Hora. Por esse motivo, em vários dos contos, o autor descreve situações inúteis, ou seja, que não são posteriormente desenvolvidas e que só serviam para preencher o espaço reservado no jornal.

Acredito que mencionei todos os motivos que me fizeram desgostar deste que é, incontestavelmente, um dos piores livros que já li na vida. Uma pena que minha primeira incursão à obra de Nelson Rodrigues tenha sido assim tão desagradável! Verdade seja dita: sua celebridade deve-se mais ao dramaturgo. Tenho aqui Vestido de Noiva ainda para ler. Torço para que, no teatro, possa encontrar esse grande Nelson de que tanto falam.

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quinta-feira, 26 de abril de 2018

Rei Negro, de Coelho Neto - RESENHA #65 (contém spoilers)


Li por esta que é a 1ª edição da obra, de 1914.
Prevenido já estava sobre a escrita verborrágica de Coelho Neto, mas não fazia ideia da proporção que teria o vocabulário esdrúxulo do autor. A impressão que tive foi a de estar lendo noutro idioma, tantas vezes que tive de recorrer ao Aurélio rs. Levei certo tempo até me acostumar com o texto de Rei Negro (1914); após superar este primeiro obstáculo, pude então me ocupar da obra em si.

Rei Negro é o que se pode chamar romance anacrônico. Publicado num período comumente denominado Pré-modernismo, o livro de Coelho Neto seguia na contramão do que estava em voga na época; por esse motivo, alguns críticos o classificam de neoparnasiano. Tal estilo foi alvo de crítica ferrenha por parte de autores como Lima Barreto e Oswald de Andrade. A preocupação do autor com a forma chega a ser tão exagerada, que chega a constituir o primeiro plano da essência de sua obra, em detrimento do enredo e demais elementos da narrativa. É como se, indiferente à fotografia, ele estivesse obcecado pela moldura. Essa obsessão acaba prejudicando a constituição do romance que, sufocado por tantos atavios, não caminha, arrasta-se.

Não saberia dizer se o senhor Coelho Neto era desses que traziam um dicionário sempre à cabeceira ou se ele mesmo era um dicionário ambulante; o certo é que, dono de um vocabulário de incalculável dimensão (sobretudo pelos arcaísmos), ele empenha-se por fazer uso constante desta habilidade excepcional. Para que não digam que estou exagerando, aí vai um trechinho: “Era o luar que penetrava o interior da espessura coando-se pelos raros, descendo em cheio pelas abertas, aqui em fita, além alagando a jorros, ou amiudado em nimbos e em estrias que amedalhavam, reticulavam o ândito tenebroso.” Hã? E que me dizem desse: “Crebro, aos estalidos, pingava o estilicídio das folhas róridas; pipilos denunciavam o sonho dos ninhos e, alumiando a treva ferrugínea, em ronda, os pirilampos multiplicavam-se.”? Ahã rs! Só para constar: mais da metade do livro mantém-se nesse nível.

É natural encontrarmos na prosa regionalista um vocabulário peculiar que caracterize com realismo a região ambientada. Isso justificaria em parte nosso romance em questão, não fosse o fato de a maioria dos termos estranhos utilizados não serem exatamente típicos. O excesso de formalismos é um recurso visivelmente proposital. Digam o que quiserem, o estilo de Coelho Neto granjeou-lhe respeito e renome não só no Brasil, como em Portugal, onde a maioria de seus livros eram editados. Em razão desse sucesso, ele publicou quase uma centena de livros, entre romances, coletâneas de contos e crônicas, além de várias peças teatrais. Os requintes de sua escrita, contudo, não lhe asseguraram a permanência e, hoje, praticamente nem se sabe quem foi Coelho Neto. Até onde sei, só algumas de suas crônicas continuam sendo editadas.

Mas falemos agora de Rei Negro. Como já disse, o enredo e demais elementos narrativos sofrem em favor da forma minuciosamente elaborada. A questão racial é o único tema que consegue se sobressair a partir da figura de Macambira, o filho de Munza, reverenciado entre os negros. Trata-se do escravo de confiança de Manuel Gandra, o proprietário da fazenda Cachoeira. Responsável pelas transações de compra e venda de mercadorias, Macambira é temido por sua valentia e pela superioridade que lhe atribuem, por ser uma espécie de príncipe da raça. De modos reservados, sua única amizade é Balbina, velha mandingueira, que vive a lhe contar as glórias de seus antepassados da África.

Macambira, fiel à sua tradição, sente-se um defensor dos escravos, ao mesmo tempo que reprova-lhes as atitudes, especialmente as relacionadas à concupiscência. Na medida do possível, tenta impedir a corrupção de sua gente, sobretudo das mulheres que, muitas vezes, ainda impúberes, eram vítimas de abuso sexual. Manuel Gandra e seu filho Julinho dispunham das escravas a seu bel-prazer e indiscriminadamente. Julinho, contudo, acaba tendo algumas de suas aventuras malogradas, em razão da intervenção de Macambira, o que gera uma grande antipatia no garoto em relação ao negro.

Sabendo que Macambira ia juntando considerável pecúlio e temendo que o negro comprasse sua liberdade, Manuel Gandra decide casá-lo, para mantê-lo seguro na fazenda. Todos acreditavam que o escravo era averso às mulheres, por sua postura sempre austera, e atribuíam o fato às mandingas da Balbina; mas a verdade é que ele dedicava um amor ideal à mucama Lúcia, uma escrava quase branca, que gozava um tratamento especial na fazenda, além de possuir alguma instrução. Gandra, percebendo os sentimentos de Macambira, sugere o casamento, para a indignação de muitos, inclusive de Julinho.

O sinhozinho, querendo desforrar-se com o interceptor de suas aventuras, prepara uma armadilha e estupra Lúcia. Envergonhada, a mucama não tem coragem de relatar a ocorrência, consciente da inutilidade da delação, fundamentada em outras situações idênticas. O casamento é realizado e, pouco depois, Lúcia engravida. Temendo que o filho seja de Julinho, a mucama sofre horrivelmente. Macambira estava fora quando então nasce a criança, de fato, branca. A desesperação toma conta de Lúcia, que teme morrer ás mãos do marido quando este descobrisse; decide confessar tudo à Balbina, mas não resiste a uma vertigem e morre.

Balbina põe Manuel Gandra a par de tudo, e este, em defesa do filho, trata do enterro de Lúcia e exige o sumiço da criança. Sua primeira ideia é a de matar, mas um escrúpulo o convence a enjeitar a criança na porta de uma igreja, missão esta atribuída a Balbina. Uma grande tempestade impede a tarefa, circunstância que é encarada supersticiosamente pela mandingueira, que entende o imprevisto como obra da falecida. Balbina decide esconder a criança no seu rancho, mas quando Macambira retorna, acaba descobrindo tudo. O escravo decide comprar sua liberdade e abandonar a fazenda, para poupar-se da vergonha, mas Gandra convence-lhe a ficar, tentando sempre justificar o filho. Macambira, contudo, perdendo a razão, prepara uma tocaia na qual Julinho acaba assassinado por ele.

Todo esse dramático enredo é contado da maneira mais arrastada possível, combinado com descrições minuciosas derramadas em páginas e páginas. As descrições são por vezes tão excessivas que não poucas vezes o leitor precisa parar para se situar novamente na trama. Tudo é contado também com bastante distância, de maneira que muito do que atribuímos aos personagens provém do que fica subentendido, pois o autor não se dedica muito ao estudo de seus tipos, o que faz com que o leitor não simpatize muito com eles. O autor, que não dedica atenção aos personagens centrais, importa-se bem menos com os secundários; à exceção de Donária, a Vaca Brava, a participação dos outros é praticamente nula.

Rei Negro é um livro que, não obstante não ser muito longo, poderia ser bem menor. Talvez se ao invés de tantas descrições “despropositadas”, tivéssemos um desenvolvimento melhor da trama, como também dos próprios personagens, o romance renderia uma experiência mais apreciável. A obra, sem dúvida, toca em diversas temáticas que mereciam uma atenção mais cuidadosa. Não quero desmerecer a espantosa perícia estilística do autor, mas, honestamente: há tanta coisa melhor rs!

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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quarta-feira, 4 de abril de 2018

Trilhas Longínquas de Oku (Oku no Hosomichi), de Matsuo Bashō - RESENHA #64

Considerado o maior haicaísta de todos os tempos, Matsuo Bashō (1644-1694) celebrizou-se também pelos relatos que fazia de suas peregrinações. Trilhas Longínquas de Oku (1694), o mais famoso deles, é considerado sua obra-prima. Trata-se do relato de uma viagem que Bashō, acompanhado de seu discípulo Sora, realizou em 1689, por Michinoku, nome pelo qual também era conhecida a Província de Mutsu (território que hoje corresponde às prefeituras de Fukushima, Miyagi, Iwate e Aomori, e às municipalidades de Kazuno e Kosaka na prefeitura de Akita), ao norte e noroeste de Honshu, maior ilha do Japão. Calcula-se que Bashō percorreu, quase sempre a pé, cerca de 2300 km em 156 dias, na idade de 46 anos, considerada avançada para os padrões do século XVII.

Depois dessa confusa introdução rs, passemos à apreciação da obra.

Ainda que não centrado em sua pessoa, Trilhas Longínquas de Oku não deixa de ser um retrato do poeta que foi Bashō. Talvez ele tenha alcançado o grau mais elevado da essência do “ser poeta”, pois sua vida, ao que tudo indica, foi toda dedicada à poesia e à religião. O culto de Bashō pelo zen-budismo — é importante lembrar — está diretamente associado ao culto da poesia. Acho que ficou claro que a vida desse ilustre oriental foi pura poesia mesmo rs. Ainda que os biógrafos discordem bastante a seu respeito, o amor pelo haicai (desde tenra idade) acaba sendo o ponto de interseção entre todos eles.

O que chama atenção na obra máxima de Bashō não é exatamente o percurso empreendido por ele, mas suas reações diante das paisagens e pessoas que encontra. Sua sensibilidade é algo inacreditável, notadamente para o leitor contemporâneo. É interessante como o perigoso trajeto se relaciona ativa e passivamente com a poesia: ora Bashō busca intencionalmente uma imagem referida por autor clássico, ora uma imagem presenciada é logo associada pelo poeta a algum poema famoso. Claro que essas referências, geralmente mescladas com o texto, só poderiam ser atinadas por conhecedores da poesia japonesa, como Meiko Shimon (tradutora da minha edição), que através de notas de rodapé, chega a transcrever alguns dos poemas aludidos por Bashō.

Eis uma obra puramente contemplativa: para autor e leitor. A viagem tinha fins exclusivamente poéticos. Bashō buscava: matéria para seus haicais, encontrar velhos amigos poetas, conhecer outros igualmente dedicados à poesia, verificar monumentos referidos pela poesia clássica, praticar sua fé em vários templos encontrados, apreciar as variedades naturais. Acho que fiz um resumo do livro todo agora rs. Mas nada como compartilhar da sensibilidade do autor! Se por um lado ele aprecia cuidadosamente o ambiente à sua volta, o leitor aprecia seu maravilhoso senso de observação.

Trilhas Longínquas de Oku é permeado por vários haicais de Bashō e Sora, todos eles poemas circunstanciais, que expressam as emoções de momentos marcantes do trajeto; algumas vezes estes poemas eram dependurados na entrada dos locais visitados. Assim, há um poema dedicado às armas de valentes guerreiros de outro tempo, outro inspirado pela empatia para com o sofrimento de duas prostitutas, aquele pelo qual se despede de seu companheiro Sora... Enfim, são muitos haicais, alguns até atendendo a pedidos rs.

O relato de Bashō é de uma simpleza graciosa, mas que exige bastante atenção de leitores, como eu, pouco afeitos à cultura oriental. A tradução de Meiko Shimon tem o mérito de ser a primeira (no Brasil) a verter o texto do original japonês para a língua portuguesa, mas talvez por não ser a tradutora uma falante nativa do português, algumas passagens não me pareceram bem transpostas para nosso idioma, o que pode representar uma dificuldade sofrível, já que a comprometida fluidez de certos trechos não chega a interferir na compreensão da obra.

Imagino que os amantes da poesia apreciarão a prosa poética de Bashō bem mais do que eu, mas, sinceramente, aproveitei esta experiência com particular entusiasmo. Há uma pureza nas impressões do poeta viajante que chega a emocionar, por sugerir que o homem carece de fé e de arte para se manter num mundo tão materialista.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 29 de março de 2018

Casamento de Amor (Matrimonio d'Amore), de Francesca Lenardon Pilosio - RESENHA #63

Como deu muito certo ler algo mais de Stacpoole, utilizei a mesma estratégia, desta vez retornando a uma autora descoberta em 2017: a italiana Francesca Lenardon Pilosio ou simplesmente Franca Lenardon. Quando li Uma Mulher ano passado, tive certeza que não poderia parar por ali com tão subestimada autora. A obra escolhida foi outra publicação da Saraiva, mas pertencente à “Coleção Rosa”, voltada especialmente para o público feminino. Trata-se de Casamento de Amor (1944) que, não obstante ser obra mais simples, possui as mesmas qualidades que me seduziram na obra anterior.

A escrita da senhora Lenardon é de uma fluidez tão correntia que, sem perceber, você já tem lido mais páginas do que planejava. Foi assim com Uma Mulher (lido em 2 dias) e com Casamento de Amor (lido em 3 dias). Esse ritmo não se deve exclusivamente à simplicidade do texto. Já li romances de escrita mesmo primária muito lentamente, porque não instigavam meu interesse. Talvez o segredo de Lenardon esteja na forma como ela dispõe as cenas, na beleza de suas descrições domésticas, na vivacidade dos diálogos e na construção de tipos que ganham a simpatia do leitor. Essa combinação proporciona uma experiência de leitura agradabilíssima!

O que pode causar aversão ao leitor contemporâneo, sobretudo no apreciador da literatura atual, é certa ingenuidade no estilo da autora, o que talvez tenha contribuído para seu ostracismo. Lenardon pinta situações e criaturas que parecem habitar num mundo cor de rosa. Mais que otimista, ela é idealista. No seu romance, por exemplo, não há vilões; a figura mais próxima de um antagonista é o próprio herói. A narrativa é cercada de um sentimentalismo que pode parecer piegas, mas que se fundamenta em valores que deveriam ser mais cultivados por nós: a bondade, a caridade, a honestidade, a integridade, etc. Mesmo sabendo que o mundo não é o que se pinta em Casamento de Amor, não posso evitar apaixonar-me por ele e compartilhar do sonho de Lenardon.

No romance, temos a história de Alfredo Altieri, filho da condessa Eleonora, que deseja casá-lo, para não deixá-lo sozinho no caso de sua morte, uma vez que Alfredo é órfão de pai. O rapaz, contudo, é um desiludido que julga mal todas as mulheres, desinteressado pois pelo casamento. Seu tio Carlos, temendo a extinção do sobrenome da família, já que não tivera filhos, ameaça deixar sua herança para estranhos, no caso do sobrinho não casar-se naquele mesmo ano. Alfredo, para quem o palácio do tio Carlos tinha um valor sentimental, consente no casamento, não demonstrando contudo um mínimo interesse pela possível noiva.

À condessa Eleonora é atribuída a missão da escolha da felizarda, pois Alfredo, cujo maior interesse é conhecer os exotismos do mundo, está de viagem marcada para a China. Pretendendo demorar-se na viagem como de costume (até porque o itinerário de nosso viajante contempla vários outros países orientais), Alfredo deixa uma procuração com Barni, o advogado da família, que logo sugere à condessa a candidata ideal para seu filho. Trata-se de Bárbara, uma bela jovem que, ficando órfã muito cedo, fora criada num colégio de freiras.

Bárbara é uma jovem que, mesmo tendo passado a maior parte de sua vida reclusa, possui considerável instrução, além de uma poderosa capacidade intuitiva das situações. Mesmo julgando a proposta da condessa um tanto questionável, aceita-a por confiança em Barni, seu tutor, a quem trata por padrinho, além de sentir-se atraída pela ideia do casamento com o jovem da foto que lhe é apresentada. Assim, efetua-se aquele incomum casamento, sem a presença do noivo.

Bárbara, embora fascinada com sua nova casa e aquela nova mãe, lamenta a demora do esposo, que não manifesta um interesse legítimo por ela nem mesmo por correspondência. Casualmente, acaba ouvindo uma conversa entre a sogra e Barni, pela qual descobre a verdadeira razão de seu casamento. Por esse tempo, a condessa adoece gravemente e acaba falecendo. A baronesa Maria, irmã de Eleonora, que estava presente desde o casamento de Bárbara, decide fazer companhia à jovem até o regresso de Alfredo. A jovem esposa, porém, está decidida a deixar a casa de seu marido e não mais esperar por ele.

Maria e Barni ficam impressionados com a decisão de Bárbara, mas a verdade é que ela tem um plano. Bárbara não acredita que Alfredo possa amá-la por imposição. Ele precisaria conhecê-la espontaneamente, sem sentir-se obrigado pelo casamento, para então interessar-se por ela legitimamente. Para tanto, ela precisa de uma nova identidade, para ser a mulher que Alfredo encontrará depois de sentir-se desprezado pela esposa. O plano a todos parece muito arriscado, mas, para Bárbara, é a única possibilidade de ter um casamento de amor.

Casamento de Amor é impregnado dessa encantadora atmosfera de conto de fadas. É um livro que, embora tenha me agradado bastante, preferiria ter lido aos quatorze anos, idade na qual estamos mais propensos a sonhar com um mundo ideal, em que todas as pessoas são boas e dignas de uma felicidade para a qual não existem limites.

Avaliação: ★★★★

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sábado, 24 de março de 2018

Os Dois Sósias (The Man Who Lost Himself), de H. De Vere Stacpoole - RESENHA #62

Entusiasmado que fiquei com a escrita de Stacpoole, quando li ano passado A Lagoa Azul, ansiava urgentemente ler mais alguma coisa do autor. Ainda entristecido por não poder ler os outros dois livros da trilogia de Emelina e Dick, acabei localizando este romance de aventuras publicado no Brasil em 1956 pela editora Edigraf: Os Dois Sósias (The Man Who Lost Himself, 1918).

Mesmo assinado por Stacpoole, o livro não parecia grande coisa, a julgar pela qualidade da edição. O título bem diverso do original também me sugeriu uma tradução malcuidada. Mas como era tudo o que me restava deste maravilhoso irlandês, não podia deixar passar rs! E para minha grande surpresa (ou nem tanto assim), acabei adorando o livro. Simplesmente divertidíssimo!

Os Dois Sósias, diferente d’A Lagoa Azul, é obra mais ligeira e despretensiosa, mas de leitura tão agradável e cativante, que estou convencido de que Stacpoole tem sido negligenciado pelo público brasileiro. Ainda que tenha lido por uma edição de bolso com letra pequeníssima e numa tradução um tanto problemática, pude vislumbrar o talento inquestionável do autor. Dentre outras surpresas, o enredo me fez pensar que talvez Inés Rodena tenha se inspirado nesta obra para criar a trama de La Usurpadora. Quando passarmos ao enredo, este ponto estará devidamente esclarecido. Que seja pois já rs!

Vitor Jones é um jovem americano que não tem tido sorte na vida. Uma recente relação profissional o leva para território inglês onde mais uma vez a sorte se lhe apresenta adversa. Desgostoso de tanto insucesso, acaba conhecendo um homem que mudará sua vida inteiramente: o conde Artur Rochester, seu perfeito sósia. Este, primeiro a se dar conta da incrível semelhança entre os dois, decide festejar a descoberta com Jones.

No dia seguinte, Jones acorda num lugar onde nunca esteve antes. Ele só lembra de ter sido carregado bêbado para aquela residência que logo reconhece ser a mansão do conde de Rochester. Uma porção de criados logo o cerca de cuidados e atenções com os quais ele nunca sonhara. Todos o tomam pelo conde. Embora julgando-se vítima de uma brincadeira, o verdadeiro conde não se manifesta. Uma notícia de jornal notificando a morte de um americano identificado como “Vitor Jones” convence o verdadeiro Jones de que fora o conde de Rochester, o responsável pela troca, quem realmente acabara falecendo.

O conde, contudo, tivera tempo de deixar uma carta para seu sósia, pedindo-lhe que se aguentasse em seu lugar. Assustado com a situação, receoso de complicar-se ainda mais e sem um níquel no bolso, Jones prefere calar a verdade e continuar representando o papel do sósia. Não imaginava, contudo, que Rochester fosse um estroina de péssima reputação, cercado de más companhias e, ainda por cima, infiel à esposa.

Para sua surpresa (e do leitor), Jones assume a identidade do sósia de tal forma, que reage às consequências da vida dele, como se fosse a sua própria, chegando mesmo a confundir-se ocasionalmente sobre sua personalidade. Tudo o que era indiferente a Rochester é encarado com austeridade pelo sósia que logo propõe-se a reparar todos os erros daquele cujo lugar usurpava. Como se não bastassem tantos problemas de natureza diversa, Jones ainda sente-se inevitavelmente atraído por Teresa, a esposa do conde, que não obstante os inumeráveis defeitos do marido, ainda o ama. Digam se vocês não viram essa novela de Gabi Spanic rs?

Admito que mesmo envolvido com as peripécias aventurescas da trama, não podia deixar de rir-me da situação, como que desdenhando de uma história improvável que não fazia mais que me divertir. Mas Stacpoole, prevenido de leitores como eu, acaba fazendo uso de um recurso com o qual não contava. Em poucas palavras, ele cria uma situação que obriga o leitor a dar crédito à sua improvável narrativa. O que parecia inverossímil acaba sendo aceitável. Essa obstinação do autor por fazer crível seu enredo fez a obra crescer consideravelmente em meu conceito.

No mais, só compartilho de uma impressão curiosa que tenho observado em relação a romances de aventura. Esse ritmo acelerado que os caracteriza chega a me aturdir. Talvez por estar habituado a leituras que refletem as situações mais atentamente e que, portanto, são mais lentas, fico quase ofegante com esse correr de cenas e acontecimentos apressados. Ainda que me divirta com as situações, elas acabam me cansando também, pela velocidade com que transcorrem na obra.

Desejaria muito ver Stacpoole sendo reeditado aqui no Brasil. É autor de estilo agradável e envolvente, seja pela sedução poética d’A Lagoa Azul, seja pelo movimento excitante d’Os Dois Sósias.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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terça-feira, 20 de março de 2018

Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett - RESENHA #61 (contém spoilers)

Ainda estou meio zonzo da leitura que fiz das Viagens na Minha Terra (1846), de Almeida Garrett. Confesso que fui ao livro com certo receio, provocado pela fama de “difícil” que ele tem. Fácil realmente não é rs. A escrita de Garrett me parecia, por vezes, tão incomum, que difícil me era compará-la. Ouso dizer que suas peculiaridades linguísticas vão além das de Camilo, mas é muito provável que tal impressão se explique no fato de que esta foi minha primeira experiência com o iniciador do Romantismo em Portugal.

Viagens na Minha Terra é obra híbrida, ou seja, que faz mistura de gêneros e estilos. Essa estrutura nada convencional já lhe confere grande interesse (ainda que não de minha parte rs), especialmente pela época em que foi publicada. Não é tarefa fácil comentar obra que discute uma infinidade de temas propositalmente dispersos. A leitura é mesmo confusa, e é o próprio autor quem assevera: “Neste despropositado e inclassificável livro das minhas Viagens, não é que se quebre, mas enreda-se o fio das histórias e das observações por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, só com muita paciência se pode deslindar e seguir em tão embaraçada meada.”.

Contentar-me-ei em comentar o que me parecer digno disso!

Os primeiros capítulos são formidáveis. Parodiando os modelos clássicos, o autor propõe um relato extraordinário que se concentra nos sucessos de uma viagem de Lisboa a Santarém. São os mínimos detalhes do percurso, contudo, que abrem margem para muitas digressões. O estilo dessas observações é irônico, galhofeiro e revestido de uma falsa presunção. Mesmo não sendo exatamente modesto, nosso narrador não é um vaidoso. Sua afetação é antes artifício, dentre outros que colaboram com o bom humor de sua obra. Achei divertido e inteligente; o autor sabe ser mordaz sem ser deselegante.

A certa altura do percurso, quando chega ao Vale de Santarém (que não deve ser confundido com Santarém, o destino final), nosso narrador fica profundamente impressionado com a visão de uma janela, o que lhe faz cismar. Um de seus companheiros de viagem acode-lhe, dispondo-se a contar a história da menina que um dia vivera ali, recostada àquela janela, rodeada de rouxinóis. Começa aqui o episódio da “Joaninha dos olhos verdes”.

Nem preciso dizer que grande parte do meu interesse em ler as Viagens era justamente conhecer o famigerado episódio de Joaninha. Que decepção! E que claro esteja: agora trato do romancista!

A história de Joaninha, à primeira vista, pode mesmo parecer bastante singela. A narrativa principia de maneira bem despretensiosa: uma velha cega (dona Francisca) dobando um novelo, tendo como única companhia sua neta (Joaninha) de dezesseis anos. As duas recebem, costumeiramente às sextas-feiras, a visita do sinistro Frei Dinis. Há, contudo, uma aura de mistério em torno desse quadro de simplicidade.

Mas, agora, desenrolemos a trama sem os meandros do autor rs!

Dinis de Ataíde fora um nobre português que, após ter granjeado sucesso na carreira militar, dedicara-se à magistratura, fazendo interessante fortuna. Teve, contudo, a má sorte de interessar-se por uma mulher casada: a filha de dona Francisca. Consumado o adultério, nasce Carlos, a quem todos pensam ser um filho legítimo. Quando descoberta a traição, o filho de dona Francisca (pai de Joaninha) une-se ao cunhado para limpar a honra da família. Dinis, em defesa da própria vida, vê-se obrigado a matar os dois; matara, contudo, ignorando a identidade de suas vítimas; o reconhecimento delas causa-lhe grande arrependimento. Para livrar-se dos corpos, lança-os no rio Tejo, o que acaba sugerindo, com conveniência, um suposto acidente.

Dinis não esconde o crime praticado da mãe de Carlos. A esposa infiel, horrorizada, falece chorando pelo marido perdido e amaldiçoando o amante, pai de seu filho. Lembremos ainda que dona Francisca esteve sempre a par de todos esses acontecimentos! Assim, para expiarem suas penas, Dinis de Ataíde e dona Francisca entregam-se à vida religiosa. O magistrado torna-se Frei Dinis, guardião do Convento de S. Francisco de Santarém; e dona Francisca consagra-se à educação de seus netos: Carlos e Joaninha. A fortuna que fora de Dinis de Ataíde é quase toda para o sustento dos órfãos.

As circunstâncias teriam seguido assim sem maiores dificuldades, não fosse o fato de que Carlos cresce com a desconfiança de que sua avó e Frei Dinis foram cúmplices na morte de “seu pai”. Sua prima, quinze anos mais jovem que ele, era muito criança para compartilhar de seus receios. Desiludido ainda com a situação política de Portugal, Carlos, após formar-se em Direito, decide emigrar para a Inglaterra. Sua partida acaba sendo fulminante para todos. Não se trata de uma questão puramente familiar, mas política.

Instaura-se uma guerra civil entre realistas e liberais. Carlos está entre os liberais, para desgosto de Frei Dinis. Os combates trazem-lhe de volta ao Vale de Santarém e, numa tarde, ele reencontra Joaninha, adormecida no campo. A nova imagem da prima, que vira apenas criança, acende-lhe chamas no coração. E agora falemos do coração de Carlos, que vem a ser o “grande motivo” do romance.

Carlos sofre por ter um coração maior do que se possa conceber. Em Inglaterra, por exemplo, ele apaixona-se por três irmãs: Júlia, Laura e Georgina. Certamente que seu tipo era dos mais atraentes, uma vez que as três irmãs acabam correspondendo aos seus honestos sentimentos. Mas não pensem que ele comete o descaramento de amá-las ao mesmo tempo! Seu coração só resiste a uma por vez rs. A primeira que amou, Laura, infelizmente, já estava comprometida e acaba indo morar com o marido na Índia; com Júlia, seu amor acaba sendo mais platônico, em razão de Georgina ser muito mais bonita rs; o reencontro com Joaninha, finalmente, vem confirmar o diagnóstico que ele mesmo faz de si: “Oh! eu sou monstro, um aleijão moral deveras, ou não sei o que sou.”. Não parece um romance maravilhoso e de grande interesse? Mas ainda não chegamos na melhor parte rs!

Em razão de seu compromisso com os liberais, Carlos deixa sua noiva e vai para a Ilha Terceira, onde desperta o amor de uma piedosa freira que, segunda ela, só queria consolá-lo. Ele, de fato, parecia muito triste por ter o coração dividido entre a Índia, a Inglaterra e o Vale de Santarém rs! O diabo não é tão feio como se pinta; por isso, Carlos acaba não correspondendo a mais esta conquista, o que não evita contudo diversos comentários maldosos a este respeito.

Lamento se esta resenha estiver um pouco confusa. Garanto que o é menos que o livro de Garrett!

Esquecia-me dizer o resultado do bucólico encontro entre Joaninha e seu amável primo. A reação dela ao despertar é de grande surpresa por encontrar a personificação do objeto de seus sonhos, porque, sim, Joaninha também acaba apaixonada por Carlos. Dividido entre o amor da prima e o da bela inglesa, Carlos empenha-se na sua causa política, mas acaba gravemente ferido num combate. Feito prisioneiro, ele acaba sendo salvo por Frei Dinis, que decide tratar as feridas do filho em seu convento. Mas Carlos ainda teria uma enfermeira particular: Georgina, que fora encontrá-lo em Portugal, por julgar muito frias as últimas cartas mandadas pelo maravilhoso noivo. Desconfiada, ela acaba sabendo da existência de Joaninha e dos novos sentimentos de seu amado; mas, num ato de inacreditável resignação, a bela inglesa acaba cedendo Carlos para a tal priminha dos rouxinóis. Digno de nota: Joaninha aceita o sacrifício de Georgina de muito bom grado.

As desconfianças de Carlos são também finalmente esclarecidas depois que ele se recupera das feridas. Sua primeira ideia é matar Frei Dinis, mas acaba sendo retido pela descoberta de ser o franciscano seu verdadeiro pai. Perplexo, ele beija a mão ao pai, abraça a avó e parte para Évora. De lá, remete uma carta para Joaninha, contando-lhe os detalhes de seu incomum coração, tão incapaz de amar uma única mulher. Joaninha enlouquece e morre; Carlos enriquece e torna-se barão.

Não é uma linda história de amor?

Não bastasse o enredo do episódio de Joaninha ter se perdido inteiramente em incoerências, o autor alterna tão emocionante história com outras tantas digressões, mas não como aquelas dos capítulos iniciais. As digressões finais fazem o leitor percorrer por templos, túmulos, pardieiros e outros grandes monumentos da histórica Santarém. Vocês não imaginam o meu interesse rs!

Brincadeiras à parte, não estou aqui para questionar o valor da obra de Garrett. Percebi, principalmente na primeira metade da obra, o grande escritor que ele era. Mas, convenhamos que, como romancista, realmente não vingou.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Menino do Gouveia, de Capadócio Maluco - RESENHA #60

Primeiro conto homoerótico da literatura brasileira, O Menino do Gouveia (1914), do incógnito Capadócio Maluco, foi publicado pela primeira vez num suplemento da polêmica folha O Rio Nu, periódico pornográfico que circulou no Rio de Janeiro, de 1898 a 1916.

O homoerotismo sempre foi um tema tabu em nossas letras. A estética naturalista, contudo, inclinou-se por aproveitá-lo, ainda que numa perspectiva secundária, como vemos n’O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo; ou, quando tema central, de forma velada, conforme lemos em Um Homem Gasto (1885), de Ferreira Leal, e no Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha. O próprio Machado de Assis arranha o tema no conto “Pílades e Orestes”, de 1903, divulgado também anos depois nas Relíquias de Casa Velha. Mas é somente com O Menino do Gouveia que a homossexualidade torna-se objeto consistente de uma narrativa brasileira, que a expõe sem pudores ou reservas.

Escrito sob pseudônimo para uma folha de conteúdo adulto, O Menino do Gouveia utiliza linguagem carregada de termos vulgares e apelativos. Não pensem contudo que o texto é exatamente pobre por esta escolha vocabular. O conto tem uma estrutura interessante e é bem desenvolvido, segundo seus propósitos narrativos. Talvez certos exageros e tintas mais fortes exigidas pelo gênero pornô é que tenham comprometido a qualidade ficcional.

O narrador é o próprio Capadócio Maluco que, já no começo do conto, está na cama com o Bembém. Embora não se possa precisar a idade deles, fica sugerido que Bembém é mais jovem que Capadócio. O rapaz, enquanto acaricia a genitália do parceiro, dispõe-se a contar a história de sua iniciação sexual. A ele pois é dada a tarefa de narrar até o desfecho do conto.

Bembém fala do despertar de sua sexualidade, por volta do quatorze anos, quando gostava de espiar os criados nus. Seu desejo maior, porém, era apreciar a nudez de seu tio, em cuja casa morava; desejo este satisfeito graças a um estratagema que lhe permitiu assistir o tio em ato sexual com a esposa. O “avantajado membro” visto por Bembém provoca-lhe uma forte excitação venérea; mas no dia seguinte, após uma provocação direta, o garoto é expulso de casa.

Ardendo em desejos, Bembém sai pela cidade em busca do que ele chama de “fanchono”, termo atribuído a pederastas. No Largo do Rocio, aparece Gouveia, que na descrição de Bembém era “um tanto maduro”. Uma rápida conversação entre eles dá mostras das intenções de ambos. Gouveia, muito cordial, leva Bembém ao cinema e, logo em seguida, à sua residência. Na sequência, temos a iniciação sexual de Bembém segundo os ditames de seu deflorador.

O conto, escrito numa época bastante ignorante aos conceitos de gênero e publicado em periódico destinado a um público heterossexual, cristaliza a homossexualidade sob uma ótica limitada e machista. Bembém, por exemplo, não consegue ter ereção, uma vez que só é capaz de sentir prazer anal; sua figura é constantemente passiva e todas as referências a ele apontam um comportamento feminino; o que fica sugerido é que o garoto, conforme certas mulheres “da época”, não era mais que um objeto sexual do desejo masculino.

É importante compreendermos que O Menino do Gouveia relata a homossexualidade simplesmente pelo aspecto sexual. Numa época muito mais intolerante que a nossa, dificilmente teríamos condições de conceber ficção que abarcasse uma autêntica relação homoafetiva, ou seja, em que ambos os parceiros compartilhassem do mesmo sentimento. O conto, não obstante seus exageros, é um interessante documento para compreensão da visão que tinham os brasileiros sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo.

Avaliação: ★★★

OBSERVAÇÃO: O Menino do Gouveia foi reeditado recentemente pela editora “O Sexo da Palavra”. Pode ser adquirido pelo site (https://www.osexodapalavra.com/) ou na página do Facebook da editora (https://www.facebook.com/osxdapalavra/).

Daniel Coutinho

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