Às vezes, quero crer que minha antipatia pela
literatura contemporânea explica-se na hipótese de que tenha lido os autores
errados. É uma boa hipótese, sei. Mas se for mesmo isso, a verdade é que
continuo lendo os autores errados. Não estou querendo generalizar, claro. Acredito
que ainda existem muitos escritores bons e, inclusive, pretendo ser um deles. O
que me faz cismar é: por que os escritores do passado eram tão infinitamente
melhores?
Minha mais recente experiência com autores vivos
talvez não tenha sido realmente a melhor escolha, mas como realizo minhas
leituras movido por uma coceirinha chamada curiosidade, cheguei à novelinha Devoção (2017), da cantora
norte-americana Patti Smith, que é mais conhecida por sua carreira musical,
pelos seus poemas e livros de memórias. Não tenho notícia de outros trabalhos
ficcionais de Patti e, depois desta última leitura, sinceramente, não fiquei
interessado em saber.
Devoção conta
basicamente a história de uma menina de dezesseis anos que abandona os estudos
para patinar no gelo. Eu teria preferido ler o conto dos três porquinhos. Por
falar nisso, ainda não li a versão clássica do australiano Joseph Jacobs.
Prometo fazer resenha assim que ler! Concordo com alguém – que agora não lembro
– que disse que, numa obra literária, o importante não é o tema, mas o
tratamento que se dá a ele. Se não gostei do tema escolhido pela autora, prefiro
não comentar o que achei do tratamento rs. Mas antes que alguém possa
questionar, não, eu não acho que Patti escreve mal. Sua escrita é mesmo
atrativa e nela reconhecemos claramente a influência poética e musical.
O problema de Patti ao arriscar-se com a prosa
foi achar que teria as mesmas licenças gozadas pela poesia. Mesmo quando se
escolhe o caminho do fantástico, o que não foi o caso, o prosador precisa
atentar-se para o quão convincente será para o leitor o enredo traçado. Se
involuntariamente provoca-se uma brecha para o inconcebível, faz-se necessária
uma explicação ou justificativa que não desmereça a inteligência do leitor.
A protagonista Eugenia é separada dos pais que
são levados da Estônia para um campo de trabalho na Sibéria, durante a ditadura
de Stalin. Eugenia, que não tinha nem cinco anos, vai morar com sua tia Irina e
o esposo dela, Martin, na Suíça. A garota torna-se uma boa estudante e descobre
sua grande paixão: a patinação no gelo. Após a morte de Martin, Irina
relaciona-se com outro homem, Frank, com quem decide morar em outro país, deixando
apenas algum dinheiro para Eugenia, além do chalé que Martin havia comprado
para elas.
Ainda que a autora tente justificar o
comportamento de Irina, alegando que a mesma só ficara com a sobrinha por
imposição, não me pareceu convincente que ela, pelo caráter que lhe é
atribuído, possa ter abandonado Eugenia, com quem convivera desde o nascimento,
sem maiores preocupações. E o que dizer sobre uma garota de significativa inteligência
que abandona os estudos só para patinar? Alguém poderia citar a vulnerabilidade
da personagem, sozinha, sem ninguém que olhasse por ela. Estranho mesmo é que,
mesmo vivendo ali por aproximadamente dez anos, Eugenia não tivesse contraído
nenhuma relação amistosa com alguém que pudesse auxiliá-la.
Para deixar a narrativa “mais interessante”,
Eugenia é descoberta por Alexander, um excêntrico caçador e vendedor de
antiguidades. Este oferece seu apoio e a oportunidade de praticar patinação com
uma treinadora particular. A proposta é claramente indecente, mas Eugenia, que
achava que seus professores não poderiam lhe ensinar mais nada, acaba cedendo à
oferta de Alexander, até que este, depois de reconhecer que o talento da garota
poderia levá-la para longe, decide investir numa relação aparentemente
possessiva.
Os meios que Eugenia escolhe para libertar-se de
seu “protetor” não são os mais originais e acarretam consequências igualmente
previsíveis. Ao final, só conseguia pensar: “Mas isto é inadmissível!”, ao
tempo em que me decidia se avaliaria a novela com uma ou duas estrelas. A
propósito dessas avaliações, penso que daria um texto interessante esclarecer
os meus critérios; o que acham? A escrita poética de Patti definiu a avaliação
da narrativa, o que me leva a crer que provavelmente seus livros de poesia e
suas composições musicais têm mais valor artístico que suas tentativas
ficcionais.
Avaliação: ★★
Daniel Coutinho
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