sábado, 30 de maio de 2026

Uólace e João Victor, de Rosa Amanda Strausz - RESENHA #222

Separei alguns livros infantojuvenis do meu acervo para descarte, mas, antes de passá-los adiante, decidi relê-los uma última vez, a fim de ter certeza se algum deles não faria falta. Ao que parecia, todos os títulos seguiriam mesmo seu caminho com destino a outros leitores. No entanto, chegando ao último deles (que, a princípio, confesso, li com certa preguiça), descubro uma pequena joia da qual já não lembrava.

Uólace e João Victor (1998), da escritora fluminense Rosa Amanda Strausz, é uma preciosidade da nossa literatura infantil. Sua composição é de uma criatividade que nos fascina constantemente ao longo de suas quase cinquenta páginas. A narrativa, além de bem escrita, sabe ser inteligente, bem-humorada e emotiva na medida certa, sem exageros ou pieguices.

A estrutura da novela já dá mostras do estilo criativo da autora. Os capítulos são duplicados: os doze capítulos narrados por João Victor são intercalados por outros doze narrados por Uólace, realizando esse interessante jogo do contraponto. A princípio, esse jogo parece disposto a evidenciar o contraste entre os dois garotos, de mundos tão diferentes, mas, para surpresa do leitor, muitos paralelos são criados para aproximar as histórias dos dois protagonistas.

Uólace e João Victor são pré-adolescentes, talvez de uns onze anos, ambos filhos de mães solteiras. Uólace é um garoto de rua, negligenciado pela mãe, uma mulher alcóolatra; ele não vai à escola e depende da generosidade alheia para fazer qualquer refeição, tal como seus dois amigos: Catuaba, um garotinho franzino, provavelmente mais novo, com pendores artísticos e apaixonado por novelas de época; e Cachorrão Duplex, o mais alto da turma, que, com seu porte e olhar ameaçadores, obtém dinheiro mais facilmente dos transeuntes.

João Victor, embora tenha um padrão de vida muito melhor, não vive em um lar abastado. Sua mãe, que possivelmente não conta com ajuda financeira do pai do garoto, trabalha como secretária, além de revisar livros para conseguir uma renda extra. Dessa forma eles conseguem viver dignamente, garantindo suas necessidades básicas. João Victor frequenta a escola, e é sempre cobrado pela mãe para que tire boas notas; ela deseja que o filho tenha um futuro brilhante. Ele também tem dois amigos: Zé Luiz, de contexto familiar idêntico, e por isso mesmo um amigo mais próximo; e Lucas, garoto mimado, cheio de privilégios, pertencente a uma família rica.

Assim vamos conhecendo, a partir da estrutura já mencionada, o cotidiano desses dois garotos, cujas vidas estão cheias de similaridades. As diferenças sociais não mudam o fato de que Uólace e João Victor são apenas dois meninos comuns, com seus medos e aspirações. Ambos desejam comer hambúrguer no café da manhã, lamentam não ter dinheiro para um tênis de marca, sentem-se ameaçados quando pressentem o perigo, questionam o futuro diante do sucesso e distanciamento dos amigos mais próximos. E esses dois garotos, que apenas se conhecem de vista, jamais poderiam imaginar o quanto são parecidos.

O livro de Rosa Amanda Strausz é uma sucessão de surpresas, e das boas, dessas que tornam a experiência de leitura satisfatória. O texto se mantém interessante para todos os públicos, dando margem para diversas discussões pertinentes. Uólace e João Victor nos fazem ver que todas as pessoas têm suas próprias lutas e que, sejam quais forem as circunstâncias, precisamos enfrentá-las.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 10 de abril de 2026

"Literatura & Eu" completa 10 anos 🥳

Sei que estou atrasado com esta postagem, mas cá está ela!

No começo deste ano, o “Literatura & Eu” completou 10 anos de existência. Foram mais de duzentas obras resenhadas por aqui ao longo do último decênio, e certamente não poderia deixar passar um marco assim tão importante para o blog sem expressar umas poucas palavras de gratidão:

Gratidão aos livros incríveis que li nesse período, e obviamente aos autores mais incríveis ainda que os escreveram; gratidão aos leitores que sempre estiveram por aqui, alguns desde o começo do blog, acompanhando minhas impressões de leitura, fazendo pequenos e longos comentários, e me mandando e-mails tão estimulantes e significativos, que sempre me deram um incentivo extra a continuar compartilhando minhas descobertas literárias.

Este blog se chama “Literatura & Eu” não por acaso. A Literatura e eu temos uma história juntos, tal como ocorre com todo leitor apaixonado. Mas falando aqui da minha história especificamente, gostaria de enaltecer a importância dessa forma de arte na minha vida. Quando olho pra trás e penso: “O que teria sido de mim sem a Literatura?”, percebo que este “eu” que vocês conhecem não existiria. Haveria sim um Daniel, mas tão menos interessante, tão vazio de espírito, tão incompreensivo com as pessoas, alguém seguramente muito menos feliz.

A Literatura surgiu na minha vida muito modestamente na infância, marcou uma presença mais notória na adolescência e fixou-se de vez à minha existência logo no começo da vida adulta. E tudo isso espontaneamente, sem influência de ninguém, o que me dá uma dózinha às vezes, principalmente quando descubro livros que eu teria amado ler na infância/adolescência, se algum adulto os tivesse me apresentado. Mas, de uma forma ou de outra, cedo ou tarde, os livros foram chegando, chegando e nunca mais pararam de chegar.

A Literatura esteve comigo nos melhores e nos piores momentos da minha vida. Para todas as fases, todos os períodos e momentos marcantes, tenho livros respectivamente associados, atrelados a lembranças diversas, boas e ruins, tristes e felizes. Querem ver?

Lembro das repetidas vezes que li Chapeuzinho Vermelho e o Lobo-Guará (Ângelo Machado), primeira leitura de que me recordo, por volta dos oito anos; aos doze descobri A Hora da Verdade e comecei uma caça a tudo quanto fosse escrito pelo Pedro Bandeira; Sozinha no Mundo (Marcos Rey) e A Força da Vida (Giselda Laporta Nicolelis) foram emprestados pelos meus raros amigos que tinham livros rs; li O Guarani no ensino médio, e desde então vivo um caso de amor com José de Alencar; A Ilha Maldita (Bernardo Guimarães), lido na faculdade, atiçou o meu verme dos livros raros; Éramos Seis (Maria José Dupré) me lembra quando passei no concurso público; A Intrusa (Júlia Lopes de Almeida) foi um dos muitos que me fizeram companhia durante uma licença-saúde; A Capital (Eça de Queiroz) me lembra minha primeira viagem de avião; e vamos parando por aqui, pois o assunto renderia um livro inteiro rs.

Nem todos os livros lidos nos últimos dez anos estão resenhados aqui, mas a maioria certamente está. Também é óbvio que nem todas essas mais de duzentas experiências foram marcantes e arrebatadoras, e se tem algo de que me orgulho profundamente é da sinceridade/honestidade com que redigi cada resenha, enaltecendo os livros que amei, e sinalizando aqueles que me maçaram até não poder mais rs. Leitura é isso: um universo tão grande, tão vasto, que não dá pra gostar de tudo, não é mesmo? Cada um tem uma experiência diferente. Mas quando eu disser que um livro é bom, está dito, viu? rs

O mestrado, que venho cursando desde o ano passado, tem comprometido minha assiduidade nas resenhas. Mas tudo tem seu tempo, não acham? Podem ter certeza que, bem antes de se passar outra década, muitas novas leituras incríveis serão devidamente compartilhadas por aqui, porque enquanto os livros continuarem conversando comigo, eu terei sempre algo a dizer dessas conversas.


Daniel Coutinho

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sábado, 4 de abril de 2026

Menina Isabel, de Maria José Dupré - RESENHA #221

Com Menina Isabel finalizo a ficção adulta de Maria José Dupré, autora cuja obra tenho lido com prazer desde 2014. À exceção de Éramos Seis e Dona Lola (lidos quando este blog ainda não existia), todos os romances da escritora paulista estão resenhados por aqui. Foi maravilhoso acompanhar a trajetória desta prosadora que sempre me pareceu subestimada, talvez por sua fama de autora best-seller no século passado.

Menina Isabel (1965), seu último romance publicado, é obra menos inspirada, mas que nem por isso deixa de ter o seu interesse particular. Nele temos muitas das características marcantes da escrita da senhora Dupré: personagens femininas complexas, apreciação do cotidiano, escrita poética, conflitos geracionais, etc.

Podendo também ser considerado um romance de formação, a obra compreende a trajetória de Isabel desde a infância até os dezenove anos. Toda a vida da personagem é marcada por um fato ocorrido logo no início da narrativa: a separação dos pais. Além do trauma de crescer numa família “diferente”, Isabel sofre por se sentir ignorada e subestimada por todos em casa, que distorcem o fato da separação, escondendo-lhe detalhes que ela acaba tendo de descobrir sozinha.

Isabel circula entre dois ambientes: o apartamento em São Paulo, onde é ignorada pelo irmão João, desprezada pela irmã Marina e negligenciada pela mãe pouco atenciosa; e a fazenda Pau Queimado, pertencente ao avô Laerte, espécie de refúgio de toda sua vida, lugar onde se conecta com a natureza e consigo mesma.

Os primeiros episódios do livro, referentes à infância de Isabel, são ambientados em Pau Queimado. Isso confere certa leveza à narrativa que infelizmente não iria muito além das primeiras páginas. O texto é aconchegante, nesse início de romance, com as descrições dos cafezais, os passeis no cavalinho Serapião, as atenções do avô Laerte, as guloseimas de café da manhã feitas pela Ludovica e as histórias impressionantes da avó Eulália.

Mas a vida idílica em Pau Queimado é interrompida pela voz da realidade que grita de São Paulo. Isabel precisa entrar para a escola e cumprir com todos os deveres que se esperam de uma menina da classe média alta. A separação dos pais, que ela busca entender por toda a infância, põe um travo constante em sua existência. Isabel ainda se sente deslocada num lar pouco afetuoso: o irmão João parte para um seminário, a irmã Marina implica com sua aparência, o pai tenta comprá-la com passeios impessoais, e a mãe vive de lamentações, chorando por um problema que ninguém ousava tocar.

A rebeldia torna-se inevitável. Isabel negligencia os estudos, inventa mentiras sobre Marina e despreza a companhia forçada do pai. A mãe, única que ainda tem sua simpatia, parece uma morta em vida, alguém quase tão carente quanto a própria filha caçula. Isabel torna-se má, caprichosa. É sua maneira de sobreviver.

A adolescência converte a menina feia numa moça atraente, e logo Isabel percebe que sua beleza era um trunfo em suas mãos. Decidida a se vingar da irmã, Isabel afugenta todos os pretendentes de Marina, e quando o relacionamento se torna mais sério com um deles, Henrique, a irmã mais nova arma um plano de manipulação para atraí-lo.

Quando a mãe também ganha as atenções de um pretendente, Isabel se revolta, não aceitando que um padrasto assuma um lugar de poder em sua casa. Diante disso, ela usará o mesmo poder de manipulação para afastar Jorge de sua mãe, mas Isabel não contava que seu adversário pudesse ser mais perigoso do que ela supunha.

Menina Isabel, mesmo tendo uma proposta interessante, pecou quanto ao desenvolvimento. A trama, especialmente na segunda metade, ganha um tom mais artificial, e certos acontecimentos se dão num modo automático, soando pouco convincentes. É visível um esforço da autora por manter um contraponto entre a cidade e o campo, mas os episódios em Pau Queimado não conseguem preservar a vivacidade das primeiras cenas. A certa altura do romance, o drama da protagonista parece ficar insustentável, e a própria autora se mostra hesitante sobre como prosseguir: o resultado é um desfecho por demais prolongado, ainda que sem muita matéria, e uma solução meio súbita, sem maiores explicações.

O último romance de Maria José Dupré encerra de modo simpático sua produção ficcional. Embora não feche o ciclo com chave de ouro, entrega-nos um pouco mais da prosa delicada, sensível e absorvente de uma autora que era perita em cativar leitores no frenético “vira-páginas” de seu estilo.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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